José Dias da Silva
Além-Mar, Novembro de 2006
No passado 9 de Outubro [2006], sem darmos por isso, aconteceu algo demasiado perigoso. Nesse dia esgotámos os recursos que a Terra nos pode dar para o ano todo. É como se alguém que tivesse 1000 euros para gastar anualmente os tivesse gasto até Outubro. Ora, o ritmo a que estamos a delapidar a nossa conta bancária ecológica está a tornar-se insustentável: em 1987 acabou a 19 de Dezembro; em 1995, a 21 de Novembro e este ano a 9 de Outubro.
Este saldo negativo ecológico não se vê, pois a Terra aí está, tão grande e tão sólida; o petróleo, apesar do preço, produz-se aos milhões de barris por dia; o Sol, o vento ou as marés «oferecem» energias renováveis. No entanto, já começámos a tomar consciência de que nem tudo está bem: os governantes penalizam as poluições e o cidadão comum já percebeu que afinal a Terra não é tão grande nem tão rica como se pensava. Apesar disso, é urgente continuar a pressionar a opinião pública para que adquira uma verdadeira consciência ecológica.
O principal perigo é que ainda não percebemos que estes efeitos tão grandiosos resultam dos minúsculos gestos que cada um de nós faz no seu dia-a-dia. É certo que cada um dá um contributo muito pequeno. Contudo, esses pequenos nadas são multiplicados por milhões, dando um resultado final muito significativo. Ora é esta operação de multiplicar por milhões que ainda não interiorizámos.
Mas não basta pensar em termos de ecologia física ou ambiental, a que deteriora a natureza. Já há 15 anos João Paulo II falava de ecologia social e ecologia humana, dimensões que temos de ter em conta, pois, como se lamentava então o Papa, «empenhamo-nos demasiado pouco em salvaguardar as condições morais de uma autêntica ecologia humana».
A ecologia social requer uma nova consciência da solidariedade, que obrigue cada país a aceitar as responsabilidades próprias nas causas e na solução da crise ecológica e obrigue cada geração a reconhecer que os que vierem depois de nós têm o direito inalienável de encontrar uma Terra habitável. Aqui deparamo-nos com o obstáculo dos nossos egoísmos individuais, grupais, nacionais, continentais e geracionais: teremos de aprender a pensar nos outros, no espaço e no tempo. E o primeiro exercício, já tão discutido e tão programado, deve ser a erradicação da pobreza.
A ecologia humana, por outro lado, implica combater todas as ameaças contra a vida no seio da família ou da sociedade, concretizar para todos os serviços básicos vitais, educar para um consumo equilibrado e um comportamento responsável, mas sobretudo para uma «cultura da vida» na qual todos e cada um tenham vida e a tenham em abundância.
Precisamos para isso que o lobo do Norte conviva com o cordeiro do Sul e o leão do Oeste coma ao lado do urso do Leste. Precisamos que as armas de destruição maciça, instrumentos de morte, se convertam em arados, instrumentos do pão, e em computadores, instrumentos de cultura.
Sonhos de um louco visionário? Para uns não passará de uma utopia, porque ainda não existe em nenhum lugar da Terra. Para mim e para outros, já está presente em muitos pequenos gestos de solidariedade, sementes de um mundo no qual, como sublinhava João Paulo II, «voltaremos a encontrar, iluminados e transfigurados, os valores da dignidade humana, da comunhão fraterna e da liberdade, esses frutos excelentes da nossa natureza e do nosso trabalho, depois de os termos espalhado pela Terra… ».