Carla Amaro
In: Notícias Magazine
06.Jan.2008
Poluição, o mal maior das cidades
Os gazes que saem dos escapes dos automóveis matam mais pessoas do que os acidentes na estrada. É chegada a hora de incluir nos planos de ano novo objectivos de natureza ambiental, como deixar o carro em casa e andar mais a pé e de transportes públicos.
Pela saúde de todos.
A comemoração dos dez anos do Protocolo de Quioto, na Conferência Nações Unidas sobre Alterações Climáticas, que decorreu há quase um mês em Bali, na Indonésia, voltou a lembrar o mundo, em particular os países desenvolvidos – os que mais poluem – e os países em desenvolvimento, da urgência de medidas que travem o aquecimento global. O problema afecta-nos a todos e todos contribuímos para o seu agravamento. Agora que estamos a iniciar um novo ano, que tal juntarmos à lista de planos para 2008 alguns objectivos ambientais? Deixar o carro e andar mais vezes a pé ou de transportes públicos seria o suficiente para reduzirmos consideravelmente a emissão para a atmosfera de gases de efeito estufa, os principais responsáveis pelo aquecimento da temperatura global. Só para ter uma ideia do que esta contenção representaria, saiba que a redução em cinco por cento da utilização diária do carro apenas em Lisboa e no Porto equivaleria a 350 mil toneladas de dióxido de carbono (CO2) a menos lançadas para a atmosfera. Agora imagine se o mesmo acontecesse em todas as cidades do mundo.
Juntar este objectivo a outros não custa nada e, se calhar, é até mais fácil de concretizar do que deixar de fumar, fazer a inscrição num ginásio, mudar hábitos alimentares, organizar a papelada, entregar os IRS em atraso, levar os filhos à Disneylândia…
A alteração do clima é um dos mais graves problemas ambientais, não é invenção, nem exagero, nem fundamentalismo de meia dúzia de grupos. Os ambientalistas começaram por alertar e a comunidade científica que trabalha nesta área não se cansa de publicar estudos e elaborar relatórios que certificam a gravidade da situação: se continuarmos a cometer os mesmos erros, as temperaturas médias globais aumentarão entre l° e 3,5° C até 2100, o que irá resultar na aceleração do degelo (os glaciares vão derreter ainda mais depressa) e no aumento do nível médio das águas do mar de 15 a 95 cm – o suficiente para cidades baixas como Nova Iorque ficarem submersas.
Mas que relação têm estes fenómenos com o objectivo ambiental que a nm sugere: o de deixarmos o carro em casa e andarmos mais vezes a pé ou utilizarmos os transportes públicos para irmos trabalhar? Têm tudo a ver. O aquecimento global, embora seja um fenómeno natural que aconteceria de qualquer maneira, está a ser acelerado por acção do homem, concretamente através do uso e abuso de combustíveis fósseis como o petróleo, o gás natural e o carvão, cuja queima liberta os chamados GEE (gases de efeito estufa). Essa libertação sempre ocorreu, mas nos últimos anos a sua concentração na atmosfera alcançou níveis preocupantes.
Uma das consequências mais «visíveis» da queima de combustíveis fósseis é a poluição ambiental, em especial nas cidades de maior tráfego rodoviário, e que hoje em dia já é considerada um problema de saúde pública.
Embora a poluição do ar também tenha origem em factores naturais – as tempestades de areia, o metabolismo das plantas e dos animais, os vulcões, que em erupção expelem enormes quantidades de poeiras e gases que comprometem a qualidade do ar nas regiões mais próximas… –, os seus efeitos mais nefastos resultam dos processos de combustão, sendo por essa razão, aliás, que está muito associada ao desenvolvimento das cidades, das indústrias, dos combustíveis e do tráfego automóvel. Um dos instrumentos actualmente disponíveis para sabermos o nível de poluição do ar que respiramos numa cidade, num bairro ou numa avenida é o IQar, Índice da Qualidade do Ar (a Agência Portuguesa do Ambiente, que substitui o antigo Instituto do Ambiente, disponibiliza uma base de dados online actualizada sobre a qualidade do ar nas localidades onde se fazem medições).
Apesar de a Organização Mundial de Saúde chamar a atenção para mais de quarenta poluentes, o IQar mede apenas as concentrações daqueles que são mais comuns numa área urbana: monóxido de carbono (CO), dióxido de azoto (NO2), dióxido de enxofre (SO2), ozono (O3) e partículas finas (PM). Estas substâncias estão presentes, em maiores ou menores quantidades, nos vinte quilos de ar que inalamos por dia. Mas por que razão são tão perigosas?
Um dos perigos está associado à formação de chuva ácida, cuja capacidade de corrosão é tão poderosa que deteriora monumentos e queima a vegetação. Em Portugal, as localidades que registam um índice mais elevado de chuva ácida são Sines, Setúbal, Barreiro, Seixal, Lisboa, Estarreja, Porto, Carregado e Tapada, precisamente onde a emissão de poluentes, devido ao tráfego automóvel e às actividades industriais, atingem níveis mais elevados.
