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  • A pé ou de patins: o que podemos fazer?
  • Poluentes: os que mais inalamos 
  • Carla Amaro
    In: Notícias Magazine
    06.Jan.2008

    Poluição, o mal maior das cidades

    Os gazes que saem dos escapes dos automóveis matam mais pessoas do que os acidentes na estrada. É chegada a hora de incluir nos planos de ano novo objectivos de natureza ambiental, como deixar o carro em casa e andar mais a pé e de transportes públicos.
    Pela saúde de todos.

    A comemoração dos dez anos do Protocolo de Quioto, na Conferência Nações Unidas sobre Alterações Climáticas, que decorreu há quase um mês em Bali, na Indonésia, voltou a lembrar o mundo, em particular os países desenvolvidos – os que mais poluem – e os países em desenvolvimento, da urgência de medidas que travem o aquecimento global. O problema afecta-nos a todos e todos contribuímos para o seu agravamento. Agora que estamos a iniciar um novo ano, que tal juntarmos à lista de planos para 2008 alguns objectivos ambientais? Deixar o carro e andar mais vezes a pé ou de transportes públicos seria o suficiente para reduzirmos consideravelmente a emissão para a atmosfera de gases de efeito estufa, os principais responsáveis pelo aquecimento da temperatura global. Só para ter uma ideia do que esta contenção representaria, saiba que a redução em cinco por cento da utilização diária do carro apenas em Lisboa e no Porto equivaleria a 350 mil toneladas de dióxido de carbono (CO2) a menos lançadas para a atmosfera. Agora imagine se o mesmo acontecesse em todas as cidades do mundo.

    Juntar este objectivo a outros não custa nada e, se calhar, é até mais fácil de concretizar do que deixar de fumar, fazer a inscrição num ginásio, mudar hábitos alimentares, organizar a papelada, entregar os IRS em atraso, levar os filhos à Disneylândia…

    A alteração do clima é um dos mais graves problemas ambientais, não é invenção, nem exagero, nem fundamentalismo de meia dúzia de grupos. Os ambientalistas começaram por alertar e a comunidade científica que trabalha nesta área não se cansa de publicar estudos e elaborar relatórios que certificam a gravidade da situação: se continuarmos a cometer os mesmos erros, as temperaturas médias globais aumentarão entre l° e 3,5° C até 2100, o que irá resultar na aceleração do degelo (os glaciares vão derreter ainda mais depressa) e no aumento do nível médio das águas do mar de 15 a 95 cm – o suficiente para cidades baixas como Nova Iorque ficarem submersas.

    Mas que relação têm estes fenómenos com o objectivo ambiental que a nm sugere: o de deixarmos o carro em casa e andarmos mais vezes a pé ou utilizarmos os transportes públicos para irmos trabalhar? Têm tudo a ver. O aquecimento global, embora seja um fenómeno natural que aconteceria de qualquer maneira, está a ser acelerado por acção do homem, concretamente através do uso e abuso de combustíveis fósseis como o petróleo, o gás natural e o carvão, cuja queima liberta os chamados GEE (gases de efeito estufa). Essa libertação sempre ocorreu, mas nos últimos anos a sua concentração na atmosfera alcançou níveis preocupantes.

    Uma das consequências mais «visíveis» da queima de combustíveis fósseis é a poluição ambiental, em especial nas cidades de maior tráfego rodoviário, e que hoje em dia já é considerada um problema de saúde pública.

    Embora a poluição do ar também tenha origem em factores naturais – as tempestades de areia, o metabolismo das plantas e dos animais, os vulcões, que em erupção expelem enormes quantidades de poeiras e gases que comprometem a qualidade do ar nas regiões mais próximas… –, os seus efeitos mais nefastos resultam dos processos de combustão, sendo por essa razão, aliás, que está muito associada ao desenvolvimento das cidades, das indústrias, dos combustíveis e do tráfego automóvel. Um dos instrumentos actualmente disponíveis para sabermos o nível de poluição do ar que respiramos numa cidade, num bairro ou numa avenida é o IQar, Índice da Qualidade do Ar (a Agência Portuguesa do Ambiente, que substitui o antigo Instituto do Ambiente, disponibiliza uma base de dados online actualizada sobre a qualidade do ar nas localidades onde se fazem medições).

    Apesar de a Organização Mundial de Saúde chamar a atenção para mais de quarenta poluentes, o IQar mede apenas as concentrações daqueles que são mais comuns numa área urbana: monóxido de carbono (CO), dióxido de azoto (NO2), dióxido de enxofre (SO2), ozono (O3) e partículas finas (PM). Estas substâncias estão presentes, em maiores ou menores quantidades, nos vinte quilos de ar que inalamos por dia. Mas por que razão são tão perigosas?

    Um dos perigos está associado à formação de chuva ácida, cuja capacidade de corrosão é tão poderosa que deteriora monumentos e queima a vegetação. Em Portugal, as localidades que registam um índice mais elevado de chuva ácida são Sines, Setúbal, Barreiro, Seixal, Lisboa, Estarreja, Porto, Carregado e Tapada, precisamente onde a emissão de poluentes, devido ao tráfego automóvel e às actividades industriais, atingem níveis mais elevados.

    Muito mais graves são os efeitos da poluição na saúde. Os últimos oitenta anos foram férteis em acontecimentos que alertaram o mundo para as graves consequências causadas por períodos de poluição aguda. O vale do rio Meuse, na Bélgica, em Dezembro de 1930, foi coberto por uma nuvem de poluição que em poucos dias fez 63 vítimas mortais (causa provável: elevados níveis de dióxido de enxofre que na altura foi detectado no ar). Em Donora, na Pensilvânia (EUA), em 1948, uma inversão térmica provocou a morte a vinte pessoas e mais de sete mil manifestaram problemas respiratórios, irritação nos olhos, náuseas e vómitos. Em 1950, em Poza Rica, no México, o mesmo fenómeno matou 32 pessoas e levou 320 a internamento hospitalar. A cidade de Londres, em Inglaterra, sofreu o mais terrível dos casos de inversão da temperatura, em Dezembro de 1952. O episódio, conhecido como mortífero smog, tirou a vida a quatro mil pessoas devido à concentração excessiva de poluentes (smog é o termo utilizado para designar a formação de uma nuvem de poluição junto ao solo); ocorre em muitas cidades do mundo porque tem como principal causa as emissões de poluentes provenientes dos automóveis. Quando há uma inversão térmica, os perigos do smog são acrescidos (a inversão térmica acontece quando a camada de ar junto ao solo arrefece e fica coberta por um manto de ar quente, fazendo com que a poluição, em vez de subir e se dispersar, fique retida na camada de ar mais próxima do solo).

