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  • A pé ou de patins: o que podemos fazer?
  • Poluentes: os que mais inalamos 
  • Carla Amaro
    In: Notícias Magazine
    06.Jan.2008

    Poluição, o mal maior das cidades

    Os gazes que saem dos escapes dos automóveis matam mais pessoas do que os acidentes na estrada. É chegada a hora de incluir nos planos de ano novo objectivos de natureza ambiental, como deixar o carro em casa e andar mais a pé e de transportes públicos.
    Pela saúde de todos.

    A comemoração dos dez anos do Protocolo de Quioto, na Conferência Nações Unidas sobre Alterações Climáticas, que decorreu há quase um mês em Bali, na Indonésia, voltou a lembrar o mundo, em particular os países desenvolvidos – os que mais poluem – e os países em desenvolvimento, da urgência de medidas que travem o aquecimento global. O problema afecta-nos a todos e todos contribuímos para o seu agravamento. Agora que estamos a iniciar um novo ano, que tal juntarmos à lista de planos para 2008 alguns objectivos ambientais? Deixar o carro e andar mais vezes a pé ou de transportes públicos seria o suficiente para reduzirmos consideravelmente a emissão para a atmosfera de gases de efeito estufa, os principais responsáveis pelo aquecimento da temperatura global. Só para ter uma ideia do que esta contenção representaria, saiba que a redução em cinco por cento da utilização diária do carro apenas em Lisboa e no Porto equivaleria a 350 mil toneladas de dióxido de carbono (CO2) a menos lançadas para a atmosfera. Agora imagine se o mesmo acontecesse em todas as cidades do mundo.

    Juntar este objectivo a outros não custa nada e, se calhar, é até mais fácil de concretizar do que deixar de fumar, fazer a inscrição num ginásio, mudar hábitos alimentares, organizar a papelada, entregar os IRS em atraso, levar os filhos à Disneylândia…

    A alteração do clima é um dos mais graves problemas ambientais, não é invenção, nem exagero, nem fundamentalismo de meia dúzia de grupos. Os ambientalistas começaram por alertar e a comunidade científica que trabalha nesta área não se cansa de publicar estudos e elaborar relatórios que certificam a gravidade da situação: se continuarmos a cometer os mesmos erros, as temperaturas médias globais aumentarão entre l° e 3,5° C até 2100, o que irá resultar na aceleração do degelo (os glaciares vão derreter ainda mais depressa) e no aumento do nível médio das águas do mar de 15 a 95 cm – o suficiente para cidades baixas como Nova Iorque ficarem submersas.

    Mas que relação têm estes fenómenos com o objectivo ambiental que a nm sugere: o de deixarmos o carro em casa e andarmos mais vezes a pé ou utilizarmos os transportes públicos para irmos trabalhar? Têm tudo a ver. O aquecimento global, embora seja um fenómeno natural que aconteceria de qualquer maneira, está a ser acelerado por acção do homem, concretamente através do uso e abuso de combustíveis fósseis como o petróleo, o gás natural e o carvão, cuja queima liberta os chamados GEE (gases de efeito estufa). Essa libertação sempre ocorreu, mas nos últimos anos a sua concentração na atmosfera alcançou níveis preocupantes.

    Uma das consequências mais «visíveis» da queima de combustíveis fósseis é a poluição ambiental, em especial nas cidades de maior tráfego rodoviário, e que hoje em dia já é considerada um problema de saúde pública.

    Embora a poluição do ar também tenha origem em factores naturais – as tempestades de areia, o metabolismo das plantas e dos animais, os vulcões, que em erupção expelem enormes quantidades de poeiras e gases que comprometem a qualidade do ar nas regiões mais próximas… –, os seus efeitos mais nefastos resultam dos processos de combustão, sendo por essa razão, aliás, que está muito associada ao desenvolvimento das cidades, das indústrias, dos combustíveis e do tráfego automóvel. Um dos instrumentos actualmente disponíveis para sabermos o nível de poluição do ar que respiramos numa cidade, num bairro ou numa avenida é o IQar, Índice da Qualidade do Ar (a Agência Portuguesa do Ambiente, que substitui o antigo Instituto do Ambiente, disponibiliza uma base de dados online actualizada sobre a qualidade do ar nas localidades onde se fazem medições).

    Apesar de a Organização Mundial de Saúde chamar a atenção para mais de quarenta poluentes, o IQar mede apenas as concentrações daqueles que são mais comuns numa área urbana: monóxido de carbono (CO), dióxido de azoto (NO2), dióxido de enxofre (SO2), ozono (O3) e partículas finas (PM). Estas substâncias estão presentes, em maiores ou menores quantidades, nos vinte quilos de ar que inalamos por dia. Mas por que razão são tão perigosas?

    Um dos perigos está associado à formação de chuva ácida, cuja capacidade de corrosão é tão poderosa que deteriora monumentos e queima a vegetação. Em Portugal, as localidades que registam um índice mais elevado de chuva ácida são Sines, Setúbal, Barreiro, Seixal, Lisboa, Estarreja, Porto, Carregado e Tapada, precisamente onde a emissão de poluentes, devido ao tráfego automóvel e às actividades industriais, atingem níveis mais elevados.

    Muito mais graves são os efeitos da poluição na saúde. Os últimos oitenta anos foram férteis em acontecimentos que alertaram o mundo para as graves consequências causadas por períodos de poluição aguda. O vale do rio Meuse, na Bélgica, em Dezembro de 1930, foi coberto por uma nuvem de poluição que em poucos dias fez 63 vítimas mortais (causa provável: elevados níveis de dióxido de enxofre que na altura foi detectado no ar). Em Donora, na Pensilvânia (EUA), em 1948, uma inversão térmica provocou a morte a vinte pessoas e mais de sete mil manifestaram problemas respiratórios, irritação nos olhos, náuseas e vómitos. Em 1950, em Poza Rica, no México, o mesmo fenómeno matou 32 pessoas e levou 320 a internamento hospitalar. A cidade de Londres, em Inglaterra, sofreu o mais terrível dos casos de inversão da temperatura, em Dezembro de 1952. O episódio, conhecido como mortífero smog, tirou a vida a quatro mil pessoas devido à concentração excessiva de poluentes (smog é o termo utilizado para designar a formação de uma nuvem de poluição junto ao solo); ocorre em muitas cidades do mundo porque tem como principal causa as emissões de poluentes provenientes dos automóveis. Quando há uma inversão térmica, os perigos do smog são acrescidos (a inversão térmica acontece quando a camada de ar junto ao solo arrefece e fica coberta por um manto de ar quente, fazendo com que a poluição, em vez de subir e se dispersar, fique retida na camada de ar mais próxima do solo).

    Depois destes episódios dramáticos que fizeram milhares de mortes, a comunidade científica passou a dedicar mais atenção à investigação sobre os efeitos da poluição do ar e actualmente não faltam estudos que alertam para a perigosidade de determinados poluentes que inalamos de cada vez que inspiramos.

    Crianças são as mais afectadas

    Com variações em função do tempo de exposição aos poluentes e das suas concentrações, a poluição afecta fortemente a saúde das pessoas, sendo as crianças as mais vulneráveis ao desenvolvimento de doenças associadas à poluição do ar pelo facto de o seu organismo estar ainda em fase de desenvolvimento e, por esse motivo, menos capaz de reagir a perturbações causadas por poluentes.

    Os dados da Agência Europeia do Ambiente (AEA), no relatório sobre o Estado do Ambiente na Europa (2003), não alimentam dúvidas quanto ao papel da poluição na degradação da saúde pública. Garante a AEA que a maior parte dos internamentos nos hospitais da Europa se deve a episódios de asma, de alergias e de outras doenças respiratórias desenvolvidas por acção da poluição. No mundo, o número de mortes prematuras por causa da poluição do ar ronda os três milhões. Na Europa, por ano, em cada milhão de crianças há 138 que desenvolvem doenças cancerígenas associadas às radiações ultravioletas e aos produtos químicos utilizados nas indústrias e na agricultura. Em muitas populações europeias, o desenvolvimento de distúrbios físicos e mentais provocados pela exposição ao chumbo, ao mercúrio e aos PCB afectam dez por cento das crianças (os PCB são derivados de compostos químicos tóxicos presentes no ambiente).

    Outra entidade bastante esclarecedora nos dados que divulga e que atestam a forte relação entre poluição e doença é a Organização Mundial de Saúde (OMS), segundo a qual a poluição atmosférica mata anualmente três milhões de pessoas no mundo. E na Europa, uma em cada três mortes de crianças deve-se à má qualidade do ar, o que perfaz o sinistro número de cem mil mortes anuais, representando 34 por cento da totalidade da mortalidade infantil.

    Nas mulheres grávidas, a exposição frequente e prolongada a determinados poluentes comuns nos meios urbanos, em especial o monóxido de carbono e o ozono, pode provocar deficiências cardíacas nos fetos. Esta probabilidade foi avançada por uma equipa de investigadores da Universidade da Califórnia, que, num trabalho de monitorização e de recolha de dados de nove mil bebés, nascidos entre 1987 e 1993, e de suas mães, detectaram que as mães que residem em locais com tráfego intenso têm três vezes mais bebés com problemas cardíacos do que as mães que vivem em zonas com um ar mais «respirável». Para a comunidade científica, esta constatação não é suficiente para validar conclusões definitivas quanto às consequências da acção dos poluentes no desenvolvimento dos fetos, mas é reconhecida como um alarmante indicador de que o monóxido de carbono e o ozono tiveram implicações nos problemas cardíacos das crianças abrangidas no estudo.

    Os efeitos da poluição atmosférica também se fazem sentir a outros níveis. Há indicadores de que pode provocar um stress capaz de alterar a «razão de sexo» (isto é, menino ou menina), à semelhança do que já foi identificado para outros tipos de stress. Um estudo realizado pela Universidade de São Paulo, no Brasil, entre 2001 e 2003, sugere que a poluição aumenta a probabilidade de nascimento de meninas. Com base num universo de 17 milhões de pessoas que habitam em zonas da cidade de pouca, média e muita poluição, os investigadores verificaram que nas áreas mais poluídas nasceram mais raparigas.

    Não obstante os estudos que atribuem à poluição atmosférica aumentos na taxa de doenças, alterações no aparelho respiratório, deficiências cardíacas nos fetos ou até interferências na definição do sexo, há determinados factores que fazem com que os efeitos da poluição sejam mais graves numas pessoas do que noutras, por exemplo a natureza dos poluentes, as quantidades absorvidas pelas pessoas, o clima, as infecções bacterianas ou virais relacionadas com as estações do ano, factores como a idade das pessoas, o seu estado de saúde, os hábitos tabágicos, entre outros.

    As maiores fontes de poluição

    O dióxido de carbono, o metano e o óxido nitroso, que no seu conjunto constituem o designado eqCO2 (ou CO2 equivalente: contabiliza as emissões de CO2, de CH4 e de N2O), não são invenção do homem. A sua existência é anterior à do ser humano na Terra, mas só nas últimas décadas passaram a constituir uma ameaça devido à sua excessiva concentração. A Revolução Industrial é apontada como um marco que iniciou todo este processo; em200 anos, as emissões aumentaram 31 por cento. Actualmente, os transportes estão na linha da frente como fonte de poluição do ar em ambiente urbano, sendo responsáveis por 33 por cento das emissões nacionais de gases de efeito estufa. Segundo a Agência Europeia do Ambiente (AEA), são os que mais contribuem para a colocação de uma cidade como Lisboa na lista das piores capitais europeias em qualidade do ar. O avião está no topo da lista dos que mais poluem. Numa viagem de 700 quilómetros, o equivalente à distância entre Faro e Viana do Castelo, o avião é o que mais CO2 equivalente emite (77.500 gramas). Seguem-se o automóvel (46.500 g), o autocarro (19.375 g), o comboio (2325 g) e, finalmente, o barco (775 g) – estes cálculos foram divulgados na «edição verde» da revista Visão de 25 de Outubro de 2007.

    Nas cidades, a utilização do automóvel individual é dos factores que mais agravam os índices de poluição atmosférica. Só na capital entram todos os dias mais de 400 mil veículos. No país, dois automóveis são vendidos a cada dois minutos e para alimentar esta frota gastam-se diariamente 22 milhões de litros de gasolina e de gasóleo. E apesar de a indústria estar cada vez mais dotada de tecnologias capazes de conceber veículos mais eficientes, que funcionam com combustíveis menos poluentes, os construtores continuam a faltar à promessa de produzir automóveis que consigam reduzir consideravelmente as taxas de emissões de substâncias prejudiciais à saúde e que agravam o efeito estufa. Só a título de referência: os carros vendidos no espaço europeu em 2006 e cujas marcas integram a Associação Europeia de Construtores Automóveis (ACEA) emitem em média 160 gramas de CO2 por cada quilómetro percorrido, ou seja, apenas menos meio grama desde o ano anterior. Mas a promessa consistia em reduzir para 140 g por quilómetro. De acordo com dados disponibilizados pela Quercus – Associação Nacional de Conservação da Natureza e pela Federação Europeia de Transportes e Ambiente (T&E), Portugal é o país que apresenta um menor valor médio, com 144 g/km, no conjunto dos 24 países da União Europeia que têm registos das emissões de dióxido de carbono nos veículos automóveis novos vendidos em 2006.

    As cidades mais poluídas

    Quinze cidades portuguesas excedem os limites de poluição. Lisboa lidera a lista das mais poluídas, seguindo-se-lhe Guimarães, Paredes e Espinho. O ranking das cidades nacionais mais poluídas, feito pelo semanário Expresso com a colaboração da Agência Portuguesa do Ambiente (APA), tendo por base medições da qualidade do ar durante 2005, revelou que, nesse ano, a capital registou mais dias com excesso de concentração de partículas (183 dias), sendo que a norma admite um máximo de 35 dias de excedências. A Avenida da Liberdade (em Lisboa) é a que concentra maiores níveis de poluentes emitidos pelos automóveis, não só devido ao tráfego intenso mas também por ser estreita e rodeada de prédios altos.

    O facto de a poluição atmosférica registar excedências (dias em que os níveis de concentração de poluentes excedem os limites máximos) em ambientes urbanos ganha uma relevância maior se pensarmos que cerca de 42 por cento da população reside em cinco por cento do território nacional. Estimativas da Organização das Nações Unidas (ONU) apontam para o agravamento da situação em 2015, altura em que 69,2 por cento da população viverá nas áreas metropolitanas do Porto de Lisboa. Mais: os poluentes são considerados responsáveis pela redução de nove meses na esperança média de vida dos europeus, o que por si só seria razão suficiente para «fugirmos» dos grandes centros urbanos em vez de, tendencialmente, nos fixarmos neles.

     

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  • A pé ou de patins: o que podemos fazer?
  • Poluentes: os que mais inalamos
  • Poluição, o mal maior das cidades
  • Poluentes: os que mais inalamos
  • Carla Amaro
    In: Notícias Magazine
    06.Jan.2008

    A pé ou de patins: o que podemos fazer?

    O que podemos então fazer para reduzirmos a emissão de poluentes que contaminam o ar que respiramos e aceleram o aquecimento da temperatura global? Uma vez que os transportes são em grande medida responsáveis pelas emissões de poluentes nocivos à saúde humana e ambiental, uma das medidas ao alcance de todos é precisamente reduzir o uso do automóvel individual. A Quercus propõe um conjunto de comportamentos simples, úteis e facilmente adoptáveis por quem realmente se preocupa com a qualidade doar que respiramos.

    Tome nota:

    * Andar mais vezes a pé é um benefício não só para a saúde como para o ambiente se com isso conseguir evitar algumas viagens de carro. Já pensou quantas vezes vai de carro para o trabalho e podia ir a pé ou de transportes públicos?

    * Comprar um carro híbrido ainda é uma opção cara, mas é a melhor se em vez do dinheiro priorizar a saúde e o ambiente. Uma vez que tem também um motor eléctrico, permite alternar a utilização do motor a gasolina ou gasóleo com o motor a electricidade, gerando níveis de poluição atmosférica sessenta por cento inferiores aos produzidos pelos automóveis convencionais.

    * Adquirir um carro com menos potência e de menor cilindrada, porque consome menos combustível e emite menores quantidades de poluentes.

    * Reduzir a velocidade contribui para reduzira capacidade de poluição e de consumo de combustível do veículo, se em vez de 120 Km/hora andar a uma velocidade de 100 Km/hora, poupa vinte por cento no consumo de combustível.

    * Procurar manter a mesma velocidade ao longo do percurso e utilizar sempre a mudança mais indicada são formas eficazes de evitar o desperdício de combustível. As acelerações e travagens bruscas aumentam o consumo.

    * Desligar o carro num período de paragem superior a trinta segundos.

    * Viajar em horários mais favoráveis em termos de clima: no Verão, evitar as horas de calor; no Inverno, aproveitar ao máximo as horas de sol. A ideia é dispensar a utilização do ar condicionado e do aquecimento ou, se isso não for possível, pelo menos permitir baixar a temperatura. Este cuidado representa poupanças substanciais de combustível, o ar condicionado representa um consumo acrescido que pode atingir vinte cento, ligue-o apenas quando realmente necessário.

    * Não abrir as janelas se conduzir a uma velocidade superior a 80 km/hora, porque implica um aumento de consumo de combustível.

    * No Verão, antes de ligar o ar condicionado, abra as portas e janelas do carro para o refrescar. Experimente andar um quilómetro só com as janelas abertas e verá que não necessita do ar condicionado.

    * Retirar do veículo todo o peso desnecessário. Quanto mais pesado, mais combustível consome.

    * Nas deslocações diárias, tente não viajar sozinho. Optimize a sua deslocação dando boleia a colegas amigos. Desta forma terá uma viagem mais agradável e um menor impacte ambiental.

    * A revisão frequente da pressão dos pneus é essencial para evitar consumos desnecessários de combustível. Uma pressão dos pneus inferior ao recomendado em 0,5 bar representa um aumento de cinco por cento no consumo de combustível e provoca um desgaste acelerado dos pneus.

  • Poluição, o mal maior das cidades
  • A pé ou de patins: o que podemos fazer?
  • Carla Amaro
    In: Notícias Magazine
    06.Jan.2008

    Poluentes: os que mais inalamos

    Monóxido de carbono (CO)
    Provém de erupções vulcânicas, de incêndios florestais, da decomposição da clorofila (pigmento responsável pela fotossíntese das plantas), da combustão incompleta de combustíveis e de outros materiais orgânicos. Em caso de exposição prolongada ao CO, as pessoas tendem a desenvolver problemas respiratórios que em situações mais graves poderão levar à morte.

    Óxidos de azoto (NOx) Têm origem natural (por exemplo, em descargas eléctricas durante as trovoadas) e humana, pela queima de combustíveis fósseis. Em dias de sol e temperatura elevada, há o risco de reagirem com os compostos orgânicos voláteis (COV) e esta reacção, por sua vez, leva à formação de ozono (O3).

    Dióxido de enxofre (SO2) Irritante para os olhos e aparelho respiratório, capaz de agravar problemas cardiovasculares. Provém da actividade vulcânica e da queima de combustíveis fósseis. Neste caso, pode transformar-se em trióxido de enxofre (S03), que, em contacto com a humidade atmosférica, dá origem ao ácido sulfúrico (H2S04), cujos efeitos nas plantas se traduz pela alteração do seu metabolismo e diminuição da taxa de crescimento: nos edifícios e materiais de construção, acelera a sua corrosão.

    Ozono (O3) Se na alta atmosfera exerce um papel benéfico, na troposfera tem um efeito nefasto, levando a problemas respiratórios, a irritações nos olhos, no nariz e na garganta. Na agricultura, pode ter consequências devastadoras nas colheitas. É também causa de deterioração de materiais como a borracha.

    Partículas finas São emitidas para a atmosfera a partir de cinzas vulcânicas, poeiras do solo, pólen das flores, fogos florestais, queima de combustíveis fósseis, actividades industriais e tráfego rodoviário. As de diâmetro inferior a 10 micrómetros podem provocar e agravar doenças cardíacas e respiratórias (asma, bronquite e enfisema pulmonar); algumas podem mesmo atingir os alvéolos pulmonares e penetrar no sistema sanguíneo. Outra capacidade é a de absorverem hidrocarbonetos e metais pesados, levando-os até aos pulmões.

    Compostos orgânicos voláteis (COV) Dioxinas, hidrocarbonetos aromáticos policíclicos (PAH), benzenos, aldeídos e metano. Causam irritação nos olhos e têm um potencial carcinogénico (dioxinas, PAH e benzeno). Provêm de processos de combustão e do uso de solventes em colas, tintas, produtos de protecção de superfícies, aerossóis, limpeza de metais e lavandarias. Os COV também contribuem para as reacções químicas que envolvem outros poluentes e que levam à formação do mau ozono na troposfera.

    As crianças e a velha árvore

    Há muitos, muitos anos que me encontro neste lugar. As minhas raízes estão fundas na terra e a minha copa alta ergue-se direita ao céu.

    Na Primavera, quando os primeiros raios de sol me tocam, brotam as minhas folhas. Começam por ser frágeis e de um verde brilhante. Os meus ramos crescem e eu balanço-me suavemente ao vento. As crianças cantam e dançam à volta do meu tronco forte.

    Os pássaros constroem os ninhos nos meus ramos, põem os ovos e chocam-nos. Assim, ficam protegidos da chuva e do frio. Pouco tempo depois, os novos passarinhos saltam para fora da casca.

    As crianças ouvem os seus trinados e chilreios e olham para cima com expectativa. Estão ansiosas que os passarinhos aprendam a voar.

    No Verão, o tempo fica quente. O sol, no céu, queima a terra e seca-a. As crianças rebolam pelo prado e depois descansam à minha sombra. Sobem pela minha copa acima e, quando se torna perigoso, faço os meus ramos ranger, como aviso.

    Elas construíram uma cabana nos meus ramos e ataram-na com grossas cordas. Que bonito, terem-me escolhido a mim! Agora chegam até a passar a noite comigo.

    No Outono, soltam os papagaios. O vento fá-los voar desenfreadamente, mas elas tomam cautela para que os papagaios não se aproximem demasiado de mim.

    As minhas folhas brilham então com as mais belas cores: amarelo, vermelho e castanho. Quando as tempestades de Outono me desgrenham, tenho de as deixar cair. As crianças revolvem os montes de folhas, escolhem as mais bonitas e levam-nas para casa.

    Por vezes, também vem ter comigo uma criança a chorar.

    Aninha-se contra o meu tronco e conta-me as razões da sua tristeza. E assim fico a conhecer as inquietações que as crianças têm.

    É Inverno. Aqui estou eu, despida. Apareço no meio da névoa como uma figura negra mas, quando ela se dissipa, vê-se o visco nos meus ramos. As crianças levam-no, e quando olho para longe, vejo-o pendurado na porta das casas.
    Hoje caiu a primeira neve. As crianças estão todas entusiasmadas. Nas suas batalhas de neve tenho de servir de escudo. Elas divertem-se imenso e as bolas de neve não fazem mal à minha grossa casca.

    Sob os meus ramos, fizeram um boneco de neve. Ali está ele de pé, audaz, com o nariz de nabo virado para mim, mas eu sei muito bem que, aos primeiros raios de sol da Primavera, o seu orgulho vai derreter.

    Certo dia, um homem vem ter comigo. Mal passa a mão pela minha casca, reconheço-o. Esteve muitas vezes comigo em criança. Então fico a saber que já passou muito tempo.

    Mathias Karl
    Die Kinder und der alte Baum
    Stuttgart, Thienemann, 1995
    Tradução e adaptação

    Quanto pesa um milagre?

    O João e a avó estão a passar duas semanas de férias no sopé do Pico Kogel. Na primeira semana, conquistaram a medalha de bronze da caminhada. Para a segunda semana, estavam a pensar na medalha de prata mas, para isso, têm de subir ao pico da montanha.