Muito mais graves são os efeitos da poluição na saúde. Os últimos oitenta anos foram férteis em acontecimentos que alertaram o mundo para as graves consequências causadas por períodos de poluição aguda. O vale do rio Meuse, na Bélgica, em Dezembro de 1930, foi coberto por uma nuvem de poluição que em poucos dias fez 63 vítimas mortais (causa provável: elevados níveis de dióxido de enxofre que na altura foi detectado no ar). Em Donora, na Pensilvânia (EUA), em 1948, uma inversão térmica provocou a morte a vinte pessoas e mais de sete mil manifestaram problemas respiratórios, irritação nos olhos, náuseas e vómitos. Em 1950, em Poza Rica, no México, o mesmo fenómeno matou 32 pessoas e levou 320 a internamento hospitalar. A cidade de Londres, em Inglaterra, sofreu o mais terrível dos casos de inversão da temperatura, em Dezembro de 1952. O episódio, conhecido como mortífero smog, tirou a vida a quatro mil pessoas devido à concentração excessiva de poluentes (smog é o termo utilizado para designar a formação de uma nuvem de poluição junto ao solo); ocorre em muitas cidades do mundo porque tem como principal causa as emissões de poluentes provenientes dos automóveis. Quando há uma inversão térmica, os perigos do smog são acrescidos (a inversão térmica acontece quando a camada de ar junto ao solo arrefece e fica coberta por um manto de ar quente, fazendo com que a poluição, em vez de subir e se dispersar, fique retida na camada de ar mais próxima do solo).
Depois destes episódios dramáticos que fizeram milhares de mortes, a comunidade científica passou a dedicar mais atenção à investigação sobre os efeitos da poluição do ar e actualmente não faltam estudos que alertam para a perigosidade de determinados poluentes que inalamos de cada vez que inspiramos.
Crianças são as mais afectadas
Com variações em função do tempo de exposição aos poluentes e das suas concentrações, a poluição afecta fortemente a saúde das pessoas, sendo as crianças as mais vulneráveis ao desenvolvimento de doenças associadas à poluição do ar pelo facto de o seu organismo estar ainda em fase de desenvolvimento e, por esse motivo, menos capaz de reagir a perturbações causadas por poluentes.
Os dados da Agência Europeia do Ambiente (AEA), no relatório sobre o Estado do Ambiente na Europa (2003), não alimentam dúvidas quanto ao papel da poluição na degradação da saúde pública. Garante a AEA que a maior parte dos internamentos nos hospitais da Europa se deve a episódios de asma, de alergias e de outras doenças respiratórias desenvolvidas por acção da poluição. No mundo, o número de mortes prematuras por causa da poluição do ar ronda os três milhões. Na Europa, por ano, em cada milhão de crianças há 138 que desenvolvem doenças cancerígenas associadas às radiações ultravioletas e aos produtos químicos utilizados nas indústrias e na agricultura. Em muitas populações europeias, o desenvolvimento de distúrbios físicos e mentais provocados pela exposição ao chumbo, ao mercúrio e aos PCB afectam dez por cento das crianças (os PCB são derivados de compostos químicos tóxicos presentes no ambiente).
Outra entidade bastante esclarecedora nos dados que divulga e que atestam a forte relação entre poluição e doença é a Organização Mundial de Saúde (OMS), segundo a qual a poluição atmosférica mata anualmente três milhões de pessoas no mundo. E na Europa, uma em cada três mortes de crianças deve-se à má qualidade do ar, o que perfaz o sinistro número de cem mil mortes anuais, representando 34 por cento da totalidade da mortalidade infantil.
Nas mulheres grávidas, a exposição frequente e prolongada a determinados poluentes comuns nos meios urbanos, em especial o monóxido de carbono e o ozono, pode provocar deficiências cardíacas nos fetos. Esta probabilidade foi avançada por uma equipa de investigadores da Universidade da Califórnia, que, num trabalho de monitorização e de recolha de dados de nove mil bebés, nascidos entre 1987 e 1993, e de suas mães, detectaram que as mães que residem em locais com tráfego intenso têm três vezes mais bebés com problemas cardíacos do que as mães que vivem em zonas com um ar mais «respirável». Para a comunidade científica, esta constatação não é suficiente para validar conclusões definitivas quanto às consequências da acção dos poluentes no desenvolvimento dos fetos, mas é reconhecida como um alarmante indicador de que o monóxido de carbono e o ozono tiveram implicações nos problemas cardíacos das crianças abrangidas no estudo.
Os efeitos da poluição atmosférica também se fazem sentir a outros níveis. Há indicadores de que pode provocar um stress capaz de alterar a «razão de sexo» (isto é, menino ou menina), à semelhança do que já foi identificado para outros tipos de stress. Um estudo realizado pela Universidade de São Paulo, no Brasil, entre 2001 e 2003, sugere que a poluição aumenta a probabilidade de nascimento de meninas. Com base num universo de 17 milhões de pessoas que habitam em zonas da cidade de pouca, média e muita poluição, os investigadores verificaram que nas áreas mais poluídas nasceram mais raparigas.