    Depois destes episódios dramáticos que fizeram milhares de mortes, a comunidade científica passou a dedicar mais atenção à investigação sobre os efeitos da poluição do ar e actualmente não faltam estudos que alertam para a perigosidade de determinados poluentes que inalamos de cada vez que inspiramos.

    Crianças são as mais afectadas

    Com variações em função do tempo de exposição aos poluentes e das suas concentrações, a poluição afecta fortemente a saúde das pessoas, sendo as crianças as mais vulneráveis ao desenvolvimento de doenças associadas à poluição do ar pelo facto de o seu organismo estar ainda em fase de desenvolvimento e, por esse motivo, menos capaz de reagir a perturbações causadas por poluentes.

    Os dados da Agência Europeia do Ambiente (AEA), no relatório sobre o Estado do Ambiente na Europa (2003), não alimentam dúvidas quanto ao papel da poluição na degradação da saúde pública. Garante a AEA que a maior parte dos internamentos nos hospitais da Europa se deve a episódios de asma, de alergias e de outras doenças respiratórias desenvolvidas por acção da poluição. No mundo, o número de mortes prematuras por causa da poluição do ar ronda os três milhões. Na Europa, por ano, em cada milhão de crianças há 138 que desenvolvem doenças cancerígenas associadas às radiações ultravioletas e aos produtos químicos utilizados nas indústrias e na agricultura. Em muitas populações europeias, o desenvolvimento de distúrbios físicos e mentais provocados pela exposição ao chumbo, ao mercúrio e aos PCB afectam dez por cento das crianças (os PCB são derivados de compostos químicos tóxicos presentes no ambiente).

    Outra entidade bastante esclarecedora nos dados que divulga e que atestam a forte relação entre poluição e doença é a Organização Mundial de Saúde (OMS), segundo a qual a poluição atmosférica mata anualmente três milhões de pessoas no mundo. E na Europa, uma em cada três mortes de crianças deve-se à má qualidade do ar, o que perfaz o sinistro número de cem mil mortes anuais, representando 34 por cento da totalidade da mortalidade infantil.

    Nas mulheres grávidas, a exposição frequente e prolongada a determinados poluentes comuns nos meios urbanos, em especial o monóxido de carbono e o ozono, pode provocar deficiências cardíacas nos fetos. Esta probabilidade foi avançada por uma equipa de investigadores da Universidade da Califórnia, que, num trabalho de monitorização e de recolha de dados de nove mil bebés, nascidos entre 1987 e 1993, e de suas mães, detectaram que as mães que residem em locais com tráfego intenso têm três vezes mais bebés com problemas cardíacos do que as mães que vivem em zonas com um ar mais «respirável». Para a comunidade científica, esta constatação não é suficiente para validar conclusões definitivas quanto às consequências da acção dos poluentes no desenvolvimento dos fetos, mas é reconhecida como um alarmante indicador de que o monóxido de carbono e o ozono tiveram implicações nos problemas cardíacos das crianças abrangidas no estudo.

    Os efeitos da poluição atmosférica também se fazem sentir a outros níveis. Há indicadores de que pode provocar um stress capaz de alterar a «razão de sexo» (isto é, menino ou menina), à semelhança do que já foi identificado para outros tipos de stress. Um estudo realizado pela Universidade de São Paulo, no Brasil, entre 2001 e 2003, sugere que a poluição aumenta a probabilidade de nascimento de meninas. Com base num universo de 17 milhões de pessoas que habitam em zonas da cidade de pouca, média e muita poluição, os investigadores verificaram que nas áreas mais poluídas nasceram mais raparigas.

    Não obstante os estudos que atribuem à poluição atmosférica aumentos na taxa de doenças, alterações no aparelho respiratório, deficiências cardíacas nos fetos ou até interferências na definição do sexo, há determinados factores que fazem com que os efeitos da poluição sejam mais graves numas pessoas do que noutras, por exemplo a natureza dos poluentes, as quantidades absorvidas pelas pessoas, o clima, as infecções bacterianas ou virais relacionadas com as estações do ano, factores como a idade das pessoas, o seu estado de saúde, os hábitos tabágicos, entre outros.

    As maiores fontes de poluição

    O dióxido de carbono, o metano e o óxido nitroso, que no seu conjunto constituem o designado eqCO2 (ou CO2 equivalente: contabiliza as emissões de CO2, de CH4 e de N2O), não são invenção do homem. A sua existência é anterior à do ser humano na Terra, mas só nas últimas décadas passaram a constituir uma ameaça devido à sua excessiva concentração. A Revolução Industrial é apontada como um marco que iniciou todo este processo; em200 anos, as emissões aumentaram 31 por cento. Actualmente, os transportes estão na linha da frente como fonte de poluição do ar em ambiente urbano, sendo responsáveis por 33 por cento das emissões nacionais de gases de efeito estufa. Segundo a Agência Europeia do Ambiente (AEA), são os que mais contribuem para a colocação de uma cidade como Lisboa na lista das piores capitais europeias em qualidade do ar. O avião está no topo da lista dos que mais poluem. Numa viagem de 700 quilómetros, o equivalente à distância entre Faro e Viana do Castelo, o avião é o que mais CO2 equivalente emite (77.500 gramas). Seguem-se o automóvel (46.500 g), o autocarro (19.375 g), o comboio (2325 g) e, finalmente, o barco (775 g) – estes cálculos foram divulgados na «edição verde» da revista Visão de 25 de Outubro de 2007.