    — Achas que consegues? — pergunta o João.

    — Aqueles ridículos 1300 metros? — pergunta a avó. — Olha se não consigo!

    O caminho segue por um arvoredo grosso de abetos e pinheiros. Nem reparam como o dia está quente. A avó avança devagar mas de forma constante e não fala. Só às vezes espeta o dedo e aponta para um cume. Isso quer dizer “Escuta!”; o João põe-se à escuta e reconhece o matraquear de um pica-pau ou o chamamento de um pintarroxo: Tic-tic-tic!

    Seguem exactamente as marcações verdes e brancas. Atravessam uma área destruída por uma tempestade que não está marcada no mapa e descansam junto a uma alminha que o João descobriu no mapa.

    A alminha é formada por uma coluna redonda de pedra polida que segura um cubo de pedra com pequenos quadros pintados. Num deles está pintada uma salvação milagrosa. João sorri ironicamente e diz:

    — Ora olha para isto! Agora sabes quanto pesa um milagre: duas toneladas e meia de equilíbrio, no mínimo.

    — De equilíbrio? — pergunta a avó, levantando-se do tronco onde estava sentada. Anda à volta da alminha e percebe o que João quer dizer. No quadro pode ver-se um caminhante solitário de gorro e cajado. Arrancado pela ventania, um abeto tão alto como um prédio de três andares está a cair por cima do infeliz. Porém, de uma nuvem de contornos dourados, sai um braço com uma manga azul e, dessa manga, uma mão estendida. O dedo indicador empurra para o lado contrário o pinheiro de duas toneladas e meia. Por baixo está escrito, numa letra floreada: O senhor Caetano agradece a Deus Nosso Senhor pelo salvamento na hora de grande aflição.

    — Que bonito! — disse a avó. — Naquela altura, as pessoas ainda tinham a delicadeza de agradecer um milagre e de reconhecer o acto de socorro. Hoje, no máximo, aparece no jornal: Como por milagre, o condutor saiu do carro em chamas… e etc. Quando uma criança é salva, aparece: Pedro M, 7 anos, devia ter um anjo da guarda…

    — Acreditas em milagres? — pergunta João.

    — Vejo-os todos os dias — disse a avó.

    Ao fim de duas horas de subida, chegaram à cabana no cimo da montanha. João manda carimbar os passaportes de caminhantes com o carimbo da cabana e a avó encomenda sumo de maçã com gasosa e pão com presunto.

    — Merecemo-los!

    Sentam-se, satisfeitos e em silêncio, no banco de madeira em frente à cabana a olhar para o cume das bétulas, em frente. A avó ergue o indicador e tem a alegria espelhada no rosto.

    João esforça a vista. Agora também já consegue ver. Entre os ramos escuros, não se reconhecem imediatamente, mas a mancha branca no pescoço e as asas com as duas riscas brancas identificam-nos: chapins pretos. A cabeça é preta, as penas cinzentas. Incansável e destemidamente, fazem ginástica ao longo dos ramos. Não têm, de certeza, mais de onze centímetros. João nunca viu chapins pretos em liberdade na natureza e não se cansa de olhar para eles.

    A avó também olha.

    — É a primeira vez na vida que estou a vê-los – sussurra.

    — Também eu — sussurra João.

    Os chapins pretos não se incomodam com os dois ali a sussurrar. A avó ousa falar um pouco mais alto.

    — Tão minúsculos e tão vivos! — diz. — Um verdadeiro milagre!

    — Um milagre com oito gramas, no máximo — diz João. — Devia erguer-se uma alminha e pintar um quadro com uma mão a sair de uma nuvem contornada a ouro e, por baixo dela, os chapins pretos. De cima, à direita, cai chuva ácida e da esquerda sobe o fumo das chaminés e dos carros. Mas os chapins pretos ainda encontram comida que chegue na sua floresta. Por baixo de tudo está escrito, numa letra floreada: João e a avó agradecem a Deus por ainda não terem desaparecido todos os chapins pretos.

    A avó faz um aceno com a cabeça.

    — Tira-lhes uma fotografia, para que mais tarde acreditem em nós!

    João tira sete fotografias.

    — Mandamo-las revelar já e a mais bonita vou enviá-la à Sabina.

    Lena Mayer-Skumanz

    Brigitte e Wilhelm Meissel (org.)
    Fernweh

    Wien, Herder Verlag, 1989
    Tradução e adaptação

    Marcella, uma amiga que veio de longe

    Lúcia desceu a escada a correr e com grande alarido. Certamente pelo barulho que fez, a mãe olhou para ela e disse-lhe:

    — Não vás lá para fora tão pouco agasalhada.

    — Oh! mãe, não está frio!

    A Lúcia respondeu assim porque não gostava nada de usar muita roupa. Mas, temendo ser obrigada a vestir aquele casacão que, apesar de muito bonito, era bastante pesado, concordou:

    — Está bem, vou vestir outra coisa.

    Não fosse a mãe lembrar-lhe o tal casacão, subiu, na mesma pressa com que há pouco a descera, a escada que dá para o andar onde ficam os quartos de dormir. Imediatamente pensou em vestir a camisola azul que lhe fizera a avó Joana, porque era muita quentinha e leve.

    Feita de uma lã tão macia que, quando lhe tocava, lembrava-se logo do seu já velhinho mas sempre fofo ursinho de peluche.

    — Vês como assim estás melhor? — disse a mãe, quando de novo Lúcia desceu do quarto. E só depois lhe perguntou:

    — Aonde vais?

    — Vou até ao fundo do quintal ver os aviões.

    Como a mãe não disse mais nada, a menina compreendeu que ela estava de acordo. Saiu de casa, meteu pelo estreito passeio que atravessa o jardim e o pomar, e foi entregar-se ao seu passatempo favorito.

    Realmente, o que Lúcia mais gostava de fazer era ir até ao fundo do quintal, mesmo ao lado do aeroporto. Atrás da sebe feita com rede de arame, ficava horas sem fim a ver os aviões que a toda a hora chegavam e partiam.

    — Afinal, a mãe até tinha razão — pensou. — Mesmo com o sol a espreitar, o tempo está um pouco frio!

    Encostou-se à rede e, apesar de o arame lhe arrefecer o rosto, não o descolou dela, tão grande era o fascínio que lhe causava o vaivém no aeroporto. Ao olhar tudo aquilo, sonhou com o dia em que iria viajar num daqueles aviões e conhecer novas terras. Depois, e porque esse sonho ainda estava longe de se realizar, desejou que, pelo menos, um deles lhe trouxesse algo muito importante e bonito, para maior alegria do seu coração. A imaginar coisas fantásticas, da forma que só nós, os mais pequenos, sabemos fazer, ficou ali muito tempo encostada à sebe.

    Despertou-a dos sonhos o ruído de mais um avião que se preparava para aterrar. Desde o momento em que este parou até à saída de todos os passageiros, Lúcia não tirou os olhos daquele grande pássaro de aço pensando alto, como se falasse para si mesma:

    — Quem virá lá dentro? Reis? Princesas? Gente importante, certamente! — E continuou a dar largas à sua imaginação carregada de fantasia: — Doutores! Poetas! Mágicos! Inventores!

    A certa altura, teve de interromper a festa dos seus pensamentos, pois um choro miudinho fez-se ouvir muito perto de si. Apanhada de surpresa – sim, porque não esperava que surgisse alguém por ali! – olhou na direcção de onde vinha esse choro. Ficou, sem palavras, maravilhada a olhar uma linda borboleta. Esta flutuava, como se buscasse um raio de sol, um pouco acima da sua cabeça. Era realmente a mais bela borboleta que já tinha visto, e só o facto de ela estar a chorar e a tremer muito lhe quebrou o prazer de contemplar tão formosa criatura.

    — Porque choras? — perguntou-lhe.

    A borboleta nem lhe respondeu, e Lúcia não conseguiu perceber se era porque o choro lhe travava a voz, ou se não sabia falar. Talvez fosse surda! Ou muda! Ou as duas coisas! Devagarinho, estendeu-lhe a mão. Como ela não fez o mais leve movimento de receio, pegou-lhe mansamente nos minúsculos pés e puxou-a para si. A borboleta, sem sombras de querer fugir. Por fim, muito a custo, respondeu:

    — Tenho frio.

    — Ah! — compreendeu a menina. — Por isso tremes tanto!

    Percebendo o seu problema, Lúcia não esperou por mais nada. Juntou as mãos e fechou-as como uma concha, guardando dentro delas aquela pequenina e colorida criatura. Depois, correu para casa. Quando lá chegou, perguntou muito alto:

    — Mamã, o fogão da sala está aceso?

    — Está — respondeu a mãe como se estivesse a repreendê-la. — Tens frio, não é? Bem disse para te agasalhares.

    Mas Lúcia nem se justificou e, na sua habitual correria, dirigiu-se ao seu quarto. Quando lá chegou, poisou a borboleta em cima da cama.

    — Não fujas, está bem? — pediu-lhe. — Trato já de ti.

    Abriu o guarda-roupa, revolvendo o seu interior em busca de qualquer coisa.

    — Está aqui! — exclamou, com satisfação, ao encontrar aquilo que procurava. — Aqui dentro estavam as minhas botas de cano alto — explicou, enquanto mostrava uma caixa de cartão vazia — mas, com um agasalho, fica uma boa cama.

    Da primeira gaveta da cómoda tirou um cachecol igual à sua camisola azul. Dobrou-o em três partes e colocou-o dentro da caixa de cartão. Depois, envolvendo-a de calor e carinho, disse à borboleta:

    — Vais sentir-te tão quentinha nesta cama que até esqueces o frio que faz lá fora.

    Deitou a amiga no colchão azul e, dirigiu-se à sala, transportando com todo o cuidado aquele improvisado leito que, antes disso, era a casa de umas botas de cano alto. Quando lá chegou, poisou-a no chão junto à lareira, onde ardiam pinhas secas. Sentiu vontade de continuar a conversar com a borboleta, mas ela já dormia. Talvez de cansaço. Talvez feliz por não sentir frio.

    Era já dia, mas mais cedo do que o costume, quando Lúcia saiu da cama. Enquanto se vestia lembrou-se de que, na véspera, tinha deixado a pequenina criatura a dormir perto do fogão da sala. Antes de se deitar ainda fez algum barulho, para ver se ela acordava e lhe contava coisas da sua vida. Mas qual quê! A amiga dormia um sono tão profundo que nem foi capaz de a despertar.

    — São horas de ires para a cama, Lúcia. Vai, que a tua borboleta já dorme. Amanhã brincas com ela — disse-lhe a mãe, nessa altura.

    E a menina lá teve que ir dormir. Muito lhe custou, pois estava com um receio escondido no peito de que o silêncio da borboleta não fosse do sono, mas sim que tivesse morrido de frio.

    No entanto, esse receio fora inútil, pois, pela manhã, quando regressou à sala, já a sua amiga borboleteava perto da janela com o olhar fixo no exterior, mostrando-se ansiosa par sair dali.

    — Bom-dia, borboleta — cumprimentou Lúcia. — Dormiste bem?

    — Dormi — respondeu a outra — mas quero ir embora.

    — Embora? Não vês que faz frio lá fora? — perguntou a menina, muita decepcionada, pois já gostava da sua nova amiga.

    — Eu quero ir para a minha terra. Lá nunca está frio.

    — Ah! — exclamou Lúcia com o espanto de quem faz uma grande descoberta. — Não és de cá!?

    — Não. Sou de um sítio onde há sempre calor.

    — Mesmo quando chove?

    — Mesmo quando chove — confirmou a borboleta.

    — E onde fica esse sítio?

    — Não sei. Mas creio que é muito longe.

    Lúcia insistiu nas perguntas:

    — Então, como vieste cá parar?

    — Acho que foi porque adormeci.

    Aí, a menina não entendeu mesmo nada!

    — Adormeceste? Explica-te melhor, pois não percebo o que queres dizer com isso de “adormeci”.

    A borboleta sentiu-se muito importante. Era a primeira vez que alguém lhe pedia explicações sobre qualquer coisa! A verdade é que também era a primeira vez que tinha uma pessoa como amiga. Sem mais demoras, contou o que lhe tinha acontecido:

    — Tudo começou lá longe, na minha terra. Estava tão cansada e cheia de calor que nem conseguia voar e, por isso, caí em cima do chapéu de renda de uma velha senhora. Adormeci imediatamente.

    — E depois? — insistiu Lúcia.

    — Depois? Depois, quando acordei, ainda descansava no chapéu da tal senhora — continuou, agora muito preocupada — mas já não estava na minha terra. Encontrava-me dentro de uma casa muito comprida, que tinha janelinhas redondas e filas de cadeiras com pessoas comodamente sentadas. Ainda tentei sair, mas não consegui abrir nenhuma das janelas! Finalmente, quando uma porta se abriu, vi que já me encontrava aqui, na tua terra.

    — Mas…tu vieste num avião! — exclamou Lúcia, ao perceber o que tinha acontecido. — Quer dizer que realmente és de muito longe!

    Embora por razões diferentes, as duas amigas ficaram tristes quando a menina fez esta descoberta. A borboleta, por sentir que, se não regressasse à sua terra, morreria de frio e também de saudade. A Lúcia, por saber que era urgente devolver a amiga ao sítio de onde veio e, ao consegui-lo, nunca mais a veria.

    Dos pequeninos olhos azuis da borboleta nasceram duas lágrimas às quais se seguiram outras e outras, até se transformarem num choro um bocadinho ruidoso. Só um bocadinho, pois, como era pequenina não podia chorar muito alto, não é verdade? Ao vê-la assim, o coração de Lúcia ficou apertado pela tristeza. Na esperança maior que conseguiu, animou a amiga com uma promessa:

    — Não chores. Havemos de encontrar forma de regressares à tua terra.

    Ainda a soluçar, mas, acreditando que isso era possível, a borboleta perguntou:

    — Como? De avião?

    — E porque não? — respondeu Lúcia a sorrir, porque aquela era uma boa sugestão. — Se vêm aviões de lá para cá, também vão de cá para lá. Só precisamos de descobrir onde é a tua terra.
    Ficou a pensar nesse enigma. Bem grande, por sinal, pois a sua amiga apenas sabia que era de um país longínquo onde havia muito sol e raramente chovia.

    Mas a Lúcia nunca foi menina para se atrapalhar pela falta de ideias e, por isso, logo teve uma que lhe pareceu extraordinária:

    — Já sei! Vamos falar com o senhor João, que mora na casa em frente. Como ele sabe de tudo, decerto saberá onde fica a tua terra.

    Sem esperar por mais nada pegou na amiga, encostou-a ao peito, de encontro à sua fofa camisola, e dirigiu-se a casa do senhor João.

    É claro que a Lúcia tinha quase a certeza de que o vizinho havia de descobrir a origem da borboleta.

    — Pois! — pensou a menina — para que lhe servia ter uma sala cheia de livros se não aprendesse o que eles ensinam?

    E não é que tinha razão?! Quando o seu vizinho, senhor já idoso e com os cabelos todos brancos, olhou a amiga de Lúcia, disse:

    — Vou confirmar ali numa enciclopédia, mas parece-me que esta borboleta é uma Marpesia Marcella, originaria da América do Sul, habitando principalmente no Amazonas.

    Enquanto a borboleta se sentia orgulhosa por ter um nome tão complicado e a menina admirava a sabedoria do velho senhor, este dirigiu-se a uma estante, de onde tirou um grande livro de capa vermelha com inscrições a ouro. Num segundo encontrou o que procurava.

    — Aqui está! — confirmou vitorioso. — É realmente uma Marpesia Marcella. Como a conseguiste? — perguntou, intrigado.

    Lúcia contou ao senhor João a viagem da sua amiga e como as duas se conheceram.

    — Vais emoldurá-la? — continuou ele.

    — Emoldurá-la?!

    — Sim. Colocá-la dentro de uma moldura que se pendura na parede! Como se faz com as pinturas e fotografias.

    — E porque iria eu fazer uma coisa dessas? — interrogou a menina, muito admirada.

    Aí, o senhor João fez um gesto largo de impaciência com os braços e respondeu:

    — Ora, ora! É o que toda a gente faz com as borboletas raras e bonitas! Ou vais vendê-la a algum coleccionador de borboletas?

    — Vender a minha amiga?! — gritou Lúcia, assustada. — Não quero que lhe aconteça mal algum. Apenas desejo que regresse à sua terra.

    Nesse momento, o senhor João compreendeu que, para a menina, a borboleta era já uma grande amiga para quem só queria o melhor. Apesar da sua fama de rabugento, mostrou que era um homem bondoso, pois imediatamente se interessou pelo caso da Marcella.

    — Então temos aqui um grande problema — disse. — Não queres que a tua amiga morra, mas ela não resistirá por muito tempo ao nosso clima.

    — Por isso eu queria saber onde é a sua terra — justificou a Lúcia.

    E contou-lhe a sua ideia em procurar no aeroporto um avião que devolvesse a borboleta ao seu país.

    Pela primeira vez desde que o conhecia, a menina viu a senhor João sorrir, enquanto lhe dizia:

    — Bom… Vamos já tratar da viagem desta doce criatura, antes que seja tarde.

    Lúcia aconchegou mais a borboleta à camisola azul com a mão esquerda, enquanto o senhor João pegava na sua mão direita como se fosse o seu melhor amigo.

    E se calhar já o era! Confiantes de que tão brilhante ideia tivesse bom resultado, dirigiram-se ao aeroporto.

    Como sempre, àquela hora do dia, a sala de passageiros apresentava grande movimento, pois era a altura em que chegavam e partiam muitas pessoas nos enormes aviões. Os nossos amigos, muito juntos, encaminharam-se para um balcão onde estava escrito “Informações”.

    — Faça o favor de me informar: quando segue um avião para o Amazonas? — perguntou o senhor João à senhora que ali se encontrava. Esta logo lhe respondeu:

    — Mais ou menos daqui a uma hora segue um para o Brasil, com escala em Manaus, que, como deve saber, fica no Amazonas.

    — É que — continuou o senhor João — a nossa amiga tem de seguir para lá, urgentemente.

    A senhora olhou para Lúcia e perguntou:

    — E vai acompanhada por quem?

    — Por ninguém — respondeu o velho senhor com o mau humor por que era conhecido. — Exactamente como veio para cá: num chapéu!

    — Num chapéu?! — quase gritou a senhora com cara de quem não estava a gostar nada daquela conversa.

    Foi então que o senhor João percebeu a confusão dela e, numa grande risada explicou:

    — Quem tem de ir para a Amazonas não é a menina! — Pegou na borboleta das mãos da Lúcia e mostrou-a à senhora das Informações, continuando a explicar: — É ela quem precisa de viajar!

    — A borboleta?!

    — Exactamente — informou ele.

    Depois, contou-lhe a história da pequenina criatura. Tal e qual como a Lúcia lhe tinha contado.

    A senhora, compreendendo a situação, mostrou logo vontade de colaborar.

    — Vamos arranjar alguém que leve a borboletinha de volta — disse. Pegou depois no telefone que estava mesmo a seu lado e marcou um número.

    — Álvaro? Podes chegar aqui, às Informações, por favor?

    Poisando de seguida o auscultador no seu lugar, disse aos três amigos que a olhavam com muita ansiedade:

    — Vem aí um colega meu. É o piloto do avião que vai para o Brasil. Com certeza não se importará de levar a borboleta de regresso ao Amazonas.

    Realmente, daí a instantes chegou o piloto Álvaro, a quem a senhora do balcão contou o problema da Marpesia Marcella.

    — Com que então queres regressar à tua terra! Terei muito gosto em levar-te — disse o piloto à borboleta, quando ficou ao corrente da sua história.

    Agora que a grande problema parecia resolvido, o olhar de Lúcia mergulhou no rio da tristeza.

    O senhor João, que se apercebeu disso, pegou-lhe no queixo. Olhando-a nos olhos, perguntou:

    — Não queres mesmo ficar com ela?

    — Como? Morta?! — exclamou a menina horrorizada. — Nunca!

    De repente teve uma dúvida que a levou a perguntar ao piloto do avião:

    — Não vai emoldurá-la, pois não? Nem vendê-la a algum coleccionador de borboletas?

    Ele deu uma risada simpática e respondeu:

    — Claro que não. Achas que sou capaz disso?

    Lúcia olhou-o mais atentamente e compreendeu que, na verdade, uma pessoa que sorria assim não podia fazer uma coisa dessas. Pediu-lhe desculpa.

    — Entendo a tua preocupação – continuou o piloto. — Ninguém gostaria que lhe maltratassem ou vendessem uma amiga de quem se gosta. Descansa, pois olharei por ela até estar a salvo, na sua terra.

    Pegou com muito cuidado na borboleta, colocou-a na pala da boné do seu uniforme e disse, sorrindo:

    — Vieste num chapéu, vais num boné.

    Olhando o relógio na parede continuou:

    — Já? — perguntou Lúcia, como se tivesse recebido uma má notícia.

    — Tem de ser — respondeu o piloto. — Antes de partir, temos que experimentar os motores do aparelho, o que leva algum tempo. Por isso, tens de te despedir da tua borboleta.

    Apesar de haver muito movimento no interior do aeroporto, à volta dos nossos amigos fez-se um grande silêncio. A borboleta Marcella mantinha-se em cima da pala do boné que o piloto segurava nas mãos. Ao olhar a amiga, agradeceu-lhe, reconhecida:

    — Obrigada por tudo, Lúcia. Nunca te esquecerei.

    E, para se mostrar forte pois a despedida também a deixava triste, pediu ao piloto:

    — Vamos embora, que se faz tarde.

    A menina tremia, mas não era de frio. Par isso, e para se sentir amparada, apertou com força a mão do seu vizinho.

    — Não estejas triste. Hás-de arranjar outra amiga. Uma que não tenha de partir — disse ele, tentando confortá-la.

    Mas Lúcia sentia que, quando sabemos gostar de alguém, ninguém o pode substituir no nosso coração.

    Depois de o piloto se afastar, os dois amigos da borboleta Marcella encaminharam-se lentamente para o exterior do aeroporto. Lá fora fazia um sol gostoso, quentinho.

    — Nem está muito frio! — murmurou a menina.

    — Agora — respondeu o senhor João, que percebeu muito bem onde ela queria chegar. — Mas logo, ou amanhã… a borboleta não ia resistir ao nosso clima!

    Ficaram, durante algum tempo na varanda do aeroporto a ver os aviões desaparecerem lá longe, até ficarem do tamanho de um pontinho como este (.).

    A todos que levantavam voo dirigiam um olhar de despedida, por saberem que em algum deles ia a sua amiga. Estiveram ali muito tempo. Até terem partido todos os aviões que havia na pista.

    — Já foi! — suspirou Lucia.

    — Já! — concordou o amigo.

    — Mas continua viva, não é? — perguntou a menina, resignada.

    O senhor João percebeu que, apesar de lhe ter custado muito o adeus, a Lúcia sabia que tinham feito aquilo que estava certo.

    Seguiram para casa. De mãos dadas, na certeza de uma nova e grande amizade. Levavam no coração a tristeza da despedida de uma amiga, mas, ao mesmo tempo, a alegria de saberem que ela já não morreria de frio. Nem de saudade.

    Daniel Marques Ferreira
    Marcella, uma amiga que veio de longe
    V. N. Gaia, Edições Gailivro, 2002
    adaptação

    Querido Greenpeace

    Simon James
    Dear Greenpeace
    London, Walker Books, 2005

     

     

    1 de Junho de 2005

    Querido Greenpeace,

    Gosto muito de baleias e acho que hoje vi uma no meu lago. Por favor, envia-me informações sobre baleias. Penso que ela pode estar ferida.

    Beijos,
    Emily

    8 de Junho de 2005

    Querida Emily,

    Aqui vão algumas informações sobre baleias. Penso que vais dar-te conta de que o que viste não foi uma baleia. As baleias não vivem em lagos; vivem em água salgada.