Não obstante os estudos que atribuem à poluição atmosférica aumentos na taxa de doenças, alterações no aparelho respiratório, deficiências cardíacas nos fetos ou até interferências na definição do sexo, há determinados factores que fazem com que os efeitos da poluição sejam mais graves numas pessoas do que noutras, por exemplo a natureza dos poluentes, as quantidades absorvidas pelas pessoas, o clima, as infecções bacterianas ou virais relacionadas com as estações do ano, factores como a idade das pessoas, o seu estado de saúde, os hábitos tabágicos, entre outros.
As maiores fontes de poluição
O dióxido de carbono, o metano e o óxido nitroso, que no seu conjunto constituem o designado eqCO2 (ou CO2 equivalente: contabiliza as emissões de CO2, de CH4 e de N2O), não são invenção do homem. A sua existência é anterior à do ser humano na Terra, mas só nas últimas décadas passaram a constituir uma ameaça devido à sua excessiva concentração. A Revolução Industrial é apontada como um marco que iniciou todo este processo; em200 anos, as emissões aumentaram 31 por cento. Actualmente, os transportes estão na linha da frente como fonte de poluição do ar em ambiente urbano, sendo responsáveis por 33 por cento das emissões nacionais de gases de efeito estufa. Segundo a Agência Europeia do Ambiente (AEA), são os que mais contribuem para a colocação de uma cidade como Lisboa na lista das piores capitais europeias em qualidade do ar. O avião está no topo da lista dos que mais poluem. Numa viagem de 700 quilómetros, o equivalente à distância entre Faro e Viana do Castelo, o avião é o que mais CO2 equivalente emite (77.500 gramas). Seguem-se o automóvel (46.500 g), o autocarro (19.375 g), o comboio (2325 g) e, finalmente, o barco (775 g) – estes cálculos foram divulgados na «edição verde» da revista Visão de 25 de Outubro de 2007.
Nas cidades, a utilização do automóvel individual é dos factores que mais agravam os índices de poluição atmosférica. Só na capital entram todos os dias mais de 400 mil veículos. No país, dois automóveis são vendidos a cada dois minutos e para alimentar esta frota gastam-se diariamente 22 milhões de litros de gasolina e de gasóleo. E apesar de a indústria estar cada vez mais dotada de tecnologias capazes de conceber veículos mais eficientes, que funcionam com combustíveis menos poluentes, os construtores continuam a faltar à promessa de produzir automóveis que consigam reduzir consideravelmente as taxas de emissões de substâncias prejudiciais à saúde e que agravam o efeito estufa. Só a título de referência: os carros vendidos no espaço europeu em 2006 e cujas marcas integram a Associação Europeia de Construtores Automóveis (ACEA) emitem em média 160 gramas de CO2 por cada quilómetro percorrido, ou seja, apenas menos meio grama desde o ano anterior. Mas a promessa consistia em reduzir para 140 g por quilómetro. De acordo com dados disponibilizados pela Quercus – Associação Nacional de Conservação da Natureza e pela Federação Europeia de Transportes e Ambiente (T&E), Portugal é o país que apresenta um menor valor médio, com 144 g/km, no conjunto dos 24 países da União Europeia que têm registos das emissões de dióxido de carbono nos veículos automóveis novos vendidos em 2006.
As cidades mais poluídas
Quinze cidades portuguesas excedem os limites de poluição. Lisboa lidera a lista das mais poluídas, seguindo-se-lhe Guimarães, Paredes e Espinho. O ranking das cidades nacionais mais poluídas, feito pelo semanário Expresso com a colaboração da Agência Portuguesa do Ambiente (APA), tendo por base medições da qualidade do ar durante 2005, revelou que, nesse ano, a capital registou mais dias com excesso de concentração de partículas (183 dias), sendo que a norma admite um máximo de 35 dias de excedências. A Avenida da Liberdade (em Lisboa) é a que concentra maiores níveis de poluentes emitidos pelos automóveis, não só devido ao tráfego intenso mas também por ser estreita e rodeada de prédios altos.
O facto de a poluição atmosférica registar excedências (dias em que os níveis de concentração de poluentes excedem os limites máximos) em ambientes urbanos ganha uma relevância maior se pensarmos que cerca de 42 por cento da população reside em cinco por cento do território nacional. Estimativas da Organização das Nações Unidas (ONU) apontam para o agravamento da situação em 2015, altura em que 69,2 por cento da população viverá nas áreas metropolitanas do Porto de Lisboa. Mais: os poluentes são considerados responsáveis pela redução de nove meses na esperança média de vida dos europeus, o que por si só seria razão suficiente para «fugirmos» dos grandes centros urbanos em vez de, tendencialmente, nos fixarmos neles.
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