    Nas cidades, a utilização do automóvel individual é dos factores que mais agravam os índices de poluição atmosférica. Só na capital entram todos os dias mais de 400 mil veículos. No país, dois automóveis são vendidos a cada dois minutos e para alimentar esta frota gastam-se diariamente 22 milhões de litros de gasolina e de gasóleo. E apesar de a indústria estar cada vez mais dotada de tecnologias capazes de conceber veículos mais eficientes, que funcionam com combustíveis menos poluentes, os construtores continuam a faltar à promessa de produzir automóveis que consigam reduzir consideravelmente as taxas de emissões de substâncias prejudiciais à saúde e que agravam o efeito estufa. Só a título de referência: os carros vendidos no espaço europeu em 2006 e cujas marcas integram a Associação Europeia de Construtores Automóveis (ACEA) emitem em média 160 gramas de CO2 por cada quilómetro percorrido, ou seja, apenas menos meio grama desde o ano anterior. Mas a promessa consistia em reduzir para 140 g por quilómetro. De acordo com dados disponibilizados pela Quercus – Associação Nacional de Conservação da Natureza e pela Federação Europeia de Transportes e Ambiente (T&E), Portugal é o país que apresenta um menor valor médio, com 144 g/km, no conjunto dos 24 países da União Europeia que têm registos das emissões de dióxido de carbono nos veículos automóveis novos vendidos em 2006.

    As cidades mais poluídas

    Quinze cidades portuguesas excedem os limites de poluição. Lisboa lidera a lista das mais poluídas, seguindo-se-lhe Guimarães, Paredes e Espinho. O ranking das cidades nacionais mais poluídas, feito pelo semanário Expresso com a colaboração da Agência Portuguesa do Ambiente (APA), tendo por base medições da qualidade do ar durante 2005, revelou que, nesse ano, a capital registou mais dias com excesso de concentração de partículas (183 dias), sendo que a norma admite um máximo de 35 dias de excedências. A Avenida da Liberdade (em Lisboa) é a que concentra maiores níveis de poluentes emitidos pelos automóveis, não só devido ao tráfego intenso mas também por ser estreita e rodeada de prédios altos.

    O facto de a poluição atmosférica registar excedências (dias em que os níveis de concentração de poluentes excedem os limites máximos) em ambientes urbanos ganha uma relevância maior se pensarmos que cerca de 42 por cento da população reside em cinco por cento do território nacional. Estimativas da Organização das Nações Unidas (ONU) apontam para o agravamento da situação em 2015, altura em que 69,2 por cento da população viverá nas áreas metropolitanas do Porto de Lisboa. Mais: os poluentes são considerados responsáveis pela redução de nove meses na esperança média de vida dos europeus, o que por si só seria razão suficiente para «fugirmos» dos grandes centros urbanos em vez de, tendencialmente, nos fixarmos neles.

     

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  • A pé ou de patins: o que podemos fazer?
  • Poluentes: os que mais inalamos
  • Poluição, o mal maior das cidades
  • Poluentes: os que mais inalamos
  • Carla Amaro
    In: Notícias Magazine
    06.Jan.2008

    A pé ou de patins: o que podemos fazer?

    O que podemos então fazer para reduzirmos a emissão de poluentes que contaminam o ar que respiramos e aceleram o aquecimento da temperatura global? Uma vez que os transportes são em grande medida responsáveis pelas emissões de poluentes nocivos à saúde humana e ambiental, uma das medidas ao alcance de todos é precisamente reduzir o uso do automóvel individual. A Quercus propõe um conjunto de comportamentos simples, úteis e facilmente adoptáveis por quem realmente se preocupa com a qualidade doar que respiramos.

    Tome nota:

    * Andar mais vezes a pé é um benefício não só para a saúde como para o ambiente se com isso conseguir evitar algumas viagens de carro. Já pensou quantas vezes vai de carro para o trabalho e podia ir a pé ou de transportes públicos?

    * Comprar um carro híbrido ainda é uma opção cara, mas é a melhor se em vez do dinheiro priorizar a saúde e o ambiente. Uma vez que tem também um motor eléctrico, permite alternar a utilização do motor a gasolina ou gasóleo com o motor a electricidade, gerando níveis de poluição atmosférica sessenta por cento inferiores aos produzidos pelos automóveis convencionais.

    * Adquirir um carro com menos potência e de menor cilindrada, porque consome menos combustível e emite menores quantidades de poluentes.

    * Reduzir a velocidade contribui para reduzira capacidade de poluição e de consumo de combustível do veículo, se em vez de 120 Km/hora andar a uma velocidade de 100 Km/hora, poupa vinte por cento no consumo de combustível.

    * Procurar manter a mesma velocidade ao longo do percurso e utilizar sempre a mudança mais indicada são formas eficazes de evitar o desperdício de combustível. As acelerações e travagens bruscas aumentam o consumo.

    * Desligar o carro num período de paragem superior a trinta segundos.

    * Viajar em horários mais favoráveis em termos de clima: no Verão, evitar as horas de calor; no Inverno, aproveitar ao máximo as horas de sol. A ideia é dispensar a utilização do ar condicionado e do aquecimento ou, se isso não for possível, pelo menos permitir baixar a temperatura. Este cuidado representa poupanças substanciais de combustível, o ar condicionado representa um consumo acrescido que pode atingir vinte cento, ligue-o apenas quando realmente necessário.

    * Não abrir as janelas se conduzir a uma velocidade superior a 80 km/hora, porque implica um aumento de consumo de combustível.

    * No Verão, antes de ligar o ar condicionado, abra as portas e janelas do carro para o refrescar. Experimente andar um quilómetro só com as janelas abertas e verá que não necessita do ar condicionado.

    * Retirar do veículo todo o peso desnecessário. Quanto mais pesado, mais combustível consome.

    * Nas deslocações diárias, tente não viajar sozinho. Optimize a sua deslocação dando boleia a colegas amigos. Desta forma terá uma viagem mais agradável e um menor impacte ambiental.