    Um abraço,
    Greenpeace

    15 de Junho de 2005

    Querido Greenpeace,

    Todos os dias, antes de ir para a escola, ponho sal no lago. Ontem à noite, vi a minha baleia sorrir. Penso que se sente melhor. Achas que pode estar perdida?

    Beijos,
    Emily

    23 de Junho de 2005

    Querida Emily,

    Não ponhas mais sal na água, por favor. Penso que os teus pais não ficarão contentes.
    Creio que não vive nenhuma baleia no teu lago, porque as baleias não se perdem. Sabem sempre orientar-se nos oceanos.

    Um abraço,
    Greenpeace

    2 de Julho de 2005

    Querido Greenpeace,

    Hoje sinto-me muito contente porque vi a minha baleia saltar e esguichar imensa água. Parecia azul.
    Será que se trata de uma baleia azul?

    Beijos,
    Emily

    P.S. Como posso alimentá-la?

    8 de Julho de 2005

    Querida Emily,

    As baleias azuis são azuis e alimentam-se de pequenos seres, parecidos com camarões, que vivem no mar. Mas devo avisar-te de que as baleias azuis são grandes demais para viverem em lagos.

    Um abraço,
    Greenpeace

    P.S. Será um peixinho azul?

    20 de Julho de 2005

    Querido Greenpeace,

    Ontem à noite, li a tua carta à minha baleia. Quando acabei, ela deixou-me acariciar-lhe a cabeça. Foi muito emocionante.
    Em segredo, levei-lhe algumas migalhas de pão e flocos de cereais já mastigados. Hoje olhei para o lago e tinham desaparecido!
    Vou chamar-lhe Oriana. O que te parece?

    Beijos,
    Emily

    29 de Julho de 2005

    Querida Emily,

    Devo insistir no facto de que uma baleia não poderia viver no teu lago. Talvez não saibas que as baleias são animais migratórios, o que significa que viajam muitos quilómetros por dia.
    Lamento desapontar-te.

    Um abraço,
    Greenpeace

    3 de Agosto de 2005

    Querido Greenpeace,

    Hoje estou um pouco triste. A Oriana foi-se embora. Penso que percebeu a tua carta e decidiu voltar a ser migratória.

    Beijos,
    Emily

    15 de Agosto de 2005

    Querida Emily,

    Não estejas triste, por favor. Era mesmo impossível que uma baleia vivesse no teu lago. Quando fores mais velha, talvez queiras navegar nos oceanos connosco, para poderes estudar e proteger as baleias.

    Um abraço,
    Greenpeace

    23 de Agosto de 2005

    Querido Greenpeace,

    Hoje foi o dia mais feliz da minha vida. Fui até à beira-mar e vi a Oriana! Chamei-a e ela sorriu. Sei que era a Oriana porque deixou-me acariciar-lhe a cabeça.
    Dei-lhe um bocado do meu pão… e depois despedimo-nos.
    Disse-lhe que gostava muito dela e que tu também gostavas. Espero que não te importes.

    Beijos,
    Emily (e Oriana)

    Era uma vez um rei chamado Sol. Todos o conhecem. Todos o estimam.
    Poderoso, os seus raios são espadas. Majestoso, os seus raios são de ouro e mais do que todo o ouro valem. Generoso, os seus raios são fios de vida.

    Poderoso, majestoso e generoso era este rei, mas tinha um grande desgosto – os seus quatro filhos davam-se muito mal uns com os outros.

    Chamavam-se os quatro irmãos, por ordem de idade,
    a começar pelo mais novo: Primavera, Verão, Outono e Inverno. Bulhavam constantemente, porque todos queriam, à uma, governar a Terra. Ora isto não podia ser.

    Assim pensando, o rei Sol decidiu que cada um deles governasse por sua vez, durante um certo tempo. As ordens de um pai, para mais rei, e ainda por cima Sol, têm de se cumprir.

    O Outono não gostava desta partilha. Queixava-se de que lhe não davam tempo… Ainda estava ele a arrumar e a alindar a casa, pintando tudo da cor púrpura, em tons e meios-tons amarelos doirados, e já o Inverno lhe batia à porta. Então o Outono tinha uma birra e arrancava as folhas das árvores, algumas ainda por pintar…

    Saía o Outono com lágrimas nos olhos e entrava o Inverno.

    — Em que desordem isto está — exclamava ele, irritado. E punha-se a varrer. Varria com tanta força que fazia vento. Depois lavava, em grandes bátegas, caídas do céu… As sementes e os grãozinhos, que o Outono deitara à terra, assustavam-se:

    — Iremos nós também na cheia? — perguntavam uns para os outros.

    O Inverno ouvia-os e dizia-lhes:

    — Sosseguem! Durmam descansados. Vai tudo dormir um longo sono. Assim tem de ser.

    E tão carinhoso ele era que cobria os lugares mais desprotegidos da terra com um manto branco de neve.

    Lá fora, a Primavera impacientava-se. Não tinha feitio para suportar os vagares do irmão. Às vezes, não se continha que não perguntasse pela frincha da porta:

    — Já posso?

    Ainda era cedo, mas só de lhe ouvirem a voz, as primeiras flores rompiam a terra.

    Então, quando ela chegava, era uma festa. Corria a Primavera de lés a lés e não havia ervinha, folha, haste, flor que não quisesse dançar com ela. Era uma enorme roda de alegria.

    Mas a folgança não podia continuar sempre. Cansada do bailarico, a Primavera dava de bom grado o seu lugar ao Verão.

    — Vamos trabalhar — dizia ele, assim que chegava.

    E trabalhava-se, pois então! Os grãos e os frutos amadureciam. As flores arrecadavam tesouros. Nas tocas, nos ninhos, nos cortiços e por toda a parte, as palavras de ordem eram: trabalhar, colher, guardar.

    Enquanto, nas praias, uns gozavam as férias, outros, no campo, não tinham descanso.

    — O essencial fica feito. Deixo os retoques ao cuidado do meu irmão Outono — dizia o Verão, à despedida.

    Lá vinha o Outono, com pincel e tintas apurar as cores. Achava sempre que merecia mais tempo. São tantas as tonalidades, do verde-escuro ao castanho, do laranja ao vermelho… Não se pode fazer obra asseada quando se sente os passos do Inverno a aproximarem-se. Que nervos!

    Sorrindo no seu trono, o Sol acompanhava a obra dos seus quatro filhos. Descansa. Eles estão a dar muito boa conta de si.

    E o Sol, risonho, ainda mais resplandece.

    António Torrado

    retirado de: historiadodia.pt

    Valéria e a vida

     

    Cabelo ao vento,
    Valéria avançava no vale,
    no verde vale,
    Valéria.

    O riacho passou perto dela, correndo de pedra em pedra, e disse bom dia. Era um riacho muito bem-educado.

    E Valéria respondeu: – Bom dia, amigo Riacho! – e perguntou:

    — Quem sujou as tuas águas que eram tão claras quando eu tinha cinco anos e ia à escola pela primeira vez? Quem foi?

    E o riacho, de pedra em pedra correndo, contou que todas as fábricas da região ali deitavam mercúrio, cobre, zinco, chumbo, todas as coisas ruins que estragavam as suas águas.

    — Eu sei! — disse Valéria. — Tu estás poluído, amigo Riacho; os homens que fizeram isso são ignorantes, a tua água já não vai servir para beber, os teus peixes vão ficar doentes, as plantas e as árvores que tu regas não podem ser felizes.

    E os peixes subiram à tona do riacho e disseram a Valéria:

    — Sim, nós estamos doentes.

    E as plantas curvaram as suas cabecinhas floridas e disseram a Valéria:

    — Sim, nós estamos infelizes.

    Foi então a vez de as árvores agitarem os ramos e os frutos e dizerem a Valéria:

    — Nós também não somos felizes.

    E Valéria contou pelos dedos das mãos: por causa do chumbo, do chumbo e do mercúrio, do mercúrio e do zinco, do zinco e do cobre, dos produtos químicos, e dos homens que não sabem o mal que estão a fazer.

    Depois do riacho, dos peixes, das plantas e das árvores, foi a chuva quem disse a Valéria:

    — Eu também estou poluída; vim do mar, do grande mar, que está poluído pelo homem. Mil espécies de peixes já desapareceram e quase 20000 correm o perigo de desaparecerem. E agora até existe outra poluição porque os navios encheram os oceanos de garrafas de plástico.

    — De garrafas de plástico?

    — Sim. O Oceano Pacífico está cheio de garrafas de plástico que serviram para refrigerantes e que são lançadas ao mar. São milhares de garrafas que ficam a boiar. E lá no fundo, onde antigamente havia lindos recifes de corais, encontra-se chumbo, mercúrio; os peixes não resistem, Valéria; se os homens não tiverem juízo, o mar pode morrer e os homens não podem viver sem o mar…

    — Os homens não podem viver sem o mar — repetiu Valéria — e também não podem viver sem o ar que devia ser transparente mas também está poluído.

    — Claro que estou poluído — confirmou o ar. — As chaminés das fábricas, os automóveis, os aviões têm-me poluído de tal maneira que qualquer dia não tenho oxigénio suficiente para a respiração das plantas, dos animais e do próprio homem.

    Depois do riacho, dos peixes, das plantas e das árvores e da chuva que falou do mar, e do ar que soprou as suas verdades, foi um pato que tinha vindo da Dinamarca que contou a Valéria que na sua terra havia cento e cinquenta mil caçadores que tinham cento e cinquenta mil espingardas e enchiam a Natureza de chumbinhos…

    O pato explicou:

    — Os meus amigos gansos, os meus camaradas marrecos e os meus irmãos patos engolem os chumbinhos que encontram na terra, misturados com pedras pequenas, e os chumbinhos, aos poucos, envenenam as aves; e se um dia os caçadores caçarem as aves, também podem ser envenenados ao saborearem o jantar…

    — Os homens não sabem o que fazem — disse mais uma vez Valéria. —É preciso que todas as crianças do mundo, que serão os homens do futuro, salvem a Natureza. — Salvem os rios, os riachos, os lagos e as lagoas, os peixes e peixinhos, os corais, os mariscos, todas aquelas coisas vivas e lindas com conchas e conchinhas, o mar, o grande mar, que leva os barcos e beija a praia, o ar, o oxigénio, o vento as nuvens, a chuva, os marrecos, os patos e os gansos, e todos os pássaros e todos os homens, e Valéria e todas as Valérias do mundo.

    Foi então que o solo contou os seus problemas:

    — Derrubaram as minhas florestas, queimaram a vegetação, colocaram herbicidas nas minhas folhas (sou ainda verde, mas por quanto tempo?), mataram os insectos; as vacas comeram a erva, e o leite ficou envenenado; as crianças que beberam o leite estão doentes. Assim não podemos continuar, pois não, Senhora Galinha?

    E a galinha que estava a debicar as folhas e folhinhas nas pedras e nas pedrinhas disse logo que não; os seus ovos já não eram tão bons e os cereais também não e as verduras também não.
    Valéria sabia que nenhum deles mentia porque a Natureza nunca mente e que era preciso escrever para as crianças do Brasil que escreveriam para as de Portugal para que escrevessem para as da França que escreveriam para as da Rússia para que escrevessem para as da Índia – que escreveriam para as do Japão para que escrevessem para as da China – que escreveriam para as da Inglaterra, da Itália, da América, de todos os cantos e recantos do mundo, porque era preciso que todos os meninos – meninos brancos, meninos pretos, meninos amarelos, (e as meninas também, é claro) – soubessem que a vida estava em perigo e era preciso salvar a vida.

    Cabelo ao vento, Valéria avançava no vale, no verde vale, Valéria.

    E escreveu cartas e mais cartas enviadas pelo correio, levadas pelos pássaros que emigravam, pelos peixes que partiam para outros rios e para outros mares sopradas pelo vento, seguindo na boca dos bichos, passadas de mão em mão pelas crianças de todas as raças.

    E as crianças de todas as raças chamaram os pássaros e os peixes e o vento e os bichos e as mãos, e levaram a mensagem de Valéria para que todos soubessem, em todas as partes do mundo, que a vida estava em perigo.

    E quando todas as crianças souberam, todas se recusaram a continuar os erros dos homens — poluindo os rios, a chuva, os mares, o ar, o solo, tudo, tudo, tudo.

    A mensagem de Valéria chegou ao coração de todos os meninos e meninas, que serão os homens e as mulheres de amanhã. Que serão os pais e as mães de novos meninos e de novas meninas.

    Todos decidiram salvar a Natureza e todos os bichos e todos os seres humanos que fazem parte da Natureza.

    Ainda temos de esperar para que as crianças sejam adultas e cumpram a palavra que deram. Mas podemos confiar na palavra dada, porque a palavra da criança não está poluída.

    Os pássaros que levaram a mensagem contaram a outros pássaros — os peixes a outros peixes — as ondas a outras ondas e o vento soprou a mensagem que correu nas patas dos bichos.

    Agora todos sabem o que se passou, e o riacho salta e saltita e diz:

    — Obrigado, Valéria!

    Exactamente como os peixes, as plantas e as árvores, que dizem:

    — Obrigada, Valéria!

    Tal e qual a chuva, que desce do alto muito fininha, para dizer:

    — Obrigado, Valéria!

    E o ar que voltará a ser transparente e agradece, agradece, enquanto o pato que veio da Dinamarca, em nome de todas as aves e pássaros e de todos os bichos, diz quá-quá , que é “obrigado” em língua de pato.

    E a vida, que é tudo, tudo o que está poluído e maltratado pelos homens, olha a menina que enviou a mensagem e tem confiança na promessa das crianças de salvarem a Natureza.

    Valéria sorri
    e avança no vale,
    no verde vale,
    Valéria.

    Sidónio Muralha
    Valéria e a Vida
    V. N. Gaia, Edições Gailivro, 2004
    adaptado

    Saldo negativo

    José Dias da Silva
    Além-Mar, Novembro de 2006

    No passado 9 de Outubro [2006], sem darmos por isso, aconteceu algo demasiado perigoso. Nesse dia esgotámos os recursos que a Terra nos pode dar para o ano todo. É como se alguém que tivesse 1000 euros para gastar anualmente os tivesse gasto até Outubro. Ora, o ritmo a que estamos a delapidar a nossa conta bancária ecológica está a tornar-se insustentável: em 1987 acabou a 19 de Dezembro; em 1995, a 21 de Novembro e este ano a 9 de Outubro.

    Este saldo negativo ecológico não se vê, pois a Terra aí está, tão grande e tão sólida; o petróleo, apesar do preço, produz-se aos milhões de barris por dia; o Sol, o vento ou as marés «oferecem» energias renováveis. No entanto, já começámos a tomar consciência de que nem tudo está bem: os governantes penalizam as poluições e o cidadão comum já percebeu que afinal a Terra não é tão grande nem tão rica como se pensava. Apesar disso, é urgente continuar a pressionar a opinião pública para que adquira uma verdadeira consciência ecológica.

    O principal perigo é que ainda não percebemos que estes efeitos tão grandiosos resultam dos minúsculos gestos que cada um de nós faz no seu dia-a-dia. É certo que cada um dá um contributo muito pequeno. Contudo, esses pequenos nadas são multiplicados por milhões, dando um resultado final muito significativo. Ora é esta operação de multiplicar por milhões que ainda não interiorizámos.

    Mas não basta pensar em termos de ecologia física ou ambiental, a que deteriora a natureza. Já há 15 anos João Paulo II falava de ecologia social e ecologia humana, dimensões que temos de ter em conta, pois, como se lamentava então o Papa, «empenhamo-nos demasiado pouco em salvaguardar as condições morais de uma autêntica ecologia humana».

    A ecologia social requer uma nova consciência da solidariedade, que obrigue cada país a aceitar as responsabilidades próprias nas causas e na solução da crise ecológica e obrigue cada geração a reconhecer que os que vierem depois de nós têm o direito inalienável de encontrar uma Terra habitável. Aqui deparamo-nos com o obstáculo dos nossos egoísmos individuais, grupais, nacionais, continentais e geracionais: teremos de aprender a pensar nos outros, no espaço e no tempo. E o primeiro exercício, já tão discutido e tão programado, deve ser a erradicação da pobreza.

    A ecologia humana, por outro lado, implica combater todas as ameaças contra a vida no seio da família ou da sociedade, concretizar para todos os serviços básicos vitais, educar para um consumo equilibrado e um comportamento responsável, mas sobretudo para uma «cultura da vida» na qual todos e cada um tenham vida e a tenham em abundância.

    Precisamos para isso que o lobo do Norte conviva com o cordeiro do Sul e o leão do Oeste coma ao lado do urso do Leste. Precisamos que as armas de destruição maciça, instrumentos de morte, se convertam em arados, instrumentos do pão, e em computadores, instrumentos de cultura.

    Sonhos de um louco visionário? Para uns não passará de uma utopia, porque ainda não existe em nenhum lugar da Terra. Para mim e para outros, já está presente em muitos pequenos gestos de solidariedade, sementes de um mundo no qual, como sublinhava João Paulo II, «voltaremos a encontrar, iluminados e transfigurados, os valores da dignidade humana, da comunhão fraterna e da liberdade, esses frutos excelentes da nossa natureza e do nosso trabalho, depois de os termos espalhado pela Terra… ».

    Daphne é uma menina que quer ser uma árvore. Gosta tanto de árvores que acha nada haver de mais belo à face da terra. “Ou da lua”, acrescentam, a brincar, os avós. Daphne passa sempre as férias com os avós, que afiançam que a neta está, muitas vezes, “na lua”. Enganam-se, porque Daphne não está “na lua”.

    Está nas árvores. Nas do jardim dos avós, nas da floresta mais próxima, e sobretudo naquela que é considerada o tesouro da família: a Árvore das Quatro Estações. Esta árvore tem a particularidade de ser, ao mesmo tempo, todas as árvores, em todas as estações.

    O que é muito prático para Daphne. Se lhe apetece estar no Natal, instala-se nos ramos do Inverno e colhe visco e azevinho. Na ponta dos ramos da Primavera, descobre ninhos e observa os ovos a abrir. Faz colares e pulseiras com as folhas do Outono. E, num só ramo de Verão, pode colher ameixas, damascos, cerejas e figos.

    Como é filha única, Daphne está habituada a estar só. Na solidão que é a sua, procura não fazer mal a nada nem a ninguém: pessoa, animal, ou planta. Melhor ainda, cuida das borboletas feridas. Abriu mesmo um hospital, onde é enfermeira. Trata dos ramos partidos das árvores com fita adesiva e consegue, graças à sua paciência, colá-los completamente. Se tivesse cartões de visita como os adultos, esses cartões diriam:

    Daphne
    Enfermeira de borboletas
    E médica de árvores.

    Quando está cansada de brincar com a Árvore das Quatro Estações, ou com as borboletas, Daphne vai para a floresta, que começa onde acaba o jardim. Trata-se de uma floresta mágica, como o são todas as florestas, onde uma menina pode passear sem medo, já que aí os animais não lutam entre si. Amam-se. Podemos ver passar, de braço dado, o coelho e a doninha, a raposa e o faisão, a corça e o lobo. Os caçadores não podem lá entrar. Sempre que tentam, rebenta uma tempestade que os molha até aos ossos, e que os obriga a arrepiar caminho. O único proveito que tiram dessa incursão é uma constipação que dura oito dias, no mínimo, sem falar de outras complicações, da bronquite e da pleurisia.

    Nesta floresta mágica, Daphne vê e ouve coisas muito engraçadas. Encontra uma poupa. Como é a primeira vez que vê um pássaro destes, exclama:

    — Que animal é este? Dir-se-ia um antílope, pelos chifres, e uma zebra, pela cauda.

    — Não sou uma zebra, embora seja raiada de preto e branco — corrige o pássaro. — Também não sou um antílope, embora pareça ter chifres na cabeça. São chifres de plumas que formam uma poupa, e daí o meu nome. Sou a Poupa, a mais bela das Poupas, pois sou a Rainha das Poupas.

    — Majestade — saúda Daphne, fazendo uma vénia ─ queira aceitar as minhas desculpas.

    — Estão aceites — responde a Poupa, que é boa pessoa.

    Em seguida, vão passear juntas. Quando Daphne entra na floresta mágica, a Poupa poisa no seu ombro e começa a contar-lhe os últimos acontecimentos: o desabrochar de um cogumelo que cheira a violetas, o nascimento de uma fonte dourada, o casamento de uma libelinha com um alecrim frisado.

    De uma outra vez, Daphne encontra um seixo no caminho, todo branquinho e muito redondinho. Dir-se-ia um ovo de mármore. É tão bonito que Daphne o mete no bolso. O seixo protesta imediatamente, já que não gosta de estar na escuridão do bolso. Só gosta da luz.

    — Outrora — conta ele a Daphne, surpreendida por ouvir uma pedra falar — quando os deuses viviam com os homens, e tinham estátuas nos templos, eu era o dedo de uma deusa. Os deuses e os templos desapareceram e, no meio da confusão, a deusa perdeu a cabeça e os braços. Os braços com as mãos, e as mãos com os dedos, foram dispersos pela natureza. Pouco a pouco, perderam as formas que o escultor lhes dera e tornaram-se o que antes tinham sido: simples pedras.

    Esta é a história do Pequeno Seixo (assim se chama a pedra), que, do seu esplendor antigo e dos templos erguidos no cimo das colinas, conserva o gosto pela luz. Daphne promete-lhe que o porá aos pés da Árvore das Quatro Estações, do lado do Verão, para assim estar sempre ao sol. Com é bem-educado, o Pequeno Seixo desfaz-se em agradecimentos.

    Contando com a Árvore das Quatro Estações, a Rainha das Poupas e o Pequeno Seixo, Daphne já tem três amigos. Vai ter um quarto, ou melhor, uma quarta: trata-se de uma feiticeira.

    Mesmo no meio da floresta, existe um carvalho enorme: é lá que habita a feiticeira. Escolheu morar ali, porque também gosta de árvores. Construiu um ninho para si mesma, à semelhança dos pássaros, mas à sua medida: um metro e cinquenta centímetros. Como os habitantes da floresta lhe querem tanto bem quanto a respeitam, chamam-lhe “Venerável”. Quando ouve o epíteto, a feiticeira ri-se de si própria e diz: — Veneranda Mãe, sou a Venerável Ninho de Pássaro.

    Venerável Ninho de Pássaro: assim lhe chamam os amigos íntimos, entre os quais se conta Daphne, deslumbrada e conquistada pelas proezas da feiticeira. Com efeito, é ela que faz desabar a tempestade sobre os caçadores.

    A Venerável Ninho de Pássaro ensina a Daphne imensas coisas sobre as árvores: os seus hábitos, os seus costumes, os seus segredos.

    — O que é uma árvore? É alguém que não tem mãos para se defender, nem pés para fugir.

    E acrescenta:

    — As pessoas aproveitam-se disso para as massacrar. Daphne, nunca se deve maltratar uma árvore, tal como nunca se deve dizer a uma criança que é estúpida. O que é uma criança? É um adulto que ainda não teve tempo de crescer.

    O mês de Julho passa, enquanto Daphne se diverte com os amigos e escuta a Venerável Ninho de Pássaro.

    Chega o mês de Agosto. Um dia, no início do mês, o avô entra em casa e põe os jornais sobre a mesa.

    — Vejam — diz, consternado, dirigindo-se à avó e a Daphne.

    Todos os jornais trazem a mesma notícia:

    SOS Floresta
    M M ataca

    Daphne pergunta o que quer dizer MM. MM quer dizer Máquina Malvada, aquela que engole árvores às centenas e devora uma floresta inteira de uma só vez.

    As florestas ameaçadas lançam um apelo, um SOS.

