Cabelo ao vento,
Valéria avançava no vale,
no verde vale,
Valéria.
O riacho passou perto dela, correndo de pedra em pedra, e disse bom dia. Era um riacho muito bem-educado.
E Valéria respondeu: – Bom dia, amigo Riacho! – e perguntou:
— Quem sujou as tuas águas que eram tão claras quando eu tinha cinco anos e ia à escola pela primeira vez? Quem foi?
E o riacho, de pedra em pedra correndo, contou que todas as fábricas da região ali deitavam mercúrio, cobre, zinco, chumbo, todas as coisas ruins que estragavam as suas águas.
— Eu sei! — disse Valéria. — Tu estás poluído, amigo Riacho; os homens que fizeram isso são ignorantes, a tua água já não vai servir para beber, os teus peixes vão ficar doentes, as plantas e as árvores que tu regas não podem ser felizes.
E os peixes subiram à tona do riacho e disseram a Valéria:
— Sim, nós estamos doentes.
E as plantas curvaram as suas cabecinhas floridas e disseram a Valéria:
— Sim, nós estamos infelizes.
Foi então a vez de as árvores agitarem os ramos e os frutos e dizerem a Valéria:
— Nós também não somos felizes.
E Valéria contou pelos dedos das mãos: por causa do chumbo, do chumbo e do mercúrio, do mercúrio e do zinco, do zinco e do cobre, dos produtos químicos, e dos homens que não sabem o mal que estão a fazer.
Depois do riacho, dos peixes, das plantas e das árvores, foi a chuva quem disse a Valéria:
— Eu também estou poluída; vim do mar, do grande mar, que está poluído pelo homem. Mil espécies de peixes já desapareceram e quase 20000 correm o perigo de desaparecerem. E agora até existe outra poluição porque os navios encheram os oceanos de garrafas de plástico.
— De garrafas de plástico?
— Sim. O Oceano Pacífico está cheio de garrafas de plástico que serviram para refrigerantes e que são lançadas ao mar. São milhares de garrafas que ficam a boiar. E lá no fundo, onde antigamente havia lindos recifes de corais, encontra-se chumbo, mercúrio; os peixes não resistem, Valéria; se os homens não tiverem juízo, o mar pode morrer e os homens não podem viver sem o mar…
— Os homens não podem viver sem o mar — repetiu Valéria — e também não podem viver sem o ar que devia ser transparente mas também está poluído.
— Claro que estou poluído — confirmou o ar. — As chaminés das fábricas, os automóveis, os aviões têm-me poluído de tal maneira que qualquer dia não tenho oxigénio suficiente para a respiração das plantas, dos animais e do próprio homem.
Depois do riacho, dos peixes, das plantas e das árvores e da chuva que falou do mar, e do ar que soprou as suas verdades, foi um pato que tinha vindo da Dinamarca que contou a Valéria que na sua terra havia cento e cinquenta mil caçadores que tinham cento e cinquenta mil espingardas e enchiam a Natureza de chumbinhos…
O pato explicou:
— Os meus amigos gansos, os meus camaradas marrecos e os meus irmãos patos engolem os chumbinhos que encontram na terra, misturados com pedras pequenas, e os chumbinhos, aos poucos, envenenam as aves; e se um dia os caçadores caçarem as aves, também podem ser envenenados ao saborearem o jantar…
— Os homens não sabem o que fazem — disse mais uma vez Valéria. —É preciso que todas as crianças do mundo, que serão os homens do futuro, salvem a Natureza. — Salvem os rios, os riachos, os lagos e as lagoas, os peixes e peixinhos, os corais, os mariscos, todas aquelas coisas vivas e lindas com conchas e conchinhas, o mar, o grande mar, que leva os barcos e beija a praia, o ar, o oxigénio, o vento as nuvens, a chuva, os marrecos, os patos e os gansos, e todos os pássaros e todos os homens, e Valéria e todas as Valérias do mundo.
Foi então que o solo contou os seus problemas:
— Derrubaram as minhas florestas, queimaram a vegetação, colocaram herbicidas nas minhas folhas (sou ainda verde, mas por quanto tempo?), mataram os insectos; as vacas comeram a erva, e o leite ficou envenenado; as crianças que beberam o leite estão doentes. Assim não podemos continuar, pois não, Senhora Galinha?
E a galinha que estava a debicar as folhas e folhinhas nas pedras e nas pedrinhas disse logo que não; os seus ovos já não eram tão bons e os cereais também não e as verduras também não.
Valéria sabia que nenhum deles mentia porque a Natureza nunca mente e que era preciso escrever para as crianças do Brasil que escreveriam para as de Portugal para que escrevessem para as da França que escreveriam para as da Rússia para que escrevessem para as da Índia – que escreveriam para as do Japão para que escrevessem para as da China – que escreveriam para as da Inglaterra, da Itália, da América, de todos os cantos e recantos do mundo, porque era preciso que todos os meninos – meninos brancos, meninos pretos, meninos amarelos, (e as meninas também, é claro) – soubessem que a vida estava em perigo e era preciso salvar a vida.
Cabelo ao vento, Valéria avançava no vale, no verde vale, Valéria.
E escreveu cartas e mais cartas enviadas pelo correio, levadas pelos pássaros que emigravam, pelos peixes que partiam para outros rios e para outros mares sopradas pelo vento, seguindo na boca dos bichos, passadas de mão em mão pelas crianças de todas as raças.
E as crianças de todas as raças chamaram os pássaros e os peixes e o vento e os bichos e as mãos, e levaram a mensagem de Valéria para que todos soubessem, em todas as partes do mundo, que a vida estava em perigo.
E quando todas as crianças souberam, todas se recusaram a continuar os erros dos homens — poluindo os rios, a chuva, os mares, o ar, o solo, tudo, tudo, tudo.
A mensagem de Valéria chegou ao coração de todos os meninos e meninas, que serão os homens e as mulheres de amanhã. Que serão os pais e as mães de novos meninos e de novas meninas.
Todos decidiram salvar a Natureza e todos os bichos e todos os seres humanos que fazem parte da Natureza.
Ainda temos de esperar para que as crianças sejam adultas e cumpram a palavra que deram. Mas podemos confiar na palavra dada, porque a palavra da criança não está poluída.
Os pássaros que levaram a mensagem contaram a outros pássaros — os peixes a outros peixes — as ondas a outras ondas e o vento soprou a mensagem que correu nas patas dos bichos.
Agora todos sabem o que se passou, e o riacho salta e saltita e diz:
— Obrigado, Valéria!
Exactamente como os peixes, as plantas e as árvores, que dizem:
— Obrigada, Valéria!
Tal e qual a chuva, que desce do alto muito fininha, para dizer:
— Obrigado, Valéria!
E o ar que voltará a ser transparente e agradece, agradece, enquanto o pato que veio da Dinamarca, em nome de todas as aves e pássaros e de todos os bichos, diz quá-quá , que é “obrigado” em língua de pato.
E a vida, que é tudo, tudo o que está poluído e maltratado pelos homens, olha a menina que enviou a mensagem e tem confiança na promessa das crianças de salvarem a Natureza.
Valéria sorri
e avança no vale,
no verde vale,
Valéria.
Sidónio Muralha
Valéria e a Vida
V. N. Gaia, Edições Gailivro, 2004
adaptado