    * A revisão frequente da pressão dos pneus é essencial para evitar consumos desnecessários de combustível. Uma pressão dos pneus inferior ao recomendado em 0,5 bar representa um aumento de cinco por cento no consumo de combustível e provoca um desgaste acelerado dos pneus.

  • Poluição, o mal maior das cidades
  • A pé ou de patins: o que podemos fazer?
  • Carla Amaro
    In: Notícias Magazine
    06.Jan.2008

    Poluentes: os que mais inalamos

    Monóxido de carbono (CO)
    Provém de erupções vulcânicas, de incêndios florestais, da decomposição da clorofila (pigmento responsável pela fotossíntese das plantas), da combustão incompleta de combustíveis e de outros materiais orgânicos. Em caso de exposição prolongada ao CO, as pessoas tendem a desenvolver problemas respiratórios que em situações mais graves poderão levar à morte.

    Óxidos de azoto (NOx) Têm origem natural (por exemplo, em descargas eléctricas durante as trovoadas) e humana, pela queima de combustíveis fósseis. Em dias de sol e temperatura elevada, há o risco de reagirem com os compostos orgânicos voláteis (COV) e esta reacção, por sua vez, leva à formação de ozono (O3).

    Dióxido de enxofre (SO2) Irritante para os olhos e aparelho respiratório, capaz de agravar problemas cardiovasculares. Provém da actividade vulcânica e da queima de combustíveis fósseis. Neste caso, pode transformar-se em trióxido de enxofre (S03), que, em contacto com a humidade atmosférica, dá origem ao ácido sulfúrico (H2S04), cujos efeitos nas plantas se traduz pela alteração do seu metabolismo e diminuição da taxa de crescimento: nos edifícios e materiais de construção, acelera a sua corrosão.

    Ozono (O3) Se na alta atmosfera exerce um papel benéfico, na troposfera tem um efeito nefasto, levando a problemas respiratórios, a irritações nos olhos, no nariz e na garganta. Na agricultura, pode ter consequências devastadoras nas colheitas. É também causa de deterioração de materiais como a borracha.

    Partículas finas São emitidas para a atmosfera a partir de cinzas vulcânicas, poeiras do solo, pólen das flores, fogos florestais, queima de combustíveis fósseis, actividades industriais e tráfego rodoviário. As de diâmetro inferior a 10 micrómetros podem provocar e agravar doenças cardíacas e respiratórias (asma, bronquite e enfisema pulmonar); algumas podem mesmo atingir os alvéolos pulmonares e penetrar no sistema sanguíneo. Outra capacidade é a de absorverem hidrocarbonetos e metais pesados, levando-os até aos pulmões.

    Compostos orgânicos voláteis (COV) Dioxinas, hidrocarbonetos aromáticos policíclicos (PAH), benzenos, aldeídos e metano. Causam irritação nos olhos e têm um potencial carcinogénico (dioxinas, PAH e benzeno). Provêm de processos de combustão e do uso de solventes em colas, tintas, produtos de protecção de superfícies, aerossóis, limpeza de metais e lavandarias. Os COV também contribuem para as reacções químicas que envolvem outros poluentes e que levam à formação do mau ozono na troposfera.

    As crianças e a velha árvore

    Há muitos, muitos anos que me encontro neste lugar. As minhas raízes estão fundas na terra e a minha copa alta ergue-se direita ao céu.

    Na Primavera, quando os primeiros raios de sol me tocam, brotam as minhas folhas. Começam por ser frágeis e de um verde brilhante. Os meus ramos crescem e eu balanço-me suavemente ao vento. As crianças cantam e dançam à volta do meu tronco forte.

    Os pássaros constroem os ninhos nos meus ramos, põem os ovos e chocam-nos. Assim, ficam protegidos da chuva e do frio. Pouco tempo depois, os novos passarinhos saltam para fora da casca.

    As crianças ouvem os seus trinados e chilreios e olham para cima com expectativa. Estão ansiosas que os passarinhos aprendam a voar.

    No Verão, o tempo fica quente. O sol, no céu, queima a terra e seca-a. As crianças rebolam pelo prado e depois descansam à minha sombra. Sobem pela minha copa acima e, quando se torna perigoso, faço os meus ramos ranger, como aviso.

    Elas construíram uma cabana nos meus ramos e ataram-na com grossas cordas. Que bonito, terem-me escolhido a mim! Agora chegam até a passar a noite comigo.

    No Outono, soltam os papagaios. O vento fá-los voar desenfreadamente, mas elas tomam cautela para que os papagaios não se aproximem demasiado de mim.

    As minhas folhas brilham então com as mais belas cores: amarelo, vermelho e castanho. Quando as tempestades de Outono me desgrenham, tenho de as deixar cair. As crianças revolvem os montes de folhas, escolhem as mais bonitas e levam-nas para casa.

    Por vezes, também vem ter comigo uma criança a chorar.

    Aninha-se contra o meu tronco e conta-me as razões da sua tristeza. E assim fico a conhecer as inquietações que as crianças têm.

    É Inverno. Aqui estou eu, despida. Apareço no meio da névoa como uma figura negra mas, quando ela se dissipa, vê-se o visco nos meus ramos. As crianças levam-no, e quando olho para longe, vejo-o pendurado na porta das casas.
    Hoje caiu a primeira neve. As crianças estão todas entusiasmadas. Nas suas batalhas de neve tenho de servir de escudo. Elas divertem-se imenso e as bolas de neve não fazem mal à minha grossa casca.

    Sob os meus ramos, fizeram um boneco de neve. Ali está ele de pé, audaz, com o nariz de nabo virado para mim, mas eu sei muito bem que, aos primeiros raios de sol da Primavera, o seu orgulho vai derreter.

    Certo dia, um homem vem ter comigo. Mal passa a mão pela minha casca, reconheço-o. Esteve muitas vezes comigo em criança. Então fico a saber que já passou muito tempo.

    Mathias Karl
    Die Kinder und der alte Baum
    Stuttgart, Thienemann, 1995
    Tradução e adaptação

    Quanto pesa um milagre?