    Por ora, a Máquina Malvada não ataca os seres humanos, contentando-se com aterrorizá-los com o seu barulho infernal e os seus odores pestilentos. Tresanda e mata. É decretado o estado de tristeza geral no país. O que se pode fazer? É Verão. As pessoas estão na praia ou na montanha. Na aldeia da floresta mágica, só há velhos e crianças como Daphne. Cada um se fecha na sua casa quando a Máquina Malvada desfila pelas ruas, arrotando vapores de gasolina e ameaçando as árvores, mesmo aquelas que se escondem nos jardins:

    — Nenhum muro e nenhuma grade conseguirão deter-me quando eu tiver fome.

    Daphne decide salvar a floresta e libertar o seu país da Máquina Malvada.

    Para o efeito, convoca a Rainha das Poupas e o Pequeno Seixo, que aprovam a sua resolução. É claro que é preciso acabar com ela, e já. A Árvore das Quatro Estações, que vê os seus dias contados, definha. Na floresta mágica, os animais não ousam sair das suas tocas e passam fome e sede. É uma situação intolerável. Mas o que fazer para destruir a Máquina Malvada?

    Daphne, a Rainha das Poupas e o Pequeno Seixo partem em busca dos conselhos e da ajuda da feiticeira. A Venerável Ninho de Pássaro está desesperada. Nada pode fazer contra a Máquina Malvada. A tempestade que ela enviava contra os caçadores já não lhe obedece.

    — Antes quero molhar os caçadores do que sujar as minhas gotas de chuva e os meus trovões com esta máquina gordurenta que transpira óleo queimado — repete, obstinada, a tempestade.

    Exasperada com tal atitude, a Venerável Ninho de Pássaro anuncia aos amigos que se vai embora de vez, que deixa a floresta para se refugiar em qualquer parte do céu.

    — Quem gostar de mim que me siga — diz a feiticeira. Posso transformar o meu ninho em tapete voador e podemos partir imediatamente.

    Ninguém quer, ou pode, partir imediatamente. Daphne tem de avisar os avós, e a Rainha das Poupas o seu povo.

    Antes de partir para sempre, a Venerável Ninho de Pássaro revela a Daphne uma fórmula mágica, que deve ser aprendida de cor, não pode ser divulgada, e só deve ser utilizada em caso de perigo extremo:

    Árvore, querida árvore,
    Transforma-me em árvore
    No centro da lua.

    — Nunca imaginei que a Venerável Ninho de Pássaro fosse tão egoísta e nos abandonasse quando mais necessitamos dela — queixa-se a Rainha das Poupas

    Ao que Daphne respondeu:

    — Não faz mal. Acabaremos por vencer. Os fortes serão vencidos. Nós venceremos porque somos os mais fracos.

    — Está tudo ao contrário — lamenta a Rainha das Poupas.

    — A Daphne tem razão — assevera o Pequeno Seixo. A Máquina Malvada é muito forte, mas deve ter uma fraqueza escondida. Se a encontrarmos, podemos tirar partido dela e bater a Máquina. Quando era o dedo de uma deusa, falava-se muito, nos templos, de um rapazinho chamado David, que tinha conseguido derrubar um gigante, Golias, ao acertar-lhe com uma pedra em plena testa. Serei eu essa pedra e Daphne será David.

    É preciso salvar as árvores. O tempo urge. Fica decidido, por unanimidade, que Daphne se disfarçará de árvore para chamar a atenção e despertar o apetite da Máquina Malvada. É fácil: Daphne só tem de vestir o casaco de bombazina castanha do avô, que parece mesmo uma casca de árvore. Na cabeça, usará a capelina com flores da avó.

    — Parecerei uma árvore florida a passear — comenta.

    Meu dito, meu feito. Disfarçada de árvore, Daphne passeia na estrada. Leva o Pequeno Seixo dentro da mão cerrada. Este suplica:

    — Não me apertes tanto que me abafas. Não te esqueças do nosso plano de ataque. Logo que a Máquina Malvada abra a boca, atiras-me lá para dentro. Acredita que um pedaço de mármore, um antigo dedo de deusa, que teria hoje três mil anos, é mais difícil de digerir do que uma árvore tenra ou uma floresta mágica. A Máquina Malvada vai morrer de indigestão. Quando estiver morta, libertas- me. Não me deixes no meio daquele ferro-velho.

    — Claro que não. Agora cala-te, que já a ouço aproximar-se — sussurra Daphne.

    Ei-la que chega, negra de óleo e malvadez, qual monstruosa vespa feita de ferro, com os olhos salientes e em forma de ampola.

    — Eis uma árvore que se passeia. Vou comê-la para ganhar apetite.

    Abre os maxilares e mostra uma fila de dentes, de tal forma pontiagudos e feios que Daphne, apanhada de surpresa, erra a pontaria.

    O Pequeno Seixo acerta no olho da Máquina Malvada, que estremece de dor e de cólera. Enfurecida, consegue arrancar o Pequeno Seixo da pálpebra e atira-o com tal força que a pedrinha desaparece lá para as bandas do sol. A deusa esperava-a, com um sorriso radioso:

    — Eis-te, enfim, pequeno dedo. Faltavas-me tu para poder entrar inteira no paraíso das deusas.

    Daphne e a Máquina Malvada ficam frente a frente.

    — Vou devorar-te — ruge a máquina, lançando sobre Daphne um sopro eléctrico de tal forma potente e viscoso que a deita ao chão. A menina reúne as forças que lhe restam para se levantar e correr para a floresta, a fim de se refugiar no carvalho. Daphne corre e os amigos acorrem em seu socorro. Em vão.

    Nem a Rainha das Poupas, nem as borboletas conseguem abrandar a Máquina Malvada, que é cada vez mais veloz. Aproxima-se de Daphne, sem apelo nem agravo. Daphne sente-se perdida e é então que se lembra da fórmula mágica que a Venerável Ninho de Pássaro lhe confiara:

    Árvore, querida árvore,
    Transforma-me em árvore
    No centro da lua.

    O desejo é formulado com tanta força que é de imediato realizado. Daphne levanta voo sob os aplausos da Rainha das Poupas e dos amigos da floresta, enquanto a Máquina Malvada se debate sozinha e, enraivecida, se reduz a um montão de óleo fumegante.

    Daphne sobe, sobe, atravessa as fronteiras celestes, e percorre o país da Luz. De passagem, cumprimenta a feiticeira Venerável Ninho de Pássaro, o Pequeno Seixo, a nuvem, o peixe, a onda, os signos do Zodíaco e a Ursa Maior.
    Chega finalmente ao centro da lua e aí transforma-se em árvore. A árvore da lua, que podemos ver nas noites de lua cheia…

    Jean Chalon/Martine Delerm
    Un arbre dans la lune
    Éditions du Rocher, 2003
    Adaptação

    Era Janeiro, uma daquelas manhãs claras e secas que fazem lembrar velhos montanheses de bigodes gelados e olhos piscos do sol. Nevara. Grandes e densos flocos tinham caído durante toda a noite. Depois, com a chegada do dia, um forte sopro de vento norte limpou o céu.

    A floresta, que começa atrás da casa e se estende pela montanha, estava completamente adormecida, envolta num grande silêncio gelado. Por entre as árvores estendiam-se sombras azuis. Os pinheiros vergavam sob a carga da neve, pois o vento da madrugada soprara apenas o suficiente para afastar as nuvens.

    Isabel e Gerardo viviam ali, junto do bosque, em casa dos avós. Era uma casinha cinzenta de portadas verdes. Lá longe, na margem gelada da ribeira, ficava a aldeia, que mal se via naquela manhã, bem como o caminho que seguia ao longo dos campos e atravessava a pradaria.

    Da janela, as duas crianças esforçavam-se por segui-lo com o olhar. Viam-no bem até à primeira curva, junto do grande ácer morto há dois anos, e que o avô ainda não tinha decidido cortar, mas, para lá dele, tudo se confundia.

    Enquanto estavam assim, de nariz colado ao vidro, Isabel e Gerardo viram passar um pássaro, depois outro e depois um bando que se empoleirou na ramada fazendo cair montinhos de neve.

    — Estão com frio — disse Isabel. — É preciso dar-lhes sementes ou pão para eles comerem.

    Arranjou alguns grãos e Gerardo abriu a janela.

    — Fecha depressa — gritou o avô — que o Inverno vai entrar-nos pela casa dentro!

    As crianças puseram-se a rir. Como se o Inverno pudesse entrar numa casa!

    Isabel atirou os grãos para a vereda que o avô tinha varrido para poder ir buscar lenha. A avó pôs-se a tossir e levantou as tampas redondas do fogão para lá meter um enorme cavaco. Depois de fechada a janela, dois pássaros desceram da latada. Os outros pareciam inquietos mas, ao verem que nada se mexia, voaram também, enquanto outros desciam do telhado, direitinhos, quase sem baterem as asas.

    — A comida não vai chegar para todos — disse Isabel. — Estão a vir cada vez mais.

    — Chega! Já chega! — gritou a avó. — Se lhes deres tudo, as minhas galinhas é que vão ficar sem nada!

    — E se continuas, vais atrair todos os pássaros da floresta — disse o avô exagerando.

    Isabel lá se conformou e voltou para a janela. Ficou bastante tempo ao lado do irmão, limpando o vidro embaciado quando deixava de conseguir ver. De repente, agarrou no braço do irmão e disse, apontando:

    — Olha para o caminho!

    Gerardo levantou os olhos. Ao fundo, para lá do ácer morto, um curioso animal avançava sobre a neve. Parecia o coelhinho de corda mecânico que o Pai Natal tinha trazido a Gerardo, alguns anos atrás. Saltitava, vacilava da direita para a esquerda e parava a todo o momento, exactamente como o brinquedo. Estava vestido de pêlo cinzento e tinha orelhas compridas, que se tocavam no cimo da cabeça, tal e qual o coelho.

    Esta aparição era tão surpreendente que as crianças esqueceram as aves e ficaram de boca aberta a observar aquele estranho animal cujos olhos, por vezes, reflectiam luz.

    Quando o coelho, que caminhava apenas com as patas de trás, chegou junto da sebe que circundava o jardim, as crianças só lhe viram a cabeça.

    — Parece que vem para aqui! — murmurou Gerardo.

    — É verdade! Está a contornar o jardim.

    O coelho desapareceu e seguiu-se um longo silêncio angustiante. As crianças sustinham a respiração, à escuta. Em breve ouviram-se passos no degrau de pedra, e os pássaros voaram tão rápido que as crianças se assustaram.

    — Não ouviram nada? — perguntou o avô.

    Os dois pequenos abanaram a cabeça.

    — O que poderá ser? — disse a avó. Àquela hora o carteiro ainda estava longe. Os avós não tinham visto nada da estranha figura e os pequenos não ousavam responder. Não podiam dizer: “É um coelho mecânico, grande como um homem, que vem sozinho e está a bater as botas na soleira da porta!”

    Sentiu-se ainda um roçar na parede, depois ouviu-se bater à porta. Os avós olharam um para o outro e depois para a porta. Como voltaram a bater com mais força, o avô gritou por fim:

    — Entre!

    A porta abriu-se lentamente e uma baforada gelada entrou na cozinha. Desta vez era o coelho quem trazia o Inverno no pêlo cinzento. Porque era mesmo ele que se encontrava ali, de pé, na soleira da porta, surpreendido com o calor e o cheiro do lume onde se cozinhava carne de coelho verdadeiro.

    A avó correu a fechar a porta. E não é que o coelho se põe a falar!…

    — Bom dia, bom dia — disse ele. — Venho muito cedo, desculpem, mas…

    Os pêlos cinzentos afastam-se à altura do rosto, aparecem uns grandes óculos, depois um nariz muito vermelho, depois uns bigodes espetados como uma vassoura de crinas de cavalo e a seguir uma cara de barba branca, parecida com a do avô.

    — Mas, é o Vicente! — disse o avô, admirado. — É o Vicente!

    E era verdade! Era mesmo o Vicente. E só quando tirou o boné de orelhas levantadas e despiu a peliça cuja gola lhe tapava os olhos é que as crianças tiveram a certeza de que o coelho mecânico era um homem. Nunca o tinham visto, mas o avô já lhes tinha falado muitas vezes daquele velho amigo.

    O tio Vicente limpava os óculos, limpava as lágrimas que lhe corriam dos olhos e repetia:

    — Quase nem vos vejo. O calor, depois do frio, faz-me sempre chorar. E os óculos ficam embaciados.

    Não via, mas podia falar e ouvir. Rapidamente se sentou ao canto da lareira junto do avô e pôs-se a contar histórias do seu tempo de rapaz. O avô também contava as suas. Falavam ao mesmo tempo, não ouviam o que cada um dizia, mas ambos pareciam felizes.

    As crianças tinham voltado para a janela. Já não havia grãos, mas algumas aves teimavam em procurá-los. Uma sombra passou sobre a neve, um pássaro grande, preto, baixou para ir pousar em cima da árvore morta. Gerardo voltou-se e disse:

    — Avô, está uma águia em cima da árvore morta! Anda depressa! Anda ver depressa, avô!

    O avô nem se mexeu, mas Vicente levantou-se e juntou-se às crianças.

    Com os óculos redondos, e agora já limpos, em cima do nariz, disse:

    — Não é uma águia, é um corvo. E a árvore é um ácer, mas não está morta.

    Do seu sofá, o avô gritou:

    — Já está morta há dois anos. E, mal possa, vou arrancá-la.

    — Asseguro-te que não está morta — afirmou Vicente. — As árvores nunca morrem…

    — Não me digas uma coisa dessas! — disse o avô admirado. — Garanto-te que já passaram duas primaveras sem ela dar rebentos. Digo-te que está morta e pronta para ser queimada.

    Vicente olhou-os a todos mas dir-se-ia que não estava a vê-los, que fixava outra coisa distante, para lá do fim da planície.

    — Repito que as árvores nunca morrem — disse. — E vou provar-vos. Hei-de prová-lo, fazendo cantar o vosso velho ácer.

    O avô pareceu não acreditar, mas calou-se. Vicente era seu amigo, por isso não queria contrariá-lo.

    As crianças entreolharam-se. Será que tinham ouvido bem?

    Vicente voltara a sentar-se no cadeirão e retomara já o fio das suas histórias. Vai ficar por ali até ao anoitecer e partilhar com eles a refeição do meio-dia.

    Quando Vicente se vai embora, o avô acompanha-o até ao ácer. Andam em volta da árvore como se jogassem às escondidas, e parecem minúsculos à luz do crepúsculo que afasta tudo e confere à paisagem o aspecto de um postal de boas-festas.

    Mal o avô regressa, as crianças correm para ele e perguntam:

    — Então, o que é que ele disse?

    — O Vicente teima que o ácer não está morto. E até me prometeu que ia fazê-lo cantar.

    — Mas como, avô? Como é que ele irá fazer?

    — Esse é o segredo dele. Mais tarde verão. Não posso dizer-vos nada porque ele nada me explicou. É preciso esperar.

    As crianças bem insistem, mas o avô não diz mais.

    O tempo passou. A neve derreteu e as chuvas da Primavera limparam as últimas marcas do Inverno no flanco da colina. As crianças nunca mais pensaram no tio Vicente. Porém uma tarde, ao regressarem da escola, aperceberam-se de que faltava qualquer coisa na paisagem. Era o ácer. No seu lugar havia apenas um cepo enorme, alguns ramitos, pedaços de casca e serradura semelhante a um montinho de neve que tivesse ficado ali esquecido pelo sol.

    — Deve ter sido o avô que cortou a árvore — disse Gerardo. — Não devia ter feito isso. O senhor Vicente tinha prometido que ia fazê-la cantar.

    — E tu acreditas nisso? — perguntou Isabel.

    — Claro, porque foi o senhor Vicente que prometeu.

    — Mas o avô acha que uma árvore morta só pode cantar no lume!

    — Não quero que a queimem — disse o rapaz. — Anda, vem depressa!

    Desataram a correr para casa. Pousaram as pastas ao fundo das escadas e escaparam-se para a casa da lenha, uma pequena cabana de madeira que o avô construíra ao fundo do quintal.

    A porta estava escancarada e a carroça de mão parada diante da entrada. As crianças correram a toda a velocidade e chegaram coradas e ofegantes. O avô e Vicente saíam da casinha da lenha. Um troço do ácer ainda estava em cima da carroça. As crianças olharam para Vicente com ares de reprovação nos seus olhos claros, mas o velhote sorriu-lhes por baixo do bigode. Aproximou-se do carro e pôs-se a acariciar o tronco do ácer como se fosse um cão.

    As mãos do senhor Vicente são grandes, com dedos compridos e grossos e unhas levantadas na ponta, com uma forma esquisita. Quando Vicente acaricia a madeira parece que está lixá-la, de tão ásperas que são as suas mãos. Quando cumprimenta, dir-se-ia que traz calçadas luvas de ferro, como as que usavam os cavaleiros na Idade Média.

    Acariciou a madeira e piscou o olho, dizendo:

    — Não se preocupem, ele cantará. Prometi e cumpro sempre as minhas promessas.

    — Há-de cantar no fogão — resmungou o avô. — Como todas as árvores que morrem. Fazê-lo cantar assim é fácil.

    O avô devia estar a brincar! Mas Vicente deu ares de se zangar.

    — Cala-te! — gritou ele. — Tu não percebes nada. Eu cá digo-te que vai cantar melhor do que quando estava vivo, com os pés enterrados e a cabeça ao sol. Melhor do que nos dias em que estava carregado de pássaros e era sacudido pelo vento.

    As crianças escutavam aquela linguagem curiosa. Como pareciam duvidar, Vicente agarrou cada uma pelo braço e apertou-as com as suas mãos duras. Apertava muito, quase magoava, mas aquela força dele dava muita segurança. Virou-se para a carroça e continuou a apalpar o grande tronco deitado em cima das tábuas.

    Inclinava-se, batia com os nós dos dedos, escutava, levantava-se meneando a cabeça, exactamente como faz o médico quando estamos doentes na cama, com muita febre. Mas Vicente não parecia preocupado. Continuou a auscultar a árvore, repetindo de vez em quando:

    — Está boa… está muito boa… Está saudável… Há-de cantar… Hão-de ver que é verdade o que lhes digo. Há-de cantar, melhor do que quando estava carregadinha de pássaros.

    No dia seguinte, tinha desaparecido tudo. Na cabana já só restavam alguns ramos e um monte de serradura. As crianças puseram-se à procura e lá acabaram por encontrar o ácer no sótão. Mas, desta vez, ficaram muito decepcionadas. A árvore estava irreconhecível, toda transformada em grandes tábuas. Tinha mesmo o aspecto de uma árvore morta.

    — O senhor Vicente estava a brincar connosco — disse Isabel. — Ele nunca vai fazer cantar esta árvore. Só se fosse feiticeiro. E o senhor Vicente não é nenhum feiticeiro.

    — Sabes lá?

    Isabel olhou para o irmão muito espantada.

    — Achas que ele é feiticeiro!? — perguntou.

    Gerardo deu-se ares de importante:

    — Não seria impossível. Eu sei cá umas coisas… umas coisas.

    De facto, gabava-se de que estava mais bem informado do que a irmã, mas o certo é que não sabia mais acerca do tio Vicente do que vocês e eu. Mas a Primavera está cheia de vida e as crianças depressa esqueceram a velha árvore. Antes da seiva começar a subir, o avô tinha ido à floresta e trouxera dois áceres pequenos que plantara à beira do caminho, de cada lado do velho cepo. Agora, aquelas árvores pequenas já tinham folhas e começavam a cantar com o vento que vinha do horizonte distante, empurrando enormes nuvens brancas no céu azul.

    Passou a Primavera e depois, um dia, no mês de Julho, o avô tirou o carro de mão da casa da lenha e foi ao sótão buscar as tábuas maiores que tinha feito com o ácer.

    — Vamos lá então à oficina do Vicente — disse.

    Isabel trepou para a carroça. O avô puxava pelo timão, enquanto Gerardo empurrava atrás. Andaram mais de uma hora até chegarem à aldeia. Uma hora debaixo de um sol escaldante.

    Vicente vivia mesmo no fim da aldeia, numa casa cujas janelas viam correr a água do ribeiro. Mal ouviu ranger as rodas de ferro na calçada do pátio, Vicente apareceu à soleira da porta. Levantou os braços num gesto cómico e exclamou.

    — Diacho! Aqui estão clientes sérios! Há quanto tempo vos esperava!

    Vestia uma camisa clara e um avental de lona azul que lhe chegava aos pés. As mangas arregaçadas deixavam ver os antebraços magros e por isso as mãos pareciam ainda mais gordas.

    Ajudou o avô a transportar as tábuas até ao fundo de um grande barracão sombrio onde as crianças não se atreveram a entrar. Lá de dentro vinha um cheiro esquisito, por isso deixaram-se ficar ali de mãos dadas.

    Contudo, Vicente mandou-as entrar para um outro compartimento mais claro. O sol, reflectido pela água do ribeiro, dançava no tecto.

    — A madeira — dizia ele — é um material nobre.

    O reflexo da água do ribeiro brincava por cima das suas cabeças, assemelhando-se a ondas agitadas.

    — Dêem-me licença de que acabe o que estava a fazer — disse Vicente.

    O avô aprovou e o velhote lançou-se ao trabalho. As suas mãos enormes, que pareciam tão desajeitadas, podiam manipular os objectos mais minúsculos e mais frágeis. Vicente explicou que estava a polir o mecanismo da fechadura de um cofre de segredo. Fazia tudo em madeira, até as fechaduras e as dobradiças.

    Para ele, o metal estava ao serviço da madeira.

    — A madeira — dizia — é um material nobre. Vivo? Sempre vivo. O metal é bom para fabricar os instrumentos que permitem trabalhar a madeira. Mas a madeira… a madeira…

    Quando pronunciava esta palavra, os olhos nem pareciam os mesmos.

    Vicente não era um homem como os outros: era um apaixonado pela madeira.

    Falava dela como de um ser vivo, como de uma pessoa da sua família com quem vivesse há anos. Com a madeira podia fazer tudo. Caixinhas pequeninas incrustadas de marfim e de embutidos complicados. Pequenas mesinhas, cujos pés eram tão finos que as crianças até sustinham a respiração com receio de as fazer cair.

    As paredes da sua oficina estavam guarnecidas de instrumentos colocados em prateleiras ou suspensos em ganchos. Havia plainas de todos os tamanhos e de todas as formas, serras, goivas, tesouras, galopas, caixas com formas, compassos e muitos outros instrumentos cujos nomes as crianças estavam a ouvir pela primeira vez. E depois, havia frascos de cola, garrafas de verniz, bolas de cera e madeira por todo o lado. Madeira de todas as qualidades, de todas as formas e de todas as cores.

    Quando Isabel, que era muito curiosa, se dirigia para uma pequena porta e já tinha a mão pousada no puxador, Vicente correu até junto dela:

    — Não, não — disse ele — não entres aí… É nesse quarto que está o meu segredo.

    Isabel imaginou o quarto do Barba-Azul, mas riu-se. Há muito tempo que não acreditava nessas coisas.

    — É o meu segredo — repetiu Vicente. — Hás-de conhecê-lo quando ouvires a tua árvore cantar.

    O Verão passou demasiado depressa, com as férias e as maravilhosas correrias pelo campo e pela floresta. As duas árvores plantadas pelo avô cresciam bem. Os pássaros já lá pousavam. No início das aulas, as suas folhas começaram a ficar amarelas e os fortes ventos de Outono levaram-nas para longe. Os dois pequenos áceres pareciam mortos, mas Gerardo e Isabel sabiam que acabavam de adormecer para o Inverno. Por causa dos trabalhos de casa, sempre difíceis, e das lições a estudar, as duas crianças não pensaram mais nos áceres nem na promessa do tio Vicente.

    Numa quinta-feira de manhã, uns dias antes do Natal, os pequenos aperceberam-se, ao acordar, de que a neve tinha chegado.

    Havia um grande silêncio em volta da casa, e a luz filtrada pelas frinchas das persianas era mais branca do que a das outras manhãs. Levantaram-se muito depressa, apesar do frio.

