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O sonho da floresta

Outubro 19, 2007 por div. temas

Há muito, muito tempo, antes da chegada do homem branco ao Novo Continente, Lalita, uma jovem índia, levantou-se uma certa manhã a tremer: tinha tido um pesadelo. Sonhara que majestosas aves brancas atravessavam o oceano, acompanhadas por um vento tão forte que todas as árvores se curvavam à sua passagem.

Tinha até ouvido a floresta chorar.

— O que quer isto dizer? – perguntou aos pais.

Mas nem o pai nem a mãe souberam explicar-lhe.

— Foi apenas um sonho, Lalita – disse o pai. — Não te inquietes, minha filha.

Mas, um dia, pouco tempo depois deste curioso sonho, numa altura em que estava a contemplar o horizonte, Lalita pensou ter visto, ao longe, enormes aves brancas que voavam ao seu encontro por cima do mar. Não eram – infelizmente – aves majestosas, mas antes as velas brancas de imponentes navios, a bordo dos quais se encontravam estranhos indivíduos. Lalita estremeceu, o sonho tornava-se realidade.

Os homens vindos do Oceano chegaram a terra. Possuíam machados e nenhum respeito tinham pela floresta. Nem sequer se preocuparam com os índios que, ao contrário deles, amavam as árvores e compreendiam a sua linguagem. Começaram então os homens brancos a abater, uma a uma, as árvores da floresta. Acarretavam as árvores mortas até aos navios, deixando para trás a terra desolada e nua. Uma vez desaparecida a floresta, nada mais restava a Lalita senão chorar. Já não havia vivalma na floresta, nem ursos nem aves. E os próprios índios se puseram em fuga, os velhos apoiados nos bastões e os bebés nos braços das mães.

Lalita não queria fugir. O coração dizia-lhe que ficasse junto das árvores bem-amadas e não as abandonasse.

— Irei mais tarde – prometeu à mãe. Refugiou-se então numa gruta. Cheia de terror e de desespero, viu os homens brancos destruírem a floresta. Ouviu também choros de crianças. Em verdade, eram os gritos de dor das árvores abatidas pelos machados. Lalita sentiu que o seu coração se partia. Viu e escutou tudo, até ao momento em que os homens brancos levaram a última árvore, desaparecendo por fim.

Ao cair da noite, Lalita deixou o refúgio. No céu, as estrelas brilhavam como diamantes. Os reflexos cor de safira, rubi e esmeralda da aurora boreal acariciavam os cumes das montanhas. Mas Lalita nada via desse espectáculo. Chorava a floresta cujas   árvores conhecera uma por uma. Chorava a terra devastada que outrora acolhera o seu povo. E as lágrimas impediam-na de ver o crescente prateado da lua a subir no céu e a resplandecer num silêncio de morte.

Lalita estava estendida, imóvel. Apenas os cabelos ondulavam sobre a terra deserta. Durante sete dias e sete noites assim permaneceu. Durante sete dias e sete noites Lalita chorou. E chorou tanto que um riacho nasceu das suas lágrimas.

E do riacho brotou uma cascata.

E as lágrimas de Lalita espalharam-se pela terra seca formando novos rios.

Na manhã do oitavo dia, algo de inesperado ocorreu. Um rebento surgiu na beira do rio de lágrimas. E o rebento transformou-–se numa campainha tão branca e suave como a lã de um cordeiro. Pouco depois surgiu uma outra campainha-branca, depois uma outra, e a terra devastada acabou por se cobrir completamente de pétalas brancas como a neve.

Mas Lalita de nada se deu conta. Continuava a chorar. As suas lágrimas alimentavam o rio que se espalhava sem cessar. As lágrimas impediam-na de ver os jovens rebentos de carvalho e os minúsculos picos dos pinheiros que nasciam. Não via as árvores que cresciam a seus pés nem as flores que surgiam entre os seus dedos.

Um dia, ao nascer do sol, ouviu-se um canto tão puro e tocante como a música de uma flauta.

— Um pássaro! – murmurou Lalita.

Parou de chorar e abriu os olhos. Nos ramos de um ácer um pisco cantava.

Lalita riu, saltou de alegria e estendeu os braços. A ave, tão feliz quanto ela, esvoaçou e veio pousar-lhe na mão. A vida regressava à floresta. As suas lágrimas tinham sido sinceras, e a elas a terra tinha ido buscar a água e o amor necessários para que a natureza de novo brotasse. O amor permitira o regresso dos animais, dos pássaros e da sua família.

A partir desse dia os índios afirmam que, se um amor é verdadeiro, tudo o que foi destruído renasce das cinzas.

Kenneth Steven

Le songe de la forêt

Paris, Ed. Gründ, 2002

Tradução e adaptação

Publicado em crianças, desflorestação, destruição, ecologia, ecologia para crianças, educação, meio-ambiente, natureza, pedagogia, poluição, sensibilização | Tagged árvores, floresta | Sem comentários ainda

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