    O João e a avó estão a passar duas semanas de férias no sopé do Pico Kogel. Na primeira semana, conquistaram a medalha de bronze da caminhada. Para a segunda semana, estavam a pensar na medalha de prata mas, para isso, têm de subir ao pico da montanha.

    — Achas que consegues? — pergunta o João.

    — Aqueles ridículos 1300 metros? — pergunta a avó. — Olha se não consigo!

    O caminho segue por um arvoredo grosso de abetos e pinheiros. Nem reparam como o dia está quente. A avó avança devagar mas de forma constante e não fala. Só às vezes espeta o dedo e aponta para um cume. Isso quer dizer “Escuta!”; o João põe-se à escuta e reconhece o matraquear de um pica-pau ou o chamamento de um pintarroxo: Tic-tic-tic!

    Seguem exactamente as marcações verdes e brancas. Atravessam uma área destruída por uma tempestade que não está marcada no mapa e descansam junto a uma alminha que o João descobriu no mapa.

    A alminha é formada por uma coluna redonda de pedra polida que segura um cubo de pedra com pequenos quadros pintados. Num deles está pintada uma salvação milagrosa. João sorri ironicamente e diz:

    — Ora olha para isto! Agora sabes quanto pesa um milagre: duas toneladas e meia de equilíbrio, no mínimo.

    — De equilíbrio? — pergunta a avó, levantando-se do tronco onde estava sentada. Anda à volta da alminha e percebe o que João quer dizer. No quadro pode ver-se um caminhante solitário de gorro e cajado. Arrancado pela ventania, um abeto tão alto como um prédio de três andares está a cair por cima do infeliz. Porém, de uma nuvem de contornos dourados, sai um braço com uma manga azul e, dessa manga, uma mão estendida. O dedo indicador empurra para o lado contrário o pinheiro de duas toneladas e meia. Por baixo está escrito, numa letra floreada: O senhor Caetano agradece a Deus Nosso Senhor pelo salvamento na hora de grande aflição.

    — Que bonito! — disse a avó. — Naquela altura, as pessoas ainda tinham a delicadeza de agradecer um milagre e de reconhecer o acto de socorro. Hoje, no máximo, aparece no jornal: Como por milagre, o condutor saiu do carro em chamas… e etc. Quando uma criança é salva, aparece: Pedro M, 7 anos, devia ter um anjo da guarda…

    — Acreditas em milagres? — pergunta João.

    — Vejo-os todos os dias — disse a avó.

    Ao fim de duas horas de subida, chegaram à cabana no cimo da montanha. João manda carimbar os passaportes de caminhantes com o carimbo da cabana e a avó encomenda sumo de maçã com gasosa e pão com presunto.

    — Merecemo-los!

    Sentam-se, satisfeitos e em silêncio, no banco de madeira em frente à cabana a olhar para o cume das bétulas, em frente. A avó ergue o indicador e tem a alegria espelhada no rosto.

    João esforça a vista. Agora também já consegue ver. Entre os ramos escuros, não se reconhecem imediatamente, mas a mancha branca no pescoço e as asas com as duas riscas brancas identificam-nos: chapins pretos. A cabeça é preta, as penas cinzentas. Incansável e destemidamente, fazem ginástica ao longo dos ramos. Não têm, de certeza, mais de onze centímetros. João nunca viu chapins pretos em liberdade na natureza e não se cansa de olhar para eles.

    A avó também olha.

    — É a primeira vez na vida que estou a vê-los – sussurra.

    — Também eu — sussurra João.

    Os chapins pretos não se incomodam com os dois ali a sussurrar. A avó ousa falar um pouco mais alto.

    — Tão minúsculos e tão vivos! — diz. — Um verdadeiro milagre!

    — Um milagre com oito gramas, no máximo — diz João. — Devia erguer-se uma alminha e pintar um quadro com uma mão a sair de uma nuvem contornada a ouro e, por baixo dela, os chapins pretos. De cima, à direita, cai chuva ácida e da esquerda sobe o fumo das chaminés e dos carros. Mas os chapins pretos ainda encontram comida que chegue na sua floresta. Por baixo de tudo está escrito, numa letra floreada: João e a avó agradecem a Deus por ainda não terem desaparecido todos os chapins pretos.

    A avó faz um aceno com a cabeça.

    — Tira-lhes uma fotografia, para que mais tarde acreditem em nós!

    João tira sete fotografias.

    — Mandamo-las revelar já e a mais bonita vou enviá-la à Sabina.

    Lena Mayer-Skumanz

    Brigitte e Wilhelm Meissel (org.)
    Fernweh

    Wien, Herder Verlag, 1989
    Tradução e adaptação

    Marcella, uma amiga que veio de longe

    Lúcia desceu a escada a correr e com grande alarido. Certamente pelo barulho que fez, a mãe olhou para ela e disse-lhe:

    — Não vás lá para fora tão pouco agasalhada.

    — Oh! mãe, não está frio!

    A Lúcia respondeu assim porque não gostava nada de usar muita roupa. Mas, temendo ser obrigada a vestir aquele casacão que, apesar de muito bonito, era bastante pesado, concordou:

    — Está bem, vou vestir outra coisa.

    Não fosse a mãe lembrar-lhe o tal casacão, subiu, na mesma pressa com que há pouco a descera, a escada que dá para o andar onde ficam os quartos de dormir. Imediatamente pensou em vestir a camisola azul que lhe fizera a avó Joana, porque era muita quentinha e leve.

    Feita de uma lã tão macia que, quando lhe tocava, lembrava-se logo do seu já velhinho mas sempre fofo ursinho de peluche.

    — Vês como assim estás melhor? — disse a mãe, quando de novo Lúcia desceu do quarto. E só depois lhe perguntou:

    — Aonde vais?

    — Vou até ao fundo do quintal ver os aviões.

    Como a mãe não disse mais nada, a menina compreendeu que ela estava de acordo. Saiu de casa, meteu pelo estreito passeio que atravessa o jardim e o pomar, e foi entregar-se ao seu passatempo favorito.