    — Os pássaros! — disse Isabel. — Temos de pensar nos pássaros!

    Ia abrir a janela para deitar comida, quando avistou, a cambalear pela vereda branca, o coelho mecânico.

    — Vicente, é o tio Vicente!

    Era mesmo ele, vestido com a peliça cinzenta e o boné de orelhas, mas trazia debaixo do braço um grande volume, comprido, embrulhado num papel castanho. O velho homem aproximava-se lentamente, acertando com dificuldade no traçado do caminho. Passou pelos dois áceres que mal se viam no meio daquela brancura, o boné dançou por uns momentos acima da sebe e depois desapareceu.

    — É ele! — repetiam. — É mesmo ele!

    Não sabiam o que trazia o tio Vicente, mas o coração pôs-se-lhes a bater muito depressa. Mal os pés do velho bateram na soleira de pedra, Gerardo correu a abrir a porta.O ar que entrou ao mesmo tempo que Vicente vinha salpicado de flocos brancos. O fogo crepitou mais forte e depois fez-se silêncio. Estavam ali os quatro a olhar para o tio Vicente e para o seu embrulho muito bem atado.

    Vicente pousou o embrulho em cima da mesa, tirou os óculos, limpou-os devagarinho, assoou-se, voltou a pôr os óculos e aproximou-se do fogo, a esfregar as mãos, que faziam um ruído como se fossem de lixa.

    — Está-se melhor aqui do que lá fora — disse ele.

    As crianças estavam impacientes. Uma de cada lado da mesa, miravam o embrulho sem ousarem tocar-lhe. O velho homem parecia que sentia prazer em fazê-las esperar. Observava-as pelo canto do olho e deitava uns sorrisos cúmplices aos avós.

    Por fim, virou-se e disse:

    — Então, por que esperam para o abrir? Não sou eu que vou desmanchar o embrulho!

    Quatro mãozinhas voaram ao mesmo tempo. Eram muitos nós e estavam muito apertados.

    — Avó, empresta-nos a tesoura…

    — Não — disse Vicente. — É preciso aprender a paciência e a economia. Desfaçam os nós e não estraguem nada, quero recuperar o fio e o papel.

    Foi preciso ter paciência, magoar as unhas, aborrecer-se um bocadinho. O tio Vicente ria-se.

    Os avós, tão impacientes como as crianças, esperavam, seguindo com os olhos todos os seus gestos. Finalmente o papel foi retirado, e surgiu uma caixa comprida de madeira avermelhada e luzidia. Era mais larga num lado do que no outro. Vicente aproximou-se lentamente e abriu-a.

    No interior, numa cama de veludo verde, dormia um violino.

    — Aqui está, e tudo isto feito com a vossa árvore — disse o Vicente.

    — Meu Deus — repetia a avó, que juntara as mãos em sinal de admiração. — Meu Deus, que lindo que é!

    — Ora, uma destas!… com que então!… — gaguejava o avô. — Sabia que eras habilidoso, mas não tanto!

    O velho artesão sorria. Passou várias vezes a mão pelo bigode antes de dizer:

    — Percebem agora por que é que não queria deixar-vos entrar na estufa? É que veriam lá violinos, guitarras, bandolins e muitos outros instrumentos. E vocês teriam adivinhado tudo. É verdade! Sou luthier. Faço violinos… E o ácer, sabem, é a madeira que melhor canta.

    A sua mão avançou lentamente para acariciar o instrumento, depois retirou-a a tremer.

    — Então? — disse ele a Gerardo. — Não queres experimentar? Não queres fazer cantar a tua árvore? Anda lá, podes pegar nele. Olha que não morde, fica tranquilo.

    O rapaz retirou o violino da caixa e pegou nele como via fazer aos músicos. Pousou o arco em cima das cordas e fez sair uma chiadeira horrorosa. A avó tapou os ouvidos, enquanto o gato, acordado em sobressalto, desaparecia debaixo   do guarda-loiça. Todos se riram.

    — Está bem! — disse o avô. — Se é a isto que chamas cantar!

    — Tem de aprender — disse Vicente pegando no instrumento, que colocou debaixo do queixo.

    E o velho luthier de mãos enormes pôs-se a tocar. Tocava e caminhava devagarinho em direcção à janela. Imóveis, as crianças olhavam e escutavam.

    Era uma música muito suave, que parecia contar uma história semelhante às velhas lendas vindas do fundo do horizonte.

    Vicente tocava, e era mesmo a alma da velha árvore que cantava naquele violino.

    Bernard Clavel

    L’arbre qui chante

    Paris, Pocket Jeunesse, 2002

    Tradução e adaptação

    Longe, muito longe… bem no coração da savana, vivia uma árvore maior e mais velha do que qualquer outra.
    Abrigava, sob a sua corcha, toda a sabedoria de África.
    A seus pés, por entre as altas ervas, a leoa espiava o antílope ou a zebra que se tinham afastado do grupo. Como era a única árvore das redondezas, os pássaros, que se empoleiravam nos ramos mais altos, conheciam-na bem. Também as girafas, que comiam as folhas dos ramos do meio, a conheciam. E os leões, que se estendiam sob os ramos baixos para fazerem a sesta…
    E assim a árvore conhecia todos os segredos dos pássaros, dos leões, das girafas, das zebras e de muitos outros animais. É que ela escutava com todas as suas folhas.
    Até os homens vinham sentar-se debaixo da árvore no momento das grandes decisões, discutindo os assuntos sérios à sombra dos seus ramos.
    A árvore sabia mais sobre o povo dos homens do que o mais velho dos anciãos e o mais sábio dos sábios. Porque ela sabia calar-se, enquanto eles gostavam de falar.
    Mas a árvore não guardava para si o seu saber: àqueles que tinham os ouvidos atentos, ela murmurava, em confidência, a resposta a muitas questões.
    Quando os seus filhotes estavam suficientemente grandes para voar, as andorinhas, as cotovias e os estorninhos tinham por hábito levá-los até à árvore. Ao cair da noite, a árvore enchia-se de chilreios. Passado algum tempo, com três bicadas, os pais faziam calar os mais palradores. E cada um escutava o murmúrio que subia da raiz mais profunda até ao raminho mais alto.
    No dia seguinte, os jovens sabiam um pouco mais da arte de voar em ziguezague para enganar as aves de rapina que mergulham sobre as presas. E a águia ou o milhafre regressavam às montanhas de mãos a abanar, perguntando-se por que milagre todos os passarinhos daquele canto da savana se tinham tornado, de repente, tão espertos!
    E cada girafinha que partia a mascar um punhado de folhas da árvore ficava a saber um pouco melhor como evitar a leoa que caçava. E, misteriosamente, cada leãozinho, depois da sesta ao pé da árvore, desconfiava um pouco mais do riso da hiena que rondava à procura de uma presa fácil.
    Mas os homens, esses, partiam tão sisudos e estúpidos como tinham vindo, e a sua tagarelice nada lhes tinha ensinado porque não sabiam escutar.
    Eram orgulhosos e arrogantes. Incendiavam a savana com os seus fogos e matavam mais animais do que aqueles que precisavam para se alimentar. Matavam-se até uns aos outros. E chamavam a isso «a guerra». A árvore falava-lhes, como a todos, mas os homens não a escutavam. Por causa deles, a árvore ficou triste. Pela primeira vez, sentiu-se velha e cansada. Se pudesse, ter-se-ia deitado para esquecer. Mas quando se é uma árvore, é preciso ficar de pé a recordar…
    Foi então que as suas folhas amareleceram e secaram e, em breve, ficou nua no meio da savana. Os pássaros começaram a desdenhar dos seus ramos e os leões e as girafas também, porque ela deixou de lhes falar.
    E todos diziam que ela estava morta.

    * * *

    Por muito tempo a árvore seca ficou de pé. E parecia que nada viria alguma vez a mudar… O milhafre da montanha estava contente e as hienas riam-se. A leoa perdeu um leãozinho, a girafa, uma girafinha e a andorinha, três passarinhos que mal sabiam voar.
    Mas, uma manhã, veio um pequeno homem com um ar decidido. Tinha o olhar de uma criança, e esse olhar não reflectia nem fogo nem sangue. As suas mãos não agarravam nem arco nem zagaia. Contudo, era um homem.
    Parou ao pé da árvore seca, estendeu os braços e, com as pontas dos dedos, tocou no tronco, muito devagar, ao de leve, como se acordasse alguém que dorme. A corcha estremeceu. E a voz do pequeno homem subiu ao longo da árvore, terna como um cântico muito antigo. O homem falava à árvore, cheio de simplicidade. Depois, calou-se. E encostando a orelha ao tronco, escutou. O vento nos ramos parecia formar palavras e frases. E quanto mais a árvore falava, mais a expressão do homem se iluminava.
    Quando a árvore terminou, o homem partiu. Quando voltou, trazia um machado aos ombros. Uma vez perto da árvore, levantou a cabeça em direcção aos ramos e murmurou algumas palavras em tom de desculpa. Depois, firme nas suas pernas, com o cabo do machado bem preso nas mãos, começou a cortar o tronco.
    E a madeira ressoou na savana, até aos limites do deserto e das montanhas.
    Cada pássaro, cada leão e cada girafa reconheceram a voz da velha árvore.
    Em conjunto, acorreram para junto dela, mas apenas encontraram um cepo e algumas aparas espalhadas pelo solo.
    É que o pequeno homem, ajudado por alguns da sua aldeia, tinha levado a árvore até casa. E, com medo dos homens, os animais não se atreveram a segui-lo.
    Uma vez chegados à aldeia, o homem pôs-se a trabalhar. Tinha uma grande ideia: para que a voz de madeira da velha sábia percorresse de novo a savana, iria fazer um tantã.
    Um tantã mais sonoro e maior do que qualquer outro. Suficientemente longo para que todos os homens da tribo pudessem tocar em conjunto.
    Como o homem pegava de novo no machado para podar os ramos e deixar, assim, o tronco livre, aqueles que tinham carregado a árvore com ele fizeram -lhe sinal que parasse:
    ― Pequeno homem, nós ajudámos-te ― disseram os homens fortes com as suas vozes grossas. ― O nosso trabalho deve ser pago.
    ― Mas… com que é que vos vou pagar? Eu não tenho nada, bem sabem!
    ― Deixa-te disso! ― insistiram os homens fortes. ― Trouxemos a tua árvore, dá-nos a nossa parte.
    ― Não pode ser ― protestou o homem. ― É preciso que o tronco fique inteiro para este tantã. Se não, como é que a tribo poderá tocar?
    Os homens obstinavam-se a reclamar a sua parte da madeira e o assunto foi levado ao Conselho dos Anciãos.

    * * *

    Era uma assembleia de homens muito velhos e muito tagarelas. Sempre prontos a pronunciar uma sentença ou um julgamento, tanto a propósito do que conheciam como do que ignoravam. Nada lhes agradava mais do que reunirem-se quando lhes pediam um conselho, e também quando não lho pediam! Ora, o Conselho tinha por hábito reunir-se debaixo da grande árvore, e os velhos sentiam-se desamparados… pois a árvore tinha sido cortada! O mais velho dos Anciãos, um pequeno velhinho com a face enrugada como uma ameixa seca, agitou o cachimbo por cima da cabeça e tomou a palavra:
    ― O Conselho não se pode reunir por falta de um lugar adequado.
    E expeliu uma baforada do seu cachimbo.
    Os outros membros do Conselho, sentados em círculo, aprovaram com um movimento de cabeça, expeliram, cada um, uma baforada do seu cachimbo e guardaram silêncio.
    Os homens fortes, que queriam a sua parte da árvore, e o pequeno homem, que nada queria, não sabiam o que fazer.
    Impaciente por começar o trabalho, o homem avançou para dentro do círculo, curvou-se respeitosamente diante do mais velho dos Anciãos:
    ― Digam-me apenas se posso começar o meu trabalho, já que estais aqui reunidos.
    ― Ah, não! É verdade que estamos aqui ― respondeu o Ancião.
    — Mas o Conselho não está reunido. Por isso, não pode dar a sua opinião.
    Expeliu uma outra baforada e calou-se.
    Os homens fortes, impacientes por levar a madeira que lhes cabia, inclinaram-se, por sua vez, diante dos Anciãos e disseram:
    ― Digam-nos apenas se podemos pegar na nossa parte.
    O Ancião nem se deu ao trabalho de responder. Limitou-se a expelir uma baforada do cachimbo e permaneceu em silêncio.
    Mas o mais forte, que também era o mais impaciente, deu um passo em frente.
    De imediato, o velho homem largou o cachimbo e, com uma voz trémula, acrescentou precipitadamente:
    ― O Conselho vai reunir… para decidir onde terá lugar o próximo Conselho.
    O discurso enfadonho que se seguiu poderia ter durado até ao final dos tempos, se o Conselho não tivesse acabado por decidir… que decidiria mais tarde!
    De seguida, os velhos aconselharam o pequeno homem a dar aos homens fortes o que eles pediam. Depois, reclamaram, por sua vez, um pedaço da árvore como recompensa pelo sábio conselho. E o pequeno homem assim o fez porque era costume dar uma prenda aos Anciãos, como agradecimento pelos seus conselhos.
    E cada um se apressou a serrar, a rachar e a atar.
    E o pedaço de árvore não tardou a transformar-se em achas, toros e feixes para queimar. Os homens acendiam fogueiras à volta da aldeia para manter afastados os animais selvagens. Ignoravam que os animais tinham ainda mais medo deles do que das suas fogueiras.

    * * *

    Um pouco desiludido, o pequeno homem reparou na diminuição do tronco, mas disse para si mesmo que, apesar de tudo, ainda chegava para fazer um bom tambor para a tribo.
    Lançou-se ao trabalho, cheio de coragem. O machado, no entanto, não era muito adequado para o descortiçamento, por isso decidiu ir a casa de um vizinho pedir emprestado um podão, cuja lâmina curvada faria melhor o serviço. Como era hábito, o vizinho estava a fazer a sesta e o pequeno homem acordou-o para lhe fazer o pedido.
    ― Ah! És tu? ― disse o vizinho, bocejando como um hipopótamo. ― O que queres de mim?
    ― Se fazes favor, podias emprestar-me o teu podão? ― perguntou muito educadamente o pequeno homem.
    ― Eh! ― respondeu o vizinho, tão amável quanto um crocodilo a quem interromperam a digestão. ― Não me deixas dormir com esse barulho todo… E ainda por cima queres que te empreste o meu podão! E se eu precisar dele?
    ― Mas… é só por um dia! Amanhã já terei acabado!
    ― O que me dás em troca?
    ― Sabes bem que não tenho nada de meu.
    ― Ah não? E essa árvore? É tua, não é?
    ― Sim, mas… ― começou o pequeno homem.
    ― Pois bem, dá-me um pedaço para alimentar a minha fogueira e emprestar-te-ei o meu podão.
    Assim se fez, já que mais ninguém na aldeia tinha a ferramenta de que o pequeno homem precisava.
    Um pouco desiludido, atentou no tronco, agora mais pequeno. No entanto, havia ainda madeira para fazer um tantã para a tribo.
    Lançou-se ao trabalho, cheio de coragem. E o descortiçamento depressa terminou.
    Mas, quando quis cavar o tronco, apercebeu-se de que não tinha cinzel para o fazer.
    De certeza que o vizinho tinha um, mas será que lho emprestaria sem reclamar mais um pedaço da árvore?
    Infelizmente, mais ninguém da aldeia tinha cinzel. E era preciso acordar novamente o hipopótamo, amável como um crocodilo.
    ― Tu, outra vez! ― bocejou o vizinho. ― O que queres?
    ― Desculpa ― disse o pequeno homem com a sua voz gentil. ― Vim devolver-te o podão… e pedir-te, em troca, um cinzel, se fazes o favor.
    ― Em troca? ― zombou o vizinho. ― Não há troca nenhuma porque o podão é meu. Dá-me um pedaço de madeira para a minha fogueira e emprestar-te-ei o meu cinzel.

    * * *

    Assim foi feito. E o pequeno homem, um pouco desiludido, atentou no tronco muito curto. Ainda podia fazer um bonito tantã, não para toda a tribo, mas, mesmo assim, um bonito tantã. Cheio de coragem, meteu mãos à obra e depressa cavou o tronco. Faltava apenas endurecê-lo ao lume, para que fosse mais sólido e para que o seu som chegasse mais longe. Mas o pequeno homem não tinha fogueira e já havia dado tanta madeira aos outros que não possuía o suficiente nem para atear uma fogueira. Claro que a fogueira do vizinho crepitava, um pouco mais longe, mas não ousava acordá-lo pela terceira vez.
    Foi então pedir aos homens fortes, que faziam uma grande fogueira, a permissão de passar o seu tantã pelo fogo.
    ― De acordo, ― disseram eles ― mas com a condição de pores uma acha na nossa fogueira, como todos fazem.
    ― Mas… já não tenho madeira, já vos dei tudo! ― respondeu.
    ― Ah sim? E isto, não é madeira? ― perguntou o mais forte dos homens fortes, indicando o pequeno tantã.
    Com a morte na alma, o pequeno homem teve de se resolver a cortar um pedaço do tantã antes mesmo de lhe ter ouvido a voz.
    E quando pensou naquilo que lhe restava do imenso tronco que a árvore lhe tinha dado, esteve quase para se sentar a chorar e abandonar o seu belo projecto.
    Mas caiu de novo em si e disse para si mesmo que, apesar de tudo, se não chegasse para um tantã, chegaria para fazer um grande tambor.
    Cheio de coragem, meteu mãos à obra e o que restava do tantã foi rapidamente convertido em djembé. (Djembé é o nome que se dá a esta espécie de tambor, em África). Mas o pequeno homem apercebeu-se de que lhe faltava uma pele de cabra para o tambor.
    Partiu então à procura do rebanho de cabras. A rapariga que as guardava era ainda quase uma criança, e o pequeno homem pensou que seria mais fácil falar com ela.
    ― Bom dia ― disse à criança.
    ― Bom dia ― respondeu ela. ― És tu que dás madeira a toda a gente em troca de uma ferramenta ou de lume?
    ― Sim, quer dizer… ― começou ele.
    ― O que queres de mim? ― interrompeu a criança.
    ― Apenas uma pele de cabra, uma daquelas que tens por aí. Mas já não tenho madeira para te dar.
    ― É pena ― disse a rapariga. ― Justamente, também eu necessito de um pouco de madeira. Para afastar os leões do meu rebanho não há nada melhor do que uma boa fogueira, disseram-me os Anciãos.
    ― Oh, por favor, dá-me uma pele. Bem vejo que não te fazem falta ― suplicou o pequeno homem.
    ― Pelo contrário, as minhas peles, troco-as por madeira! ― retorquiu a criança.
    E, como mais ninguém na aldeia tinha peles de cabra, o homem foi obrigado, uma vez mais, a cortar um pedaço do tambor.

    * * *

    A pele de cabra era dura e seca, frágil como uma corcha. Antes de a colocar no tambor, era preciso macerá-la, fervê-la, esticá-la, batê-la para a tornar mais suave e tão sólida como o couro.
    Só faltava levá-la ao curtidor.
    Aquele que curtia todas as peles da tribo morava sozinho fora da aldeia, perto do rio. O seu trabalho requeria muita água. E os outros não teriam querido que ele se instalasse perto, devido ao cheiro insuportável das peles molhadas.
    Mas, por mais longe que o curtidor morasse, também ele tinha ouvido falar da árvore abatida. Por sua vez, reclamou uma parte, como prémio do seu trabalho.
    ― Mas já não há nenhuma árvore! ― lamentou-se o pequeno homem. Ficou apenas um tambor!
    ― De acordo ― concluiu o curtidor. ― Contentar-me-ei com um bocado do tambor.
    E o pequeno homem cortou e deu-lhe a madeira, e a pele foi curtida, seca e ficou pronta a ser colocada no djembé.
    Quando quis esticá-la, deu-se conta de que lhe faltava uma corda para o fazer.
    Foi então à procura daquele que na aldeia melhor sabia entrançar cordas. É que a corda que estica a pele de um djembé tem de ser sólida.
    Tal como os outros, o entrançador de cordas pediu um pouco de madeira. Apesar dos seus protestos e lamentos, o pequeno homem nada conseguiu. E o tambor ficou ainda mais pequeno.
    O pequeno homem regressou a casa perturbado, com a corda ao ombro. Ao ver o tambor tão pequeno, perguntou-se se teria valido a pena o trabalho.
    Depois, recordou a árvore que se erguia no meio da savana. Lembrou-se da promessa que lhe tinha feito e a coragem voltou-lhe. Depressa a pele de cabra foi colocada no djembé, em arco, e muito esticada por uma rede de nós sólidos e complicados.

    * * *

    O homem olhou para o seu djembé, finalmente pronto! Claro que era um djembé muito pequenino, bem diferente daquele tantã que ele quereria ter talhado e no qual toda a tribo teria tocado em conjunto. No entanto, o homem não ficou decepcionado, porque era um belo djembé: esculpido, polido, suficientemente largo para as suas pequenas mãos, e suficientemente grande para lhe caber entre os joelhos. Então, o homem quis experimentá-lo. Com as palmas e os dedos pôs-se a tocar. E a voz que saía deste tambor, tão pequenino que mais parecia um tambor de criança, era ampla e vasta e profunda como a floresta.
    O homem sentiu-se arrebatado e as suas mãos continuaram a tocar… E a voz imponente do pequeno djembé estendeu-se a toda a aldeia e à savana inteira.
    Um por um, todos os da tribo se aproximaram dele. Tinham vindo todos: desde o mais ancião dos Anciãos à pequena guardadora de cabras, do mais forte dos homens fortes ao vizinho crocodilo. Tinham deixado as suas fogueiras, as suas conversas enfadonhas e as suas sestas, para formar um círculo em redor do pequeno tambor. E faziam silêncio.
    Do pequeno djembé elevavam-se palavras e frases que diziam toda a savana: o medo da zebra que foge à azagaia do caçador ávido, o sofrimento da erva que curva perante a chama acesa pelo homem, a doçura do vento que murmura nos ramos da árvore… E os homens escutavam. Eles, que só pensavam na caça, na guerra e nas fogueiras, faziam silêncio.
    Assim, até aos limites da montanha e do deserto, cada pássaro, cada leão e cada girafa reconheceram a voz da velha árvore. E, graças às mãos do pequeno homem, todos partilharam de novo o seu saber, por muito tempo ainda. Porque, ao som do djembé, o cepo da antiga árvore germinou. Do jovem rebento brotou uma nova árvore.
    E, sob a sua corcha de árvore, corria a seiva da sabedoria de África.
    A seus pés, por entre as ervas altas, a leoa espiava o antílope ou a zebra que se tinham afastado do grupo. Os pássaros, que se empoleiravam nos ramos mais altos, conheciam-na bem. E as girafas, que comiam as folhas dos ramos do meio, e os leões, que se estendiam sob os ramos baixos para fazerem a sesta.
    Até os homens…

    Do Spillers
    L’arbre qui parle
    Toulouse, Milan Poche, 1999
    Tradução e adaptação

    Retirado de Verticalizar

    A Árvore

    Era uma vez – em tempos muito antigos, no arquipélago do Japão – uma árvore enorme que crescia numa ilha muito pequenina.
    Os japoneses têm um grande amor e um grande respeito pela Natureza e tratam todas as árvores, flores, arbustos e musgos com o maior cuidado e com um constante carinho.
    Assim, o povo dessa ilha sentia-se feliz e orgulhoso por possuir uma árvore tão grande e tão bela: é que em nenhuma outra ilha do Japão, nem nas maiores, existia outra árvore igual. Até os viajantes que por ali passavam diziam que mesmo na Coreia e na China nunca tinham visto uma árvore tão alta, com a copa tão frondosa e bem formada.
    E, nas tardes de Verão, as pessoas vinham sentar-se debaixo da larga sombra e admiravam a grossura rugosa e bela do tronco, maravilhavam-se com a leve frescura da sombra, o suspirar da brisa entre as folhagens perfumadas.
    Assim foi durante várias gerações.
    Mas, com o passar do tempo, surgiu um problema terrível, e por mais que todos meditassem e discutissem, ninguém era capaz de arranjar uma boa solução.
    Porque, ao longo dos anos, a árvore tinha crescido tanto, os seus ramos tinham-se tornado tão compridos, a sua folhagem tão espessa e a sua copa tão larga que, durante o dia, metade da ilha ficava sempre à sombra.
    De maneira que metade das casas, das ruas, das hortas e dos jardins nunca apanhava sol.
    E, na metade ensombrada, as casas estavam a ficar húmidas, as ruas tinham-se tornado tristes, as hortas já não davam legumes, os jardins já não davam flor. E a gente que ali morava andava sempre pálida e constipada.
    E, à medida que a sombra da árvore crescia, crescia também a perturbação.
    As pessoas gemiam:
    — Que havemos de fazer? Que havemos de fazer?