    Realmente, o que Lúcia mais gostava de fazer era ir até ao fundo do quintal, mesmo ao lado do aeroporto. Atrás da sebe feita com rede de arame, ficava horas sem fim a ver os aviões que a toda a hora chegavam e partiam.

    — Afinal, a mãe até tinha razão — pensou. — Mesmo com o sol a espreitar, o tempo está um pouco frio!

    Encostou-se à rede e, apesar de o arame lhe arrefecer o rosto, não o descolou dela, tão grande era o fascínio que lhe causava o vaivém no aeroporto. Ao olhar tudo aquilo, sonhou com o dia em que iria viajar num daqueles aviões e conhecer novas terras. Depois, e porque esse sonho ainda estava longe de se realizar, desejou que, pelo menos, um deles lhe trouxesse algo muito importante e bonito, para maior alegria do seu coração. A imaginar coisas fantásticas, da forma que só nós, os mais pequenos, sabemos fazer, ficou ali muito tempo encostada à sebe.

    Despertou-a dos sonhos o ruído de mais um avião que se preparava para aterrar. Desde o momento em que este parou até à saída de todos os passageiros, Lúcia não tirou os olhos daquele grande pássaro de aço pensando alto, como se falasse para si mesma:

    — Quem virá lá dentro? Reis? Princesas? Gente importante, certamente! — E continuou a dar largas à sua imaginação carregada de fantasia: — Doutores! Poetas! Mágicos! Inventores!

    A certa altura, teve de interromper a festa dos seus pensamentos, pois um choro miudinho fez-se ouvir muito perto de si. Apanhada de surpresa – sim, porque não esperava que surgisse alguém por ali! – olhou na direcção de onde vinha esse choro. Ficou, sem palavras, maravilhada a olhar uma linda borboleta. Esta flutuava, como se buscasse um raio de sol, um pouco acima da sua cabeça. Era realmente a mais bela borboleta que já tinha visto, e só o facto de ela estar a chorar e a tremer muito lhe quebrou o prazer de contemplar tão formosa criatura.

    — Porque choras? — perguntou-lhe.

    A borboleta nem lhe respondeu, e Lúcia não conseguiu perceber se era porque o choro lhe travava a voz, ou se não sabia falar. Talvez fosse surda! Ou muda! Ou as duas coisas! Devagarinho, estendeu-lhe a mão. Como ela não fez o mais leve movimento de receio, pegou-lhe mansamente nos minúsculos pés e puxou-a para si. A borboleta, sem sombras de querer fugir. Por fim, muito a custo, respondeu:

    — Tenho frio.

    — Ah! — compreendeu a menina. — Por isso tremes tanto!

    Percebendo o seu problema, Lúcia não esperou por mais nada. Juntou as mãos e fechou-as como uma concha, guardando dentro delas aquela pequenina e colorida criatura. Depois, correu para casa. Quando lá chegou, perguntou muito alto:

    — Mamã, o fogão da sala está aceso?

    — Está — respondeu a mãe como se estivesse a repreendê-la. — Tens frio, não é? Bem disse para te agasalhares.

    Mas Lúcia nem se justificou e, na sua habitual correria, dirigiu-se ao seu quarto. Quando lá chegou, poisou a borboleta em cima da cama.

    — Não fujas, está bem? — pediu-lhe. — Trato já de ti.

    Abriu o guarda-roupa, revolvendo o seu interior em busca de qualquer coisa.

    — Está aqui! — exclamou, com satisfação, ao encontrar aquilo que procurava. — Aqui dentro estavam as minhas botas de cano alto — explicou, enquanto mostrava uma caixa de cartão vazia — mas, com um agasalho, fica uma boa cama.

    Da primeira gaveta da cómoda tirou um cachecol igual à sua camisola azul. Dobrou-o em três partes e colocou-o dentro da caixa de cartão. Depois, envolvendo-a de calor e carinho, disse à borboleta:

    — Vais sentir-te tão quentinha nesta cama que até esqueces o frio que faz lá fora.

    Deitou a amiga no colchão azul e, dirigiu-se à sala, transportando com todo o cuidado aquele improvisado leito que, antes disso, era a casa de umas botas de cano alto. Quando lá chegou, poisou-a no chão junto à lareira, onde ardiam pinhas secas. Sentiu vontade de continuar a conversar com a borboleta, mas ela já dormia. Talvez de cansaço. Talvez feliz por não sentir frio.

    Era já dia, mas mais cedo do que o costume, quando Lúcia saiu da cama. Enquanto se vestia lembrou-se de que, na véspera, tinha deixado a pequenina criatura a dormir perto do fogão da sala. Antes de se deitar ainda fez algum barulho, para ver se ela acordava e lhe contava coisas da sua vida. Mas qual quê! A amiga dormia um sono tão profundo que nem foi capaz de a despertar.

    — São horas de ires para a cama, Lúcia. Vai, que a tua borboleta já dorme. Amanhã brincas com ela — disse-lhe a mãe, nessa altura.

    E a menina lá teve que ir dormir. Muito lhe custou, pois estava com um receio escondido no peito de que o silêncio da borboleta não fosse do sono, mas sim que tivesse morrido de frio.

    No entanto, esse receio fora inútil, pois, pela manhã, quando regressou à sala, já a sua amiga borboleteava perto da janela com o olhar fixo no exterior, mostrando-se ansiosa par sair dali.

    — Bom-dia, borboleta — cumprimentou Lúcia. — Dormiste bem?

    — Dormi — respondeu a outra — mas quero ir embora.

    — Embora? Não vês que faz frio lá fora? — perguntou a menina, muita decepcionada, pois já gostava da sua nova amiga.

    — Eu quero ir para a minha terra. Lá nunca está frio.

    — Ah! — exclamou Lúcia com o espanto de quem faz uma grande descoberta. — Não és de cá!?

    — Não. Sou de um sítio onde há sempre calor.

    — Mesmo quando chove?

    — Mesmo quando chove — confirmou a borboleta.

    — E onde fica esse sítio?

    — Não sei. Mas creio que é muito longe.