    * * *

    Até que foi decidido a população reunir-se toda em conselho para examinar bem o problema e decidir o remédio que devia dar-lhe.
    Discutiram durante muitos dias e, depois de todos terem falado, chegou-se à triste conclusão de que era preciso cortar a árvore.
    Houve choros, lamentações, gemidos.
    A árvore era bela, antiga e venerável. Fazê-la desaparecer era um acto que não só entristecia os habitantes da ilha mas que também os assustava.
    Mas não havia outro remédio e quase todos acabaram por concordar com o corte.
    No lugar onde antes ela se erguia, plantaram um pequeno bosque de cerejeiras, pois as cerejeiras nunca crescem muito.

    * * *

    Abater a árvore foi difícil e toda a gente teve de ajudar.
    Mas, depois de cortada, ela ocupava tanto espaço que a ilha ficou quase sem lugar para mais nada. Por isso começaram a desfazê-la: primeiro cortaram os ramos e as pernadas e a sua madeira foi distribuída entre todos, para que cada um pudesse fabricar alguma coisa que lhe lembrasse a árvore tão amada.
    Alguns fabricaram pequenas mesas, outros, varandas para as suas casas, outros, caixilhos para os biombos, outros, caixas, tabuleiros, tigelas, colheres, pentes e ganchos para as mulheres espetarem no cabelo.
    No fim ficou só o enorme e grosso tronco nu, deitado através da ilha.
    Então começaram a chegar viajantes e armadores que queriam aquela óptima madeira para fabricar barcos.
    Mas a população não quis. Reuniram todos outra vez em conselho e decretaram:
    — Os habitantes desta ilha não querem separar-se da sua árvore que, antes de crescer demais, lhes deu tanta alegria. Vamos nós próprios construir o nosso barco.
    E assim foi. Depois da chuva do Outono, deixaram o tronco secar durante longos meses e, logo que viram que a madeira já estava bem seca, meteram mãos à obra.
    E, como são um povo muito inteligente, os japoneses, que trabalham muito bem, muito depressa, com muito esmero e são óptimos carpinteiros, construíram rapidamente uma grande e linda barca toda esculpida e pintada de muitas cores.
    Então houve uma grande festa e a barca foi lançada ao mar.
    À noite houve fogo de vista e em todas as ruas e praças se acenderam balões de papel, azuis, amarelos e vermelhos.

    * * *

    Assim, durante muitos anos, a vida naquela ilha correu com muita alegria e animação.
    Mas apesar dessa alegria, apesar dos bons negócios e dos grandes passeios, todos se lembravam com saudade da velha árvore.
    — Como era alta e bela! — diziam.
    — Como a sua sombra era perfumada!
    — Como era doce e leve o sussurrar da brisa nas suas folhas!
    — Como a sua copa era redonda e bem formada!
    — Como as suas folhas eram verdes e bem desenhadas!
    — Como era tão suave a frescura debaixo dos seus ramos, nas manhãs de Verão!
    E, assim, entre palavras e pensamentos, a árvore nunca era esquecida.

    * * *

    E os anos foram passando.
    Até que os marinheiros e os calafates descobriram que estava a acontecer uma grande desgraça:
    A madeira da quilha da grande barca tinha começado a apodrecer.
    — Ai de nós! — choravam os habitantes. — Não vamos dar mais passeios pelo mar. Nas noites de lua cheia, não vamos visitar mais as outras ilhas, não vamos fazer mais negócios.
    Mas os comerciantes sossegaram-nos.
    — Durante estes anos — disseram eles — graças à nossa grande barca, andámos a navegar de ilha em ilha, de porto em porto, a comprar e a vender, e fizemos negócios tão bons que juntamos muito dinheiro. Por isso, como aqui não há outra árvore enorme, e as árvores que agora temos fazem muita falta se forem cortadas, estamos dispostos a ir às outras ilhas comprar boa madeira. E todos juntos podemos construir outra grande barca.
    A população aplaudiu o discurso e concordou com o projecto e daí a poucos meses a barca nova ficou pronta e logo a puseram a flutuar.
    Então, a barca velha foi arrastada para a praia. O povo cercou-a em silêncio com grande tristeza, e os carpinteiros e os calafates examinaram-na tábua por tábua.
    A madeira do casco, do convés e dos bancos estava quase toda semi-apodrecida e só servia para queimar. Mas o mastro grande, que tinha sido tirado do cerne da velha árvore, continuava são e bem conservado.
    — Temos que fazer com este mastro alguma coisa que nos lembre a nossa árvore antiga e a nossa barca — disse o chefe da ilha.
    Depois de muito pensar resolveram fazer uma biwa, que é uma espécie de guitarra japonesa.
    Quando a obra ficou pronta, a população reuniu-se na praça principal e sentaram-se em silêncio em redor do melhor músico da ilha para ouvirem o som da biwa.
    Mas, mal os dedos do músico fizeram soar as cordas, de dentro da biwa ergueu-se uma voz que cantou:

    A árvore antiga
    Que cantou na brisa
    Tornou-se cantiga

    Então, todos compreenderam que a memória da árvore nunca mais se perderia, nunca mais deixaria de os proteger, porque os poemas passam de geração em geração e são fiéis ao seu povo.

    Sophia de Mello Breyner Andresen
    A Árvore
    Porto, Liv. Figueirinhas, 1987
    texto adaptado

    A Voz da Terra

    Um rei que vivia solitário, certo dia, lembrou-se de mandar construir um palácio que fosse uma grande maravilha. E para que essa construção ficasse de facto grandiosa, pensou que só poderia erguê-la sobre uma alta coluna cujo alicerce infinitamente forte pudesse, em verdade, sustê-la. Chamando o seu íntimo ajudante, deu-lhe esta ordem:

    — Desejo que mandes alguns homens a todas as florestas e bosques do universo a fim de encontrarem a árvore mais ampla e mais alta que houver debaixo do sol. Não te surpreendas, vai.

    E trinta rachadores de madeira partiram à procura da árvore gigantesca. Semanas depois, regressaram:

    — Encontramos a árvore, mas é impossível transportá-la.

    — Levem cavalos para a trazer! – exclamou o rei.

    — Não poderiam com ela.

    — Algumas centenas de bois?

    — Não poderiam com ela.

    — Todos os meus elefantes?

    — Também não será bastante.

    — Pois seja como for; dentro de um prazo de oito dias, quero a árvore aqui! – disse, por fim, com azedume.

    E os trinta leais servidores, de cabeça baixa, e em silêncio, partiram para a floresta. Porém uma outra árvore surgiu ainda mais bela. Era uma árvore venerada por todos os habitantes desse pequeno lugar e arredores, porque viviam na ilusão – ou na certeza! – de que um deus nela habitava e que a essa presença divina é que a árvore devia a sua exuberante formosura e o seu aspecto tão alto, tão forte, maravilhoso! Entretanto, o rei ordenou que a derrubassem porque só ela poderia ser a coluna do seu desejado palácio. Descantes e danças, abraços e beijos, à roda do velho tronco, misturavam-se na voz de alguém que a cantar dizia:

    Deus, oculto e generoso,
    Procura outra morada,
    Que esta árvore frondosa,
    À ordem de El-rei senhor,
    Vai, por nós, ser derrubada.

    A folhagem estremeceu; as ramarias mais altas inclinaram-se, chorosas, e um vago lamento se ouviu:

    — Se o vosso rei teimar nesse propósito, todas estas árvores de fruto e todas estas plantações que crescem à minha volta ficarão também destruídas. Digam, pois, ao vosso rei, que esse desejo é cruel. Contudo, se ele teimar, humildemente me entrego…

    Nessa noite, enquanto o soberano dormia, o Deus da árvore venerada apareceu-lhe e ao ouvido assim falou tristemente:

    — Sei eu que mandaste derrubar a árvore maior e mais alta da floresta. Venho pedir-te que não pratiques esse monstruoso crime.

    — Mas onde vou eu encontrar a coluna para o palácio que quero mandar construir?

    — Raciocina, Rei sabedor: durante quatro mil anos recebi a adoração de todos os habitantes destas povoações vizinhas e, em troca, só benefícios saíram das minhas mãos. As aves adormecem, cantam e vivem nos meus ramos. Espalho sombra e bem-estar ao caminhante fatigado pelas ardências solares. Estão comigo a paz e o bem.

    — É verdade quanto dizes, ó alma dessa árvore formosa. Mas mantenho o que desejo.
    — Está bem; não devo contrariar-te. Só uma coisa ainda te peço. Manda-a cortar por três vezes. Primeiro, a cabeça coroada de folhagem verde; depois, o tronco com os seus braços abertos ao amor e ao infortúnio; e, por fim, as raízes que são tantas e tão profundas que hão-de abalar a terra inteira.

    — O que me pedes surpreende-me pela originalidade. Até hoje ninguém me pediu que lhe tirasse a vida por três vezes! Porque não queres suportar a morte num golpe certeiro?

    — Eu te respondo, rei inteligente: à volta de mim cresce e vive a minha família. Variadíssimas árvores prosperam à minha sombra generosa. Se eu tombar de um arranco, o meu corpo pesado e enorme, vai, certamente, mutilar essas vidas florescentes; mas, se cair por três vezes e em três bocados, será mais suave o desastre, por elas e não por mim!

    No dia seguinte a ordem do rei era esta:

    — Não quero que derrubem essa árvore! Nela mora um espírito de tanta beleza moral que é necessário respeitar e ouvir. As árvores são sagradas. Para edificar a minha casa outra coluna se arranjará; talvez de bronze ou de prata, ou, talvez, unicamente deste infeliz coração que bate aqui no meu peito.

    Os Contos de António Botto
    Marginália Editora, s/d

    Retirado de Verticalizar

    Na Rua do Ferro-Velho, em frente ao lar da Terceira Idade onde vivia a minha mãe, existia, por detrás de um muro coberto de telhas e com uma porta de grade, um pequeno jardim aberto aos moradores do lar e aos transeuntes que quisessem descansar num dos bancos lá existentes. O jardim era um triângulo delimitado por dois altos muros corta-fogo, enquanto o lado mais pequeno dava para a rua.

    Pelas paredes não rebocadas trepava hera até ao segundo andar, tentando esconder o castanho-ferrugem dos tijolos gastos pelo tempo. Encostados às paredes havia alguns bancos, de onde se podia olhar para o centro do jardinzinho triangular, que só à tarde recebia a luz quente do sol, e ainda assim por pouco tempo. De resto, ficava mergulhado numa sombra melancólica.

    Pela sua forma, o terreno não servia para construção, por isso o proprietário oferecera-o à casa Edmund-Hilvert, para que os seus moradores pudessem usá-lo como uma espécie de oásis no meio do deserto de pedra. A minha mãe usufruía do pequeno jardim. Depois do almoço, saía pela porta das traseiras, passava pelos contentores do lixo, atravessava a rua, abria a portinhola de grade e entrava no jardim, para se sentar num dos bancos pintados de branco virados para a parede com hera, ficando com o relvado à sua frente e, no meio deste, um pequeno ácer que lutava pela vida.

    Ou porque a camada de húmus era muito fina, ou porque o terreno estava cheio de entulho, de pedras, de argamassa, de calcário e de cimento, ainda do tempo da guerra — talvez até venenos — ou mesmo por falta de sol, a pequena árvore era raquítica, miserável, com os seus frágeis ramos tristemente erguidos para a luz, como numa prece nunca atendida.

    As folhas estioladas, sempre cobertas de pó, pendiam da arvorezinha: era como se ela não conseguisse respirar, ou melhor, sofresse de asma e respirasse com dificuldade.

    A pequena árvore bem poderia ter feito parte do cenário da peça “Godot” de Beckett. (À espera de Godot, peça do escritor irlandês Samuel Beckett). Era um cadáver vivo marcado pelo hálito da morte. E, ao mesmo tempo, na sua derradeira essência, representava a árvore como ser. Assim era e assim queria ficar.

    Quando ia ao jardinzinho, minha mãe levava sempre um pequeno regador de plástico cor-de-laranja. Enchia de água o regador, com o qual, aliás, costumava regar as flores do peitoril da janela, e dava água à arvorezinha, a pouca que o regador podia levar e que ela conseguia transportar. Sentava-se então em frente da pequena árvore e ficava a vê-la agitar-se. Sim, porque ela mexia-se quando o vento passava e a bafejava; o vento que era capaz de dar vida, de a tirar e de a voltar a dar. E eu tenho a certeza de que, de algures, vinha até nós o chamamento de um melro. Ou ouvia-se o saltitar de um pássaro, de um pássaro qualquer, ali entre as paredes, de manhã cedo, pelo nascer do sol, e à noitinha, ao pôr-do-sol; e a minha mãe ouvia o chamar do pássaro, assim como percebia a muda agitação da pequena árvore. E mesmo que a não abraçasse nem falasse com ela, tinha na pequena árvore um vizinho e um alimento para os olhos, que, de outro modo, estariam cegos e vazios.

    A arvorezinha erguia-se ali em representação de todas as árvores que alguma vez, ali ou noutros lugares, se ergueram, cresceram e definharam, e das que naquele momento cresciam noutro lugar. Árvores que, dali em diante, viveriam e morreriam como os homens e os animais e tudo o que, tendo vida e querendo viver, estava já talhado para a morte.

    Eu encontrava-me sentado ao lado de minha mãe, que tinha ido visitar. Ela regara a arvorezinha, como fazia todos os dias, e estava agora com o regador cor-de-laranja vazio ao colo a dizer-me que todos os dias fazia aquilo.

    — Espera só mais um bocadinho! — dissera-me quando ainda estávamos no lar. — Primeiro tenho de encher o regador.

    De início, eu não percebia porque levava o regador, mas agora sabia-o.

    — Sempre foste adoentado — disse minha mãe. — Já em criança. Adoecias muitas vezes.

    Olhei para a arvorezinha. Era tão pequena, que tive a impressão de estar a olhá-la de cima para baixo. Encontrava-me sentado ao lado de minha mãe, que sabia que a sua vida se aproximava do fim e que, mesmo assim, se preocupava com aqueles que viviam. E eu sabia que, fizesse eu o que fizesse, nunca iria ser capaz de fazer nada melhor do que aquilo.

    Theodor Weissenborn

    SOS-Kinderdorf Caderno Anual, 1996
    Texto traduzido e adaptado

    No início do mundo, o Grande Criador plantou um jardim.

    Inúmeras plantas formosas cresciam em cada um dos seus diferentes campos.

    Havia jardins de florestas, completamente cobertos de musgo verde e campainhas ondulantes, que acenavam timidamente ao vento. Pequenos seres povoavam estes jardins, farejando e sussurrando a toda a hora.

    Havia jardins de pradarias cheios de ervas oscilantes, que os animais percorriam com passadas graciosas.

    Havia também jardins subaquáticos, para os seres do mar profundo. Tinham folhas roçagantes, arrastadas pelas correntes, e misteriosas flores de pétalas trémulas.

    Os mais belos de todos eram os jardins de árvores. Eram tão altas que tocavam o céu. Nessas árvores, os pássaros todos faziam os seus ninhos. Os ramos, cheios de folhas, enchiam-se de trilos e chilreios, de gorjeios e assobios, de melodias trinadas, que caíam em sonora cascata para deleite do mundo.

    O Grande Criador pediu aos homens que tomassem conta do mundo e construíssem para si próprios casas simples e seguras, num dos jardins de que gostassem.

    Mas o tempo foi passando e as pessoas tornaram-se cada vez mais ambiciosas…

    — Vamos construir CASAS MAIORES! — disseram.

    — Há materiais de construção em abundância para usarmos como quisermos.

    Em breve começaram a construir palácios.

    Cada novo edifício era mais alto do que o anterior e os palácios eram feitos cada vez com mais magnificência.

    As suas salas às centenas estavam cheias de todo o tipo de luxos… mas a ambição das pessoas não conhecia limites.

    Os jardins do mundo foram caindo em ruínas, cada um deles imagem da mais desoladora devastação.

    Todas as árvores tinham sido abatidas.

    Os pássaros agitavam-se tristemente no chão frio, tentando, com desespero, construir novos ninhos.

    As suas canções foram silenciadas.

    Então, do alto do seu palácio, uma criança olhou para o mundo devastado e chorou.

    — Desce à terra — sussurrou-lhe, por entre o vento, a voz do Criador. — Lá encontrarás uma semente, que deves semear num local onde possa crescer em segurança.

    A correr, a criança desceu as escadas em caracol da torre do palácio.

    Pousada na terra, estava uma semente castanha, enrugada, feia.

    A criança pegou na semente com delicadeza.

    — Onde poderei semeá-la em segurança? — perguntou-se.

    Foi caminhando, caminhando, até que chegou a uma vala na qual uma lama escura corria lentamente e alguns juncos baloiçavam no vento frio.

    — Coloca-a aqui, onde nunca ninguém vem! — parecia sussurrar o vento.

    E foi ali que a menina enterrou a semente.

    Devagar, em silêncio e completamente invisível, a semente começou a germinar.

    Cresceu e fez-se uma árvore forte. Sob os seus ramos, outros jardins começaram a florescer. Em breve, as criaturas reuniram-se à sua volta.

    A árvore cresceu mais alto do que todos os palácios. Os pássaros voavam por entre os seus ramos e aí construíam os ninhos.

    Cresceu tanto, que chegou ao Paraíso. E quem assim o desejasse, poderia subir pelos seus ramos até ao Jardim do Paraíso do Grande Criador.

    Tradução e adaptação

    Mary Joslin
    The tale of the heaven tree
    Oxford, Lion Publishing, 2001
    tradução e adaptação

    Retirado de Verticalizar

    Nas traseiras do jardim, havia um grande buraco. Era tão redondo e fundo, que até podia lá tomar banho um elefante pequenino. Isto foi o avô que contou a Oliver, se não, ele não teria sabido. Estava cheio de entulho e garrafas vazias, de latas e de toda a espécie de coisas velhas.

    Oliver estava sempre a pensar no buraco onde um elefante pequenino podia tomar banho, e sentava-se muitas vezes no jardim a olhar para o entulho.

    — Eu queria ver o buraco — disse um dia Oliver ao avô. — Vamos tornar a abri-lo.

    O avô ficou pensativo.

    — Foi uma bomba que o fez. Era um buraco horrível — disse ele. — O melhor é deixá-lo tapado.

    Mas, no dia em que uma pequena retro-escavadora amarela se encontrava no jardim do vizinho a abrir o buraco para a piscina, o avô dirigiu-se ao vizinho. Em breve, a retro-escavadora amarela estava junto do entulho no fundo do jardim e voltava a abrir o buraco.

    — Também vamos ter uma piscina? — perguntou Oliver. Não falou no elefante. Bem sabia que não era fácil arranjar um elefante pequenino.

    — Vamos arranjar outra coisa. — disse o avô.

    — O quê? — perguntou o Oliver.

    — Tens de ter paciência — disse o avô. — Já vais ver.

    Durante algum tempo, Oliver divertiu-se a subir e a descer o buraco. Umas vezes, encontrava um pedaço de vidro ou um parafuso, outras, a perna de uma cadeira. Depois, só ficaram pedras e terra, uma raiz aqui e ali.

    Então, um dia começou a chover, e o buraco ficou molhado. Choveu durante muito tempo e no fundo do buraco formou-se uma poça.

    — Ainda é pouco — disse Oliver. — Para já, ele não consegue nadar aqui dentro.

    — Quem? — perguntou o avô.

    — O elefantezinho.

    Ao fim de alguns dias de sol, a poça tinha desaparecido.

    — Não podemos enchê-la com a mangueira do jardim? — perguntou Oliver.

    — Poder, podemos — disse o avô. — Mas é melhor ter-mos paciência. A paciência faz nascer rosas.

    No Outono choveu ainda mais e, no fundo do buraco, voltou a formar-se a pocinha, que se conservou.

    — A terra é de lama — explicou o avô. — Por isso, a água não escoa tão facilmente.

    O vento atirou folhas para a poça, que cobriram a água. Oliver reparou nisso quando desceu ao buraco e depois subiu com os sapatos cheios de água.

    — Não incomodes o nosso lago — disse o avô.

    — Isto vai ser o nosso lago?

    — Possivelmente…

    Nevou e o buraco ficou coberto de neve. No começo da Primavera, já havia mais água no lago. E para que não voltasse a secar tão depressa, o avô dava de vez em quando uma ajuda com a mangueira. O lago agradeceu. Ainda estava pequeno, mas aguentou.

    Não era lá muito bonito. Mais parecia uma grande poça suja. A piscina azul cristalina do vizinho sorria, ao lado. O lago de Oliver era escuro e começava a cheirar horrivelmente. No cimo, boiavam folhas meio apodrecidas e pequenas algas escuras.

    — Que nojo! — disse Oliver.

    — A paciência traz rosas — disse o avô.

    Um dia, este apanhou Oliver a limpar o lago. Oli-
    ver remexia na lama e atirava folhas apodrecidas e algas para a margem.

    — Estás a estragar o nosso lago! — disse o avô. — Há seres pequeninos que vivem nas algas e eles têm de lá estar, se não, o nosso lago nunca será um lago a sério!

    Oliver voltou a deitar a lama lá para dentro.

    O lago foi envelhecendo e tornou-se maior. Já não cheirava tão mal. Nas margens nasceram juncos e algumas canas, e toda a espécie de ervas de cheiro e de outras ervas cujas sementes o vento tinha trazido. Também cresceram plantas aquáticas que mantinham a água limpa. Um dia, apareceu uma libelinha e, logo depois, uma segunda. Agora, o lago já estava tão grande que um elefante poderia lá tomar banho. Mas isso era uma coisa que Oliver já não desejava.

    — Um elefante ia espantar as libelinhas — disse. — Mas podia aparecer uma rã…

    O vizinho olhava por cima da cerca e dizia:

    — Isso está a tornar-se um pequeno paraíso. Quem diria! Mas, se queres rãs, tens de apanhar girinos e deitá-los aí dentro. Os girinos transformam–se em rãs.

    Oliver e o avô foram apanhar girinos. Deitaram-nos no lago, e apareceram rãs. Mas, um dia, as rãs foram embora.

    — Já tinha pensado nisso — disse o avô. — Quando querem pôr os ovos, as rãs regressam ao local onde nasceram. E até chegarem ao próximo lago, estas ainda vão ter de saltar por algumas estradas de asfalto. Espero que nenhum carro lhes passe por cima.

    As rãs não voltaram. Oliver chorou.

    — Se calhar ficaram em casa, no seu antigo lago.

    — Esperemos que tenha sido isso — disse o avô.

    Certo dia, veio um pato bravo pelo ar e descansou no lago do jardim. Já era um lago a sério, com plantas aquáticas e junco, algumas aranhas aquáticas e toda a espécie de bichos. E também havia borboletas. Oliver deu de comer ao pato, mas, passados alguns dias, ele partiu.

    — Se estivermos com sorte, ainda vamos ter rãs no nosso lago — disse o avô.

    E tiveram sorte! O pato trouxera, de um outro lago, ovos de rã nas penas, e as rãzinhas saíam agora dos ovos, no lago de Oliver, que se tornou o seu lago “natal”, uma vez que fora ali que tinham nascido. Nunca mais voltaram a ir embora e coaxavam alegremente.

    — A paciência traz rosas — disse o avô.

    — A paciência traz rãs — disse Oliver.

    Friedl Hofbauer

    Lene Mayer-Skumanz (org.)
    Hoffentlich bald
    Wien, Herder Verlag, 1986
    Tradução e adaptação

    Eram dunas e dunas, a perder de vista. Montes de areia para o vento brincar…

    Hoje, fazia uma duna maior aqui, amanhã apagava-a, para fazê-la mais além e, sempre segundo os seus caprichos, onde estavam montes, cavava vales, onde estavam vales, amoldava montes. O vento era uma vassoura enorme.

    Cabeleiras dóceis de ervinhas rasteiras deixavam-se pentear, despentear, ao sabor do vento gigante. Ele é que mandava.

    Uma delas, à beira de um tojo só picos, cresceu.

    Delgadinha que era arriscou-se à vida. Rompera a areia e apontava para cima. Ela lá sabia.

    De dentes a ranger, o vento passou. Partiu-se o tronquinho? Não se partiu. Fincava as raízes, segurava-se com toda a força e, quando o vento descia, inclinava-se à vontade dele. Tinha de ser assim.

    Lá se foi aguentando. O vento, a princípio, nem dava por ela. Era uma erva como as outras. Senhor daquelas dunas, o que ele queria era disciplina, ordem, submissão. A erva, que erva afinal não era, submetia-se. Óptimo.

    Foi crescendo e o vento sem dar por ela. Era um tronco já, uma arvorezinha de Natal para casa de bonecas. Outras ervinhas como, dantes, ela tinha sido, despontavam também, na mesma duna.

    Ali havia uma pequena nação de pinheiros novos. A ordem era: persistir. Por enquanto, persistir. Resistir, seria para depois. E foram vingando.

    Quando o vento deu por eles, teve uma grande cólera e soprou, dias a fio, sobre a duna, donde nascia, miudamente, frágil ainda, um sinal de rebeldia ao seu poder. Nada conseguiu. Os pinheiros sabiam que eram pinheiros.

    Tinham raça e coragem para fazer frente ao vento.

    Uns e outros, os maiores e os mais pequenos, começaram a olhar para a sombra.

    Alastravam para outras dunas. Guerreiros chamavam por outros guerreiros e desafiavam o vento. “Nada podes contra nós”, gritavam-lhe.

    O maior, o chefe, o mais velho, que da erva se fez tronco, do tronco se fez árvore, comandava a defesa e dizia aos mais novos, nas alturas em que o vento lhes fazia ranger os ramos: “Aguentem, que já passámos por pior”.

    Eles aguentavam.

    E foi assim que o vento, o gigante caprichoso que dantes arrasava dunas, teve de deixar de fazer castelos na areia.

    António Torrado

    adaptado de: www.historiadodia.pt

    Pequena Árvore

    Pequena Árvore era metade branco, metade índio Cherokee. Quando tinha cinco anos, os seus pais morreram e ele foi viver com os avós Cherokee nas montanhas do Tennessee. Isto é o relato de um dia da sua vida, durante o primeiro ano que passou com os avós.

    O Caminho

    Enquanto os bocados de pinheiro ardiam na lareira, a avó passou as noites de uma semana inteira a fazer os mocassins, sentada na cadeira de baloiço que rangia com o seu peso leve, à medida que trabalhava e trauteava. Tinha cortado a pele do veado com uma faca e feito as tiras, que coseu em torno da sola. Quando terminou, mergulhou-os em água e eu calcei-os molhados. Andei com eles, para trás e para a frente, até ficarem secos, macios e à minha medida, leves como uma pena.

    Esta manhã, calcei–os em último lugar, depois de ter vestido o macacão e apertado o casaco. Estava escuro e frio. Era até demasiado cedo para que a brisa do vento matinal agitasse as árvores.

    O avô tinha dito que eu podia ir com ele percorrer o trilho mais alto, se me levantasse a tempo. Ele não me acordaria.

    ― Um homem levanta-se de manhã cedo, se realmente tiver vontade ― dissera-me ele sem sorrir. Mas o avô tinha feito muito barulho a acordar, batendo na parede do meu quarto e falando alto com a avó, o que não era habitual.

    Por isso, eu ouvira-o e saíra primeiro, ficando à espera na escuridão, com os cães de caça.

    ― Com que então, já a pé?

    O avô parecia surpreendido.

    ― Sim, avô ― disse, mantendo o orgulho longe da minha voz.

    O avô apontou para os cães que saltavam e cabriolavam à nossa volta.

    ― Vocês ficam ― ordenou. Eles encolheram as caudas, ganiram, imploraram, e a velha Maud desatou a uivar. Mas não vieram atrás de nós. Ficaram juntos, com um olhar perdido, a verem-nos afastar.

    Já tinha estado no trilho mais baixo, que serpenteava ao longo do vale até chegar ao prado onde o avô tinha o celeiro e guardava a mula e a vaca. Mas este era o trilho mais alto, que se dirigia para a montanha, sempre a subir a encosta do vale. Eu caminhava apressadamente atrás do avô, e podia sentir o declive do carreiro.

    Também sentia algo mais, tal como a avó dissera. Mon-o-lah, a Mãe-Terra, vinha até mim através dos meus mocassins. Sentia-a ora a empurrar e a dilatar, ora a vacilar e a entregar-se. Sentia as raízes, que eram as veias do seu corpo, e a vida da água, que era o sangue que a percorria. Era quente, cheia de água borbulhante, e embalava-me no seu seio, tal como a avó dissera que faria.

    O ar frio transformava a minha respiração em nuvens e o barulho da cascata fazia-se ouvir bastante abaixo do ponto em que nos encontrávamos. Nos ramos desnudos das árvores, pingava água dos bicos de gelo rendilhados e, à medida que subíamos, via-se geada no carreiro. Uma luz cinzenta aliviava a escuridão.

    O avô parou e apontou para o lado.

    ― Lá está o rasto de um peru, vês?

    Pus-me de joelhos e de mãos no chão, e vi o rasto de pequenas impressões concêntricas.

    ― Agora ― disse o avô ― vamos montar a armadilha.

    Tentou encontrar um solo fácil de escavar. Limpámo-lo: primeiro tirámos as folhas e depois escavámos para tirar a sujidade, que espalhámos pelas folhas. Quando o buraco ficou profundo a ponto de eu não conseguir ver para fora, o avô tirou-me de lá e colocámos ramos de árvores a cobri-lo. Em cima daqueles, pusemos montanhas de folhas. Foi então que, com a faca grande, o avô cavou um caminho que ia do buraco às pegadas do peru. Pegou nas sementes de milho–índio vermelho que trazia no bolso e espalhou-as pelo trilho, deitando uma mão-cheia no buraco.

    ― Agora podemos ir ― disse. Partimos de novo rumo ao trilho mais alto. O gelo, que brotava da terra, estalava debaixo dos nossos pés. A montanha do outro lado aproximava-se, à medida que o buraco lá em baixo se tornava uma fenda estreita, fazendo a nascente parecer o gume de uma faca de aço que tivesse sido mergulhada no fundo…

    Sentámo-nos nas folhas, fora do carreiro, enquanto os primeiros raios de sol tocavam o cume da montanha do outro lado do estreito. O avô tirou do bolso uma bolacha ressequida e um pouco de carne de veado para mim, e observámos a montanha enquanto comíamos.

    O Sol atingiu o cume como uma explosão, num chuveiro de faíscas e centelhas. O brilho do gelo nas árvores feria-nos os olhos e descia a montanha como uma onda, enquanto o Sol afastava cada vez mais a sombra da noite.

    Um corvo, qual mensageiro, emitiu três avisos para anunciar a nossa presença.

    A montanha estalava e suspirava agora, expelindo baforadas de vapor para o ar. Silvava e murmurava à medida que o Sol libertava as árvores da sua mortífera armadura de gelo.

    O avô observava, tal como eu, e escutava os sons que cresciam com o vento da manhã, que fazia as árvores assobiarem baixinho.

    ― Está a nascer ― disse, baixinho e suavemente, sem tirar os olhos da montanha.

    ― Sim, avô ― disse eu ― está a nascer.

    E soube logo ali que o avô e eu tínhamos uma cumplicidade que a maioria das pessoas não conhecia.

    A sombra da noite foi-se afastando para o outro lado de um prado cheio de erva que resplandecia, banhado pelo Sol. O avô fez-me reparar numa codorniz que esvoaçava e saltitava na erva, alimentando-se das sementes.

    Depois, apontou para o céu azul gelado.

    Não havia nuvens mas, de início, não me apercebi da mancha que surgiu na borda da montanha. Tornou-se maior. De frente para o Sol, para que a sombra não o precedesse, o pássaro apressou-se a descer a montanha, qual esquiador a roçar o topo das árvores. Vinha com as asas meio fechadas… como uma bala castanha… cada vez mais depressa em direcção à codorniz.

    O avô sorriu entre dentes.

    ― É o velho Tal-con, o falcão.

    A codorniz apressou-se a correr para as árvores ― mas foi lenta demais. O falcão atingiu-a. Primeiro, voaram penas, depois, as aves caíram por terra. A cabeça do falcão subia e descia ao ritmo das suas bicadas mortíferas. De repente, surgiu com a codorniz morta nas garras, partindo em direcção à montanha.

    Não chorei, mas sei que devia estar triste, porque o avô disse:

    ― Não fiques triste, Pequena Árvore. É o Caminho. Tal-con apanhou a mais lenta e, por isso, a mais lenta não terá filhos que sejam também lentos. Tal-con vive segundo o Caminho. Está a ajudar a codorniz.

    O avô desenterrou com a faca uma raiz-doce do solo e descascou-a, para que o seu sumo pleno de vida escorresse. Cortou-a a meio e deu-me a parte maior.

    ― É o Caminho ― disse suavemente. ― Tira apenas aquilo de que precisares. Quando matares o veado, não mates os melhores. Leva apenas os mais pequenos e mais lentos e, assim, os veados crescerão mais fortes e dar-te-ão sempre carne. Pa-koh, a pantera, sabe isto e tu também deves saber.

    E riu-se.

    ― Só Ti-bi, a abelha, armazena mais do que precisa… e, por isso, o urso rouba-a, e o Cherokee também. É o que acontece aos que armazenam mais do que lhes é devido. Ser-lhes-á tirado. E haverá guerras por causa disso… e terão longas conversações, tentando ficar com mais do que lhes cabe. Dirão que têm o direito de o fazer… e morrerão homens por causa das palavras e das bandeiras … mas não conseguirão mudar as leis do Caminho.

    Voltámos pelo carreiro. O Sol ia alto quando chegámos à armadilha dos perus. Podíamos ouvi-los antes de lá chegar. Lá estavam, comendo avidamente e emitindo sinais de alarme.

    ― A porta não tem fechadura, avô. Porque é que não baixam as cabeças e saem dali?

    O avô esticou o braço para o buraco e tirou de lá um peru grande a grasnar, amarrou-lhe as pernas com uma tira de couro e sorriu abertamente:

    ― O velho Tel-qui é como algumas pessoas. Como acha que sabe tudo, nunca se dá ao trabalho de olhar para baixo para ver o que está à volta dele. Tem a cabeça demasiado empinada para aprender seja o que for…

    O avô deitou-os no chão, com as pernas amarradas. Eram seis, e o avô apontou para eles.

    ― Têm quase todos a mesma idade… vê-se pela espessura da crista. Só precisamos de três, por isso agora escolhe tu, Pequena Árvore.

    Andei à volta dos perus, que saltitavam no chão. Pus-me de cócoras, estudei-os e voltei a andar em roda deles. Tinha de ser cuidadoso. Pus-me de mãos e joelhos no chão e rastejei entre eles até retirar os três mais pequenos que consegui encontrar.

    O avô nada disse. Arrancou as tiras das pernas dos outros, que fugiram a toda a velocidade pela montanha abaixo. Atirou com dois dos perus para cima do ombro.

    ― Podes levar o outro? ― perguntou.

    ― Sim, avô ― disse, sem saber se tinha procedido bem.

    O avô esboçou um largo sorriso.

    ― Se não te chamasses Pequena Árvore… chamar-te-ia Pequeno Falcão.

    Segui o avô pelo carreiro. O peru era pesado, mas sentia-me bem com ele ao ombro. O Sol tinha-se inclinado para a montanha mais longínqua e desaparecia nos ramos das árvores ao longo do caminho, deixando marcas de um amarelo-torrado. O vento esmorecera neste cair de tarde de Inverno, e eu ouvia o avô, à minha frente, a trautear uma canção. Teria gostado de viver naquele instante para sempre… porque sabia que agradara ao meu avô. Aprendera o Caminho.

    Forrest Carter

    Retirado de Verticalizar

    Vá, acordem!

     

    A Primavera está a chegar!

    Ainda era de manhã cedo. Estava frio e a mamã tinha pressa.

    — Anda lá, Till — chamou. — Onde está o teu gorro? Vamos perder o autocarro!

    Till engoliu o último pedaço e dirigiu-se à parede da cozinha. Aí estava pendurado um calendário com muitas folhas. Na de cima estava escrito “20 de Março”. Tinha sido ontem. Till pôs-se em bicos de pés, levantou a mão…

    — Onde é que estás, Till? — chamou a mãe, da entrada.

    Till baixou a mão.

    — Bem, não mudo agora — resmungou ele, saindo a correr.

    E o calendário lá teve de continuar no dia “20 de Março”. A corrente de ar agitou a folha levemente e fê-la sussurrar.

    — Que aborrecimento! — murmurou lá fora o vento, mal-humorado. — Hoje não é ontem. A Primavera quer chegar, mas assim não pode, e vai ter de ficar à espera… — E saiu a correr.

    — Temos muito trabalho a fazer — segredou ele às nuvens, despenteando-as bem despenteadas.

    — Não me digas! — cantarolaram as nuvens. Dividiram-se em bolinhas de algodão e segredaram ao ouvido do espantalho:

    — A Primavera está a chegar!

    — Ai sim? — exclamou ele. Alargou o cachecol e assentiu com um sinal de cabeça. 

    Já estava cá com um pressentimento! acrescentou satisfeito.

    O espantalho fez cócegas à toupeira até ela acordar.

    — Atchim! — espirrou. — Como te atreves a acordar-me, com este frio glacial? Deixa-me dormir! — resmungou. De seguida, cruzou as mãos sobre a barriga e adormeceu de novo.

    O Génio das raízes esfregou os olhos e saiu da sua toca.

    — A Primavera está a caminho. Quem vai tocar para anunciar a sua chegada? — gritou ele às campainhas. Elas dormitavam graciosamente e não se deixaram incomodar.

    Triste, o Génio das raízes soprou nos dedos, que estavam gelados.

    — Eh, toca a acordar! – disse a Sr.ª Terra, bem-disposta.

    Puxou os narcisos pelos bolbos e endireitou a haste das prímulas. Aspergiu a violeta. As três flores sorriram alegremente, ainda a sonhar.

    Uma campainha espreguiçou-se e deu uma cotovelada à anémona.

    — Eu estou cansada. Toca tu — pediu ela, enquanto, a tremer, tapava as orelhas com uma folha.

    Mas a anémona envolveu-se na sua peliça.

    — Está muito frio — disse baixinho, fechando os olhos de longas pestanas.

    — Ervas daninhas preguiçosas! — ralhou a Sr.ª Terra. — Então… como é? Vamos lá, vamos lá! A Primavera está perto! — Atou o avental. — Já vou pô-las todas a mexer — disse, decidida, indo buscar uma vassoura.

    O melro e a mejengra estavam pousados em cima da árvore.

    — A Primavera quer chegar! O quê? Com este tempo glacial? — chilrearam eles, cheios de frio. — Como é que vai ser?

    E, aborrecidos, cerravam as penas.

    O vento esfregou as mãos e inspirou fundo.

    — Já chega de andarem por aí a vaguear — ralhou ele aos flocos de neve. — É altura de emagreceres – disse em seguida, virando-se para o boneco de neve.

    Mas alguma coisa não estava certa.

    — Falta o sol, claro! — murmurou tristemente o Génio das raízes. Empurrou as nuvens, puxou outras e levantou, a arfar, as mais preguiçosas. Em vão.

    Já era meio-dia e o vento esvoaçava em remoinho, sem saber o que fazer. O Génio das raízes sentou-se junto da chaminé do fogão, à espreita dos primeiros raios de sol. A Sr.ª Terra limpava bolbos de tulipas, enquanto cantarolava. Mas tudo estava branco de neve, o sol não aparecia e as campainhas continuavam a dormir.

    O autocarro onde Till seguia com a mãe de regresso a casa arfava estrada acima. Parou, e Till e a mãe apearam-se. Juntos abriram a porta de casa e entraram na cozinha. Uma corrente de ar fez agitar a folha do calendário e chamou a atenção da mãe.

    — Oh, Till! — exclamou admirada. — Não tiraste a folha do calendário! Ontem não é hoje, e a Primavera quer entrar!

    Till levantou-se de um salto… e arrancou a folha.

    Então o sol saiu de detrás do monte e começou a brilhar resplandecente. O vento encheu as bochechas e virou-se para sul. O Génio das raízes agarrou na Sr.ª Terra pelo avental e ambos dançaram, acompanhados pelo canto do espantalho.

    A toupeira deu uma pequena cotovelada à violeta.

    — Vamos — resmungou. — A Primavera é tempo de florir!

    O vento respirou finalmente de alívio. A nova folha do calendário chamava-se “21 de Março”.

    Sigrid Laube; Silke Leffler

    Aufgewacht, der Frühling kommt!

    Wien, Annette Betz Verlag, 2004

    Texto adaptado

    Durante a infância, o meu avô era o meu melhor amigo. Quando estávamos juntos, tudo me parecia perfeito.

    Gostávamos ambos de passear pelos bosques. Nunca íamos muito longe, nem andávamos muito depressa. Escolhíamos caminhos sinuosos. Enquanto caminhávamos, fazia lhe imensas perguntas.

    ― Avô, por que…?

    ― O que se passaria se…?

    ― Será que às vezes…?

    Um dia, perguntei-lhe:

    ― Avô, o que é uma oração?

    O meu avô ficou em silêncio durante muito tempo. Quando chegámos junto das árvores mais altas da floresta, respondeu-me com uma pergunta:

    ― Alguma vez ouviste o murmúrio das árvores?

    Pus-me à escuta, atento, mas em vão.

    ― Vê como as árvores sobem até ao céu. Tentam subir sempre mais. Querem chegar às nuvens, ao sol, à lua e às estrelas. Procuram elevar-se até ao céu.

    Pensei nas árvores, procurei ouvi-las. Enquanto reflectia, sentei-me numa rocha velha, coberta de musgo. O meu avô explicou:

    ― As rochas e as montanhas também falam connosco. A sua calma e o seu silêncio inspiram-nos tranquilidade.

    Depois de ter reflectido durante bastante tempo, peguei numa pedra e coloquei-a no meu bolso.

    Caminhámos um pouco mais, até junto de um ribeiro. A água borbulhava, cintilava, e viam-se pequenos peixes a nadar.

    ― Avô, os ribeiros também murmuram?

    ― Claro. Bem como todos os lagos, rios e cursos de água. Às vezes, correm tranquilamente. Espelham as nuvens, os pássaros, o sol ou as estrelas. Outras vezes, escoam-se em redemoinhos, lançam-se no mar ou evaporam-se no céu. E o ciclo recomeça… Também se riem e divertem com os seus amigos rochedos. Dançam, saltam, tornam a cair…

    ― Mas a natureza conhece outras formas de se exprimir. As ervas altas procuram o sol e as flores exalam o seu perfume doce. Quanto ao vento, sussurra, geme, suspira, e sopra-nos as suas palavras.

    ― Escuta o canto dos pássaros de manhã cedo, escuta o seu silêncio antes do nascer do sol. Consegues ouvir a melodia do pintarroxo ao cair da tarde? Os animais correm pela floresta, tornam-se reluzentes com a água, escalam montanhas, voam até às nuvens, ou refugiam-se na terra. É assim que todos os seres vivos participam na beleza do mundo…

    Calámo-nos os dois. O meu avô olhava o horizonte e eu reflectia no que ele me tinha dito sobre as rochas, as árvores, a erva, os pássaros e as flores. Acabei por lhe perguntar de que modo rezavam os homens.

    O meu avô sorriu e passou a mão pelos meus cabelos. Respondeu:

    ― Tal como a natureza, os homens têm a sua linguagem própria. Podem inclinar-se para cheirar uma flor, ver o sol despontar no horizonte, sentir a terra mover-se docemente, ou saudar o dia que começa. Podemos passear num bosque coberto de neve num dia de Inverno e ver o nosso próprio sopro confundir-se com o sopro do mundo. A música e a pintura são também formas de nos exprimirmos, de falarmos…

    ― Às vezes, sentimo-nos tristes, doentes ou isolados. Então, repetimos as palavras que os nossos pais e avós nos legaram. Mas é preciso que cada um encontre as suas próprias palavras. O que é importante é dizer o que verdadeiramente se sente, o que nos vem do coração.

    Passado algum tempo, o meu avô disse-me que eram horas de regressar. Mas eu tinha uma última pergunta:

    ― Há respostas para as nossas orações?

    Sorriu.

    ― Se as escutarmos atentamente, as orações contêm as suas próprias respostas. Nós somos como as árvores, o vento e a água. Não podemos mudar o que nos rodeia, mas podemos mudar-nos a nós mesmos. É evoluindo que transformamos o mundo.

    Depois deste passeio, ainda voltámos a passear juntos. De cada vez, tentei escutar as vozes da terra, mas creio que nunca as ouvi.

    Um dia, o meu avô deixou-nos. Continuei a pensar nele com todas as minhas forças, mas ele não voltou. Não podia voltar. Rezei até mais não poder. Depois, deixei de o fazer. Sem ele, tudo me parecia sombrio, e sentia-me muito só.

    Alguns anos mais tarde, durante um passeio, sentei-me debaixo de uma árvore enorme. Os ramos mexiam e as folhas sussurravam. Ouvi o murmúrio de um ribeiro e o canto de um pintarroxo, pendurado numa madressilva. Ouvi também um ligeiro sussurro, misturado com o sopro do vento, com o canto dos pássaros e com o marulho da água.

    Tal como o meu avô me ensinara, a terra falava comigo. Então, também eu murmurei, docemente:

    ― Obrigado pelas árvores grandes e pelas flores, pelos rochedos e pelos pássaros. E, sobretudo… obrigado pelo meu avô!

    Foi então que algo aconteceu. Senti – outra vez – o meu avô perto de mim…

    E, pela primeira vez desde há muito tempo, tudo me parecia perfeito.

    Douglas Wood
    Escuta as vozes da terra
    Paris, Gründ, 2000
    Tradução e adaptação

    Retirado de Verticalizar

    Há muito, muito tempo, antes da chegada do homem branco ao Novo Continente, Lalita, uma jovem índia, levantou-se uma certa manhã a tremer: tinha tido um pesadelo. Sonhara que majestosas aves brancas atravessavam o oceano, acompanhadas por um vento tão forte que todas as árvores se curvavam à sua passagem.

    Tinha até ouvido a floresta chorar.

    — O que quer isto dizer? – perguntou aos pais.

    Mas nem o pai nem a mãe souberam explicar-lhe.

    — Foi apenas um sonho, Lalita – disse o pai. — Não te inquietes, minha filha.