    Lúcia insistiu nas perguntas:

    — Então, como vieste cá parar?

    — Acho que foi porque adormeci.

    Aí, a menina não entendeu mesmo nada!

    — Adormeceste? Explica-te melhor, pois não percebo o que queres dizer com isso de “adormeci”.

    A borboleta sentiu-se muito importante. Era a primeira vez que alguém lhe pedia explicações sobre qualquer coisa! A verdade é que também era a primeira vez que tinha uma pessoa como amiga. Sem mais demoras, contou o que lhe tinha acontecido:

    — Tudo começou lá longe, na minha terra. Estava tão cansada e cheia de calor que nem conseguia voar e, por isso, caí em cima do chapéu de renda de uma velha senhora. Adormeci imediatamente.

    — E depois? — insistiu Lúcia.

    — Depois? Depois, quando acordei, ainda descansava no chapéu da tal senhora — continuou, agora muito preocupada — mas já não estava na minha terra. Encontrava-me dentro de uma casa muito comprida, que tinha janelinhas redondas e filas de cadeiras com pessoas comodamente sentadas. Ainda tentei sair, mas não consegui abrir nenhuma das janelas! Finalmente, quando uma porta se abriu, vi que já me encontrava aqui, na tua terra.

    — Mas…tu vieste num avião! — exclamou Lúcia, ao perceber o que tinha acontecido. — Quer dizer que realmente és de muito longe!

    Embora por razões diferentes, as duas amigas ficaram tristes quando a menina fez esta descoberta. A borboleta, por sentir que, se não regressasse à sua terra, morreria de frio e também de saudade. A Lúcia, por saber que era urgente devolver a amiga ao sítio de onde veio e, ao consegui-lo, nunca mais a veria.

    Dos pequeninos olhos azuis da borboleta nasceram duas lágrimas às quais se seguiram outras e outras, até se transformarem num choro um bocadinho ruidoso. Só um bocadinho, pois, como era pequenina não podia chorar muito alto, não é verdade? Ao vê-la assim, o coração de Lúcia ficou apertado pela tristeza. Na esperança maior que conseguiu, animou a amiga com uma promessa:

    — Não chores. Havemos de encontrar forma de regressares à tua terra.

    Ainda a soluçar, mas, acreditando que isso era possível, a borboleta perguntou:

    — Como? De avião?

    — E porque não? — respondeu Lúcia a sorrir, porque aquela era uma boa sugestão. — Se vêm aviões de lá para cá, também vão de cá para lá. Só precisamos de descobrir onde é a tua terra.
    Ficou a pensar nesse enigma. Bem grande, por sinal, pois a sua amiga apenas sabia que era de um país longínquo onde havia muito sol e raramente chovia.

    Mas a Lúcia nunca foi menina para se atrapalhar pela falta de ideias e, por isso, logo teve uma que lhe pareceu extraordinária:

    — Já sei! Vamos falar com o senhor João, que mora na casa em frente. Como ele sabe de tudo, decerto saberá onde fica a tua terra.

    Sem esperar por mais nada pegou na amiga, encostou-a ao peito, de encontro à sua fofa camisola, e dirigiu-se a casa do senhor João.

    É claro que a Lúcia tinha quase a certeza de que o vizinho havia de descobrir a origem da borboleta.

    — Pois! — pensou a menina — para que lhe servia ter uma sala cheia de livros se não aprendesse o que eles ensinam?

    E não é que tinha razão?! Quando o seu vizinho, senhor já idoso e com os cabelos todos brancos, olhou a amiga de Lúcia, disse:

    — Vou confirmar ali numa enciclopédia, mas parece-me que esta borboleta é uma Marpesia Marcella, originaria da América do Sul, habitando principalmente no Amazonas.

    Enquanto a borboleta se sentia orgulhosa por ter um nome tão complicado e a menina admirava a sabedoria do velho senhor, este dirigiu-se a uma estante, de onde tirou um grande livro de capa vermelha com inscrições a ouro. Num segundo encontrou o que procurava.

    — Aqui está! — confirmou vitorioso. — É realmente uma Marpesia Marcella. Como a conseguiste? — perguntou, intrigado.

    Lúcia contou ao senhor João a viagem da sua amiga e como as duas se conheceram.

    — Vais emoldurá-la? — continuou ele.

    — Emoldurá-la?!

    — Sim. Colocá-la dentro de uma moldura que se pendura na parede! Como se faz com as pinturas e fotografias.

    — E porque iria eu fazer uma coisa dessas? — interrogou a menina, muito admirada.

    Aí, o senhor João fez um gesto largo de impaciência com os braços e respondeu:

    — Ora, ora! É o que toda a gente faz com as borboletas raras e bonitas! Ou vais vendê-la a algum coleccionador de borboletas?

    — Vender a minha amiga?! — gritou Lúcia, assustada. — Não quero que lhe aconteça mal algum. Apenas desejo que regresse à sua terra.

    Nesse momento, o senhor João compreendeu que, para a menina, a borboleta era já uma grande amiga para quem só queria o melhor. Apesar da sua fama de rabugento, mostrou que era um homem bondoso, pois imediatamente se interessou pelo caso da Marcella.

    — Então temos aqui um grande problema — disse. — Não queres que a tua amiga morra, mas ela não resistirá por muito tempo ao nosso clima.

    — Por isso eu queria saber onde é a sua terra — justificou a Lúcia.

    E contou-lhe a sua ideia em procurar no aeroporto um avião que devolvesse a borboleta ao seu país.

    Pela primeira vez desde que o conhecia, a menina viu a senhor João sorrir, enquanto lhe dizia:

    — Bom… Vamos já tratar da viagem desta doce criatura, antes que seja tarde.

    Lúcia aconchegou mais a borboleta à camisola azul com a mão esquerda, enquanto o senhor João pegava na sua mão direita como se fosse o seu melhor amigo.

    E se calhar já o era! Confiantes de que tão brilhante ideia tivesse bom resultado, dirigiram-se ao aeroporto.