    Mas, um dia, pouco tempo depois deste curioso sonho, numa altura em que estava a contemplar o horizonte, Lalita pensou ter visto, ao longe, enormes aves brancas que voavam ao seu encontro por cima do mar. Não eram – infelizmente – aves majestosas, mas antes as velas brancas de imponentes navios, a bordo dos quais se encontravam estranhos indivíduos. Lalita estremeceu, o sonho tornava-se realidade.

    Os homens vindos do Oceano chegaram a terra. Possuíam machados e nenhum respeito tinham pela floresta. Nem sequer se preocuparam com os índios que, ao contrário deles, amavam as árvores e compreendiam a sua linguagem. Começaram então os homens brancos a abater, uma a uma, as árvores da floresta. Acarretavam as árvores mortas até aos navios, deixando para trás a terra desolada e nua. Uma vez desaparecida a floresta, nada mais restava a Lalita senão chorar. Já não havia vivalma na floresta, nem ursos nem aves. E os próprios índios se puseram em fuga, os velhos apoiados nos bastões e os bebés nos braços das mães.

    Lalita não queria fugir. O coração dizia-lhe que ficasse junto das árvores bem-amadas e não as abandonasse.

    Irei mais tarde – prometeu à mãe. Refugiou-se então numa gruta. Cheia de terror e de desespero, viu os homens brancos destruírem a floresta. Ouviu também choros de crianças. Em verdade, eram os gritos de dor das árvores abatidas pelos machados. Lalita sentiu que o seu coração se partia. Viu e escutou tudo, até ao momento em que os homens brancos levaram a última árvore, desaparecendo por fim.

    Ao cair da noite, Lalita deixou o refúgio. No céu, as estrelas brilhavam como diamantes. Os reflexos cor de safira, rubi e esmeralda da aurora boreal acariciavam os cumes das montanhas. Mas Lalita nada via desse espectáculo. Chorava a floresta cujas   árvores conhecera uma por uma. Chorava a terra devastada que outrora acolhera o seu povo. E as lágrimas impediam-na de ver o crescente prateado da lua a subir no céu e a resplandecer num silêncio de morte.

    Lalita estava estendida, imóvel. Apenas os cabelos ondulavam sobre a terra deserta. Durante sete dias e sete noites assim permaneceu. Durante sete dias e sete noites Lalita chorou. E chorou tanto que um riacho nasceu das suas lágrimas.

    E do riacho brotou uma cascata.

    E as lágrimas de Lalita espalharam-se pela terra seca formando novos rios.

    Na manhã do oitavo dia, algo de inesperado ocorreu. Um rebento surgiu na beira do rio de lágrimas. E o rebento transformou-–se numa campainha tão branca e suave como a lã de um cordeiro. Pouco depois surgiu uma outra campainha-branca, depois uma outra, e a terra devastada acabou por se cobrir completamente de pétalas brancas como a neve.

    Mas Lalita de nada se deu conta. Continuava a chorar. As suas lágrimas alimentavam o rio que se espalhava sem cessar. As lágrimas impediam-na de ver os jovens rebentos de carvalho e os minúsculos picos dos pinheiros que nasciam. Não via as árvores que cresciam a seus pés nem as flores que surgiam entre os seus dedos.

    Um dia, ao nascer do sol, ouviu-se um canto tão puro e tocante como a música de uma flauta.

    Um pássaro! – murmurou Lalita.

    Parou de chorar e abriu os olhos. Nos ramos de um ácer um pisco cantava.

    Lalita riu, saltou de alegria e estendeu os braços. A ave, tão feliz quanto ela, esvoaçou e veio pousar-lhe na mão. A vida regressava à floresta. As suas lágrimas tinham sido sinceras, e a elas a terra tinha ido buscar a água e o amor necessários para que a natureza de novo brotasse. O amor permitira o regresso dos animais, dos pássaros e da sua família.

    A partir desse dia os índios afirmam que, se um amor é verdadeiro, tudo o que foi destruído renasce das cinzas.

    Kenneth Steven

    Le songe de la forêt

    Paris, Ed. Gründ, 2002

    Tradução e adaptação

    Como já era costume, outro dia encontrámo-nos debaixo da figueira, andáramos dentro da vala, enorme como uma floresta de beterrabas e agriões, onde desapareciam os nossos pés, depois lembrámo-nos das histórias do Jara e fomos para lá.
    — Então, contas-nos outra história? — perguntou a Lídia.
    — Outra história…
    — Sim, outra história da figueira!
    — Está bem, mas parece-me que ela hoje dormiu mal e não vai gostar…
    — Mas, a gente vai cantar-lhe uma cantiga para a pôr bem disposta…
    — Uma cantiga?
    — Sim, uma cantiga que a minha avó me ensinou, mas só a canto se tu nos contares mais uma história…
    — Está bem… se a figueira estiver de acordo…
    O Jara olhou para a figueira, a figueira parecia estar mesmo adoentada, não tinha o brilho verde do costume e os seus figos já estavam a perder o ar viçoso; no chão, alguns estavam caídos, misturados às ervas, que iam ganhando uma cor amarela.
    — É o Outono, sabem, é o Outono que se avizinha. Ela, nestas alturas, põe-se de mau humor, mas vamos a ver…
    E o Jara, pé ante pé, foi direito ao largo tronco da figueira, encostou-lhe o ouvido, tacteou-lhe a pele rugosa e com a boca muito perto dela segredou-lhe de uma maneira muito misteriosa e meiga.
    Nós só olhávamos e começávamos a compreender por que é que a figueira contava histórias ao Jara… Passados momentos voltou, em silêncio sentou-se junto de nós, cruzou as pernas e disse para a Lídia:
    — Vá, canta lá, então, a canção que a tua avó te ensinou.
    A Lídia pôs-se rosada, os olhos dela pareceram-se com a água a brincar com os raios do sol, olhou para um e para outro e sorriu-se.
    — Está bem, então, escutem.

    Os meus figos
    filhos
    da água do amor
    estremecem o meu coração
    quando de um rio longe
    os vejo nos meus olhos

    — Ah! Mas que bonita cantiga! — exclamámos nós. — É como a água do riozinho a regar a figueira, às vezes até parece que ela se transforma em lágrimas, a acariciar-lhe os pés do tronco.
    — É, é — disse o Jara. — Agora vou contar-vos a história, ouçam:

    Havia um menino que todas as manhãs vinha aos figos, vinha muito devagarinho, e pé ante pé lá ia ele figueira acima. A figueira não dizia nada, olhava o menino. O menino, era figos maduros, era figos verdes, partia e tornava a partir raminhos tenros que estavam a crescer: era um menino muito descuidado. Um dia subiu um ramo, subiu outro ramo, distraído e contente, comia um figo maduro, torcia um figo verde, partia um raminho, pisava outro, até que, depois de estar de barriga satisfeita, se preparou para descer, mas glutão e distraído como era, subiu tanto, tanto, que até as casas cá em baixo lhe pareciam pequeninas.
    O menino olhou, olhou e começou a chorar, e tanto chorou que a figueira lhe perguntou:
    — Porque é que choras?
    O menino olhou, tornou a olhar, não viu ninguém e pensou lá para com ele que tinha sido impressão, mas lá tornou a voz:
    — Porque é que choras, meu menino?
    O menino, com o coração a tremer, tornou a olhar, a olhar, e a voz mesmo em frente dele:
    — Não me vês? Sou um galhozinho como outros que tu já partiste, sou a boca desta figueira.
    O menino ficou admirado e pensou lá para com ele: “A boca desta figueira! Afinal, a figueira, também tem boca.”
    — Sim — continuou a figueira — sim, menino porque é que choras?
    — Eu, eu estou a chorar por estar muito alto e não ser capaz de descer.
    — Estás muito alto?
    — Sim, sim — disse o menino olhando as casas lá muito em baixo — mas, tu também estás a chorar lágrimas brancas.
    — As feridas que tu me fizeste doem muito.
    — Eu fiz-te feridas?
    — Sim, menino, fizeste-me feridas, partiste-me tantos raminhos, que eu não sei se morrerei…
    E nisto, a figueira encolheu-se, encolheu-se tanto que quando o menino deu por ele, estava já quase rente ao chão.
    Depois, o menino, quando se viu no chão, não disse nada, olhou a figueira, olhou, estendeu a sua mãozita a tremer e pousou-a durante muito tempo no seu tronco largo e a figueira estremeceu, estremeceu e as lágrimas de água branca desapareceram-lhe.

    O Jara calou-se, olhou a grande figueira já cheia de sombra, a grande figueira a querer abraçar a terra e as ervas por baixo da sua larga copa e depois, então, disse tão devagar que mal se ouviu:
    — Se calhar é por isso que a figueira fala…
    Nós não dissemos nada, ouvíamos a folhagem como se nos embalasse, e o mundo fosse um baloiço onde o nosso coração se encostasse, cansado de brincar.
    — Olhem o riozinho, qualquer dia cresce…
    — Sim, sim, e vamos pôr nele barcos grandes…

    José Vultões Sequeira
    As histórias da figueira
    Lisboa, A Regra do Jogo – Edições, 1985

    (excerto)

    João Ar-Puro era o melhor amigo das águas, dos pássaros, dos peixes e das árvores de fruto. Era amigo dos camponeses e dos animais domésticos. Todos gostavam dele por ser alegre, trabalhador e saudável.

    Tinha ombros largos, bochechas rosadas e mãos grandes, generosas, sempre prontas a ajudar quem estivesse triste, desamparado ou aflito.

    João Ar-Puro era filho da Brisa do Mar e do Vento do Norte. Com eles aprendera a respirar fundo o ar fresco que vem dos campos, cheirando a hortelã e a rosmaninho, a encher o peito com a aragem fria do mar, que sabe a sal, a maresia e a sonhos de viagens.

    Havia rapazes e raparigas da sua idade que, escondidos atrás das cortinas baças das janelas, se riam dele por andar sempre a correr e a saltar, por colher fruta nos pomares, por acompanhar com os olhos o voo livre dos pássaros, a rota das estrelas e dos cometas. Chamavam-lhe sonhador, como se isso fosse um defeito ou uma doença incurável. Mas ele não se importava. E, quanto mais eles se riam, mais ele se sentia bem com a vida que levava, entre a água e o vento, entre o sol e a terra semeada.

    João Ar-Puro nascera no País da Primavera, na Aldeia das Águas Azuis. Às cavalitas do pai ou ao colo da mãe conheceu terras distantes, outros povos e continentes, aprendeu os nomes das flores, das montanhas, dos rios e das cidades. Em todos os lugares por onde passou deixou amigos, como se semeasse plantas que duram a vida inteira.

    Foi à escola para aprender coisas úteis como, por exemplo, as letras que compõem o alfabeto, os algarismos com que as contas são feitas, os pontos, as vírgulas, as operações de multiplicar e dividir, os nomes dos países e dos mares. Mas pouco lhe disseram sobre a vida das plantas e dos frutos, sobre os poderes imensos da água, do fogo e do vento. E era isso precisamente o que João Ar-Puro queria aprender. Porque esse era o seu mundo, o mundo livre e secreto onde nascera, onde começara a andar, a respirar e a falar.

    Foi assim que decidiu começar a estudar noutra escola: a da Natureza. A brincar e a trabalhar nos campos, aprendeu, dia após dia, a linguagem das pedras, dos pássaros e das florestas. Às vezes, os seus companheiros de brincadeira riam-se dele por pensarem que falava sozinho. Mas enganavam-se, porque cada palavra, cada frase que dizia, tinha sempre uma resposta da parte da Natureza, uma resposta que normalmente era difícil de explicar, de traduzir, mas que ele entendia com facilidade, porque era dada na linguagem ao mesmo tempo estranha e bela da vida e do sonho.

    João Ar-Puro sabia que a Natureza andava preocupada, inquieta, que acordava por vezes sobressaltada a meio da noite.

    — Não gosto de te ver assim. Gostava de saber o que te preocupa — disse ele à Natureza, que era uma mulher sem idade, com grandes olhos verdes da cor do mar de Setembro e longos cabelos de prata fina.

    — Ando preocupada porque todos os dias me chegam notícias de que os meus filhos sofrem.

    — Os teus filhos? — apressou-se João a perguntar.

    — Sim, os meus filhos — insistiu ela — os peixes, as águas, as árvores, os pássaros. Sei que sofrem com os fumos das fábricas nas grandes cidades, com o óleo que deitam nas águas azuis do mar, com os ruídos das buzinas e das sirenes, com o lixo que lançam nas praias e na relva fresca dos jardins públicos, com as coisas estragadas que lhes dão a comer, a beber e a cheirar.

    Parou um instante para suspirar e continuou:

    — Com todo o mal que lhes fazem, eles adoecem e às vezes morrem. Mesmo que nada disso lhes aconteça, andam tristes por verem os seus irmãos a sofrer e eu, claro, sofro com eles, sinto o que eles sentem e gostava de os ajudar, mas acho que nada posso fazer.

    João Ar-Puro reparou que duas grandes lágrimas de água limpa deslizavam pelas faces da Natureza e apeteceu-lhe chorar com ela. Mas pensou: “Chorar nada resolve. O que é preciso é fazer alguma coisa.” Agarrou as mãos da Natureza e pediu-lhe para não chorar, porque tudo se havia de resolver. “Mas o quê?” — perguntou a si próprio em silêncio e não foi capaz de descobrir a resposta.

    A Natureza, ao vê-lo preocupado e comovido, sentiu que podia contar com ele.

    — Sempre que puderes — pediu ela — ajuda os meus filhos que estiverem em dificuldades. É como se me ajudasses a mim própria.

    Dizendo isto, depositou-lhe nas mãos um pequeno tufo de musgo húmido sobre o qual brilhava uma minúscula estrela, igual às que moram no veludo imenso e negro do céu. João Ar-Puro guardou com muito cuidado o presente que acabara de receber e voltou para casa, sem conseguir tirar da cabeça as palavras que a Natureza lhe dissera. Palavras de que nunca mais iria esquecer-se, ele que era filho da Brisa do Mar e do Vento do Norte e que, por isso mesmo, se sentia também filho da Natureza.

    Guardou o tufo de musgo e a estrela numa pequena caixa de vidro, mas depois achou que era melhor colocá-los no parapeito da janela do seu quarto para poderem respirar à vontade, para verem o Sol e a Lua, para sentirem o cheiro da terra, da chuva e das rosas bravas. Sim, porque as estrelas também respiram e cheiram e sentem. Senão, como haviam de dar tanta luz?

    João Ar-Puro sabia de cor os nomes dos meses, das estações do ano, das fases da Lua, dos ciclos das chuvas e das marés. Sabia muito mais coisas que não guardava só para si, que partilhava com todos os seus amigos, por achar que a sabedoria, tal como a alegria, não devem pertencer a uma só pessoa ou a um pequeno grupo de pessoas. Devem, isso sim, ser um bem de todos e para todos.

    Desde que ouvira as palavras inquietas da Natureza, nunca mais tinha ficado em sossego consigo próprio. Entendia, e com razão, que era preciso não ficar de braços cruzados.

    Todos os dias, os pássaros, as borboletas e os raios de sol e de luar lhe traziam notícias tristes sobre o mal que os homens andavam a fazer às águas, à terra e ao vento.

    Numa noite de Verão, enquanto dormia no ramo de um grande carvalho, teve um sonho estranho. Imaginou que o tinham vindo chamar para ajudar a defender a Natureza de todos os males que andavam a fazer-lhe. Sonhou-se a galopar na crista branca das ondas do mar, com uma espada de algas e um capacete de coral.

    — Faz o que for preciso fazer — dizia-lhe a Natureza, durante o sonho — para que não esmoreça o verde das plantas, o azul das águas, o oiro do trigo maduro.

    Sentiu-se feliz por estar a ter aquele sonho, por se sentir uma espécie de herói no meio de fumos, de montes de lixo, de bocas cansadas de tossir.

    Acordou de repente com um calor esquisito na cara. Abriu os olhos devagar e foi como se o sonho não tivesse ainda terminado, porque na sua frente estava um dragão, um dragão verdadeiro com escamas prateadas, grandes olhos negros e brilhantes e uma língua de fogo.

    — Não te assustes — murmurou o dragão — que não te quero fazer mal.

    — Mas quem és tu e o que fazes aqui? — perguntou João Ar-Puro, assustado.

    — Eu sou o Dragão do Lago dos Sonhos e sou, como tu, amigo dos pássaros, das plantas, das estrelas, dos peixes e dos camponeses. Tenho outros amigos que não conheces, mas que gostaria de te apresentar: os unicórnios, os duendes e as sereias que moram comigo no Lago dos Sonhos…

    — Mas ainda não me disseste o que te traz por cá — insistiu João, receoso.

    — Foi a Natureza que me pediu para te procurar. Sou também amigo dela, e às vezes visito-a no seu palácio de folhas verdes. Na última visita que lhe fiz, encontrei-a mais triste e preocupada do que é costume. Então, ela contou-me que tinha recebido notícias do País do Fumo, onde os seus filhos estavam ameaçados de grandes males e sofrimentos. Perguntei-lhe o que havia de fazer para a ajudar e ela disse-me para te procurar porque só tu podias auxiliá-la neste momento difícil.

    — Mas como posso eu ajudá-la? — inquiriu João Ar-Puro.

    — Não te esqueças que te chamas Ar-Puro e que só alguém como tu pode vencer os inimigos que temos no País do Fumo.

    — Mas eu nem sequer sei onde fica esse país.

    — Não te preocupes, que eu levo-te lá.

    O Dragão do Lago dos Sonhos ajudou-o a subir para o seu dorso de escamas prateadas. Depois deitou umas labaredas violetas pelas narinas, tomou balanço e elevou-se no ar com a leveza de uma folha embalada pelo vento da manhã.

    Atravessaram a noite escura com a velocidade de um cometa, deixando, como ele, à passagem, um rasto de luz, uma espécie de pó de estrelas igual ao que as fadas lançam com a ponta das varinhas mágicas.

    Viram as cidades adormecidas, os operários a caminho das fábricas, os varredores e as vendedeiras de peixe e de flores a caminharem com passo rápido em direcção aos mercados e às feiras. Viram nuvens de fumo espesso a saírem das altas chaminés e gaivotas esvoaçando sobre os cais, a despedirem-se dos pescadores que partiam para o alto mar.

    João Ar-Puro não sentia sono nem cansaço. Estava desperto como nunca e pensava: “É belo o mundo visto daqui de cima. Parece uma grande bola de cristal cheia de gente viva!”

    — Agarra-te bem que vamos começar a descer para o País do Fumo. Vais sentir os olhos a arder e a garganta a doer. Quando aterrarmos, ficarás entregue a ti próprio, à tua força, à tua imaginação. Não esqueças que todos os teus amigos contam contigo.

    O Dragão do Lago dos Sonhos teve dificuldade em aterrar no País do Fumo, como se fosse um avião a jacto num dia de nevoeiro. Também ele, embora estivesse habituado às labaredas e aos tormentos do fogo, tinha os olhos a arder e a garganta áspera. Ouvia João Ar-Puro a tossir, ajeitando-se, incomodado, sobre o seu dorso de escamas lisas.

    Aterraram, por fim, numa grande praça, no meio do País do Fumo, quando a manhã já ia alta. Mas o fumo era tanto que não se percebia muito bem se era noite ou se era dia.

    — Tenho de te deixar aqui. Espero que tenhas coragem para fazeres o que há a fazer. Eu e a Natureza estamos contigo. Daqui a uma semana aterrarei de novo neste local para te levar de volta, são e salvo, à tua terra.

    João Ar-Puro apeou-se do dragão, trémulo de medo, vendo todo aquele fumo à sua volta, um fumo espesso que não o deixava parar de tossir.

    Olhou em redor e viu alguns vultos a recortarem-se no meio do fumo. Quis aproximar-se deles mas, quando chegou perto, já tinham desaparecido.

    — O que hei-de fazer agora? — perguntou a si mesmo em voz baixa, tentando vencer o medo que lhe prendia as pernas. Ao fim de uns instantes, decidiu-se e partiu à procura dos pássaros, das plantas e dos peixes. Mas onde havia de encontrá-los, se o fumo era tanto que mal via o chão que pisava?

    Procurou árvores e lagos, jardins ou praias. Mas nas primeiras horas de busca nada conseguiu encontrar.

    Quase lhe apeteceu desistir, cruzar os braços e correr atrás do dra­gão, mas achou que não devia fazê-lo, que era já demasiado tarde. Foi então que lhe poisou no ombro um rouxinol de olhar triste.

    — Estávamos à tua espera — disse o rouxinol em voz baixa, para ninguém ouvir.

    — Mas como sabiam que eu vinha?

    — Foi um cometa nosso amigo que nos trouxe a notícia.

    — Conta-me então o que se passa neste país — pediu João Ar-Puro.

    — Levaria horas a contar-te — respondeu o rouxinol de olhar triste.

    — O tempo de que dispomos é curto, mas podes começar a contar.

    O rouxinol, respirando com dificuldade no meio do fumo, iniciou o relato:

    — O fumo das fábricas, dos escapes dos automóveis, dos cigarros e dos charutos tomou conta deste país. Por isso ele se chama País do Fumo.

    Parou um instante para respirar e continuou:

    — Quem manda aqui é um homem carrancudo e mau, chamado Fumador-Mor. Fuma cigarros atrás de cigarros e, quando os cigarros acabam, fuma charutos e cachimbos. Desloca-se de um lado para o outro sobre uma grande nuvem de fumo negro e dá ordens para que sejam construídas novas fábricas com enormes chaminés que, recortadas no cinzento dos dias, parecem monstros de muitas cabeças. A mulher do Fumador-Mor é a Tossidora-Mor, que também passa os dias a fumar. Tem criados para tudo e manda castigar quem não lhe obedece.

    E vocês o que fazem? — perguntou o João Ar-Puro.

    — O que havemos nós de fazer? Andamos fracos e doentes por causa de todo este fumo. Bem, mas o melhor é vires comigo, para te mostrar o que se está a passar.

    E lá foram os dois, caminhando com dificuldade pelo meio de nuvens de fumo denso. Primeiro, foram visitar os peixes do mar. Já quase não vinham à superfície com medo do fumo, mas, mesmo lá no fundo, adoeciam por causa do óleo lançado nas águas pelos petroleiros e pelos cargueiros que partiam para grandes viagens. Muitos cardumes tinham fugido em busca de águas limpas, outros tinham morrido e os que estavam vivos andavam tristes e doentes.

    Em seguida, atravessaram um grande pomar e ouviram as queixas das árvores de fruto, vergadas pela falta de ar. Olharam para as suas folhas amarelas e para os seus ramos e para os seus frutos mirrados. Tiveram pena delas e, por isso, acharam que era ainda mais urgente fazer alguma coisa, encontrar uma rápida solução.

    — Com este fumo — disse-lhes uma abelha — já nem conseguimos fazer mel. Para o fazermos, precisamos de ar puro, de flores saudáveis e cheias de pólen. Mas elas deixaram de existir no País do Fumo. Por isso, estamos a pensar voar para outro lado. Mas nem para isso temos forças.

    Os pássaros, amigos do rouxinol de olhar triste, contaram também a João Ar-Puro o mal que o fumo lhes fazia. E um deles chegou mesmo a dizer:

    — Para nós, além do fumo, o pior ainda é não conseguirmos ver o Sol, porque as nuvens cobrem completamente o azul do céu. E um pássaro que não pode ver o Sol e o azul do céu sente-se doente e sem liberdade. É assim que nós nos sentimos!

    João e o rouxinol foram refugiar-se numa gruta perto do mar, para não serem descobertos pelos Cigarros-sem-Filtro que eram a polícia do Fumador-Mor.

    Conversaram até de madrugada à procura de uma solução. Mas não havia meio de a encontrarem.

    — Se calhar — disse o rouxinol, com o olhar ainda mais triste do que era costume — o melhor é desistirmos