    Como sempre, àquela hora do dia, a sala de passageiros apresentava grande movimento, pois era a altura em que chegavam e partiam muitas pessoas nos enormes aviões. Os nossos amigos, muito juntos, encaminharam-se para um balcão onde estava escrito “Informações”.

    — Faça o favor de me informar: quando segue um avião para o Amazonas? — perguntou o senhor João à senhora que ali se encontrava. Esta logo lhe respondeu:

    — Mais ou menos daqui a uma hora segue um para o Brasil, com escala em Manaus, que, como deve saber, fica no Amazonas.

    — É que — continuou o senhor João — a nossa amiga tem de seguir para lá, urgentemente.

    A senhora olhou para Lúcia e perguntou:

    — E vai acompanhada por quem?

    — Por ninguém — respondeu o velho senhor com o mau humor por que era conhecido. — Exactamente como veio para cá: num chapéu!

    — Num chapéu?! — quase gritou a senhora com cara de quem não estava a gostar nada daquela conversa.

    Foi então que o senhor João percebeu a confusão dela e, numa grande risada explicou:

    — Quem tem de ir para a Amazonas não é a menina! — Pegou na borboleta das mãos da Lúcia e mostrou-a à senhora das Informações, continuando a explicar: — É ela quem precisa de viajar!

    — A borboleta?!

    — Exactamente — informou ele.

    Depois, contou-lhe a história da pequenina criatura. Tal e qual como a Lúcia lhe tinha contado.

    A senhora, compreendendo a situação, mostrou logo vontade de colaborar.

    — Vamos arranjar alguém que leve a borboletinha de volta — disse. Pegou depois no telefone que estava mesmo a seu lado e marcou um número.

    — Álvaro? Podes chegar aqui, às Informações, por favor?

    Poisando de seguida o auscultador no seu lugar, disse aos três amigos que a olhavam com muita ansiedade:

    — Vem aí um colega meu. É o piloto do avião que vai para o Brasil. Com certeza não se importará de levar a borboleta de regresso ao Amazonas.

    Realmente, daí a instantes chegou o piloto Álvaro, a quem a senhora do balcão contou o problema da Marpesia Marcella.

    — Com que então queres regressar à tua terra! Terei muito gosto em levar-te — disse o piloto à borboleta, quando ficou ao corrente da sua história.

    Agora que a grande problema parecia resolvido, o olhar de Lúcia mergulhou no rio da tristeza.

    O senhor João, que se apercebeu disso, pegou-lhe no queixo. Olhando-a nos olhos, perguntou:

    — Não queres mesmo ficar com ela?

    — Como? Morta?! — exclamou a menina horrorizada. — Nunca!

    De repente teve uma dúvida que a levou a perguntar ao piloto do avião:

    — Não vai emoldurá-la, pois não? Nem vendê-la a algum coleccionador de borboletas?

    Ele deu uma risada simpática e respondeu:

    — Claro que não. Achas que sou capaz disso?

    Lúcia olhou-o mais atentamente e compreendeu que, na verdade, uma pessoa que sorria assim não podia fazer uma coisa dessas. Pediu-lhe desculpa.

    — Entendo a tua preocupação – continuou o piloto. — Ninguém gostaria que lhe maltratassem ou vendessem uma amiga de quem se gosta. Descansa, pois olharei por ela até estar a salvo, na sua terra.

    Pegou com muito cuidado na borboleta, colocou-a na pala da boné do seu uniforme e disse, sorrindo:

    — Vieste num chapéu, vais num boné.

    Olhando o relógio na parede continuou:

    — Já? — perguntou Lúcia, como se tivesse recebido uma má notícia.

    — Tem de ser — respondeu o piloto. — Antes de partir, temos que experimentar os motores do aparelho, o que leva algum tempo. Por isso, tens de te despedir da tua borboleta.

    Apesar de haver muito movimento no interior do aeroporto, à volta dos nossos amigos fez-se um grande silêncio. A borboleta Marcella mantinha-se em cima da pala do boné que o piloto segurava nas mãos. Ao olhar a amiga, agradeceu-lhe, reconhecida:

    — Obrigada por tudo, Lúcia. Nunca te esquecerei.

    E, para se mostrar forte pois a despedida também a deixava triste, pediu ao piloto:

    — Vamos embora, que se faz tarde.

    A menina tremia, mas não era de frio. Par isso, e para se sentir amparada, apertou com força a mão do seu vizinho.

    — Não estejas triste. Hás-de arranjar outra amiga. Uma que não tenha de partir — disse ele, tentando confortá-la.

    Mas Lúcia sentia que, quando sabemos gostar de alguém, ninguém o pode substituir no nosso coração.

    Depois de o piloto se afastar, os dois amigos da borboleta Marcella encaminharam-se lentamente para o exterior do aeroporto. Lá fora fazia um sol gostoso, quentinho.

    — Nem está muito frio! — murmurou a menina.

    — Agora — respondeu o senhor João, que percebeu muito bem onde ela queria chegar. — Mas logo, ou amanhã… a borboleta não ia resistir ao nosso clima!

    Ficaram, durante algum tempo na varanda do aeroporto a ver os aviões desaparecerem lá longe, até ficarem do tamanho de um pontinho como este (.).

    A todos que levantavam voo dirigiam um olhar de despedida, por saberem que em algum deles ia a sua amiga. Estiveram ali muito tempo. Até terem partido todos os aviões que havia na pista.

    — Já foi! — suspirou Lucia.

    — Já! — concordou o amigo.

    — Mas continua viva, não é? — perguntou a menina, resignada.

    O senhor João percebeu que, apesar de lhe ter custado muito o adeus, a Lúcia sabia que tinham feito aquilo que estava certo.

    Seguiram para casa. De mãos dadas, na certeza de uma nova e grande amizade. Levavam no coração a tristeza da despedida de uma amiga, mas, ao mesmo tempo, a alegria de saberem que ela já não morreria de frio. Nem de saudade.

    Daniel Marques Ferreira
    Marcella, uma amiga que veio de longe
    V. N. Gaia, Edições Gailivro, 2002
    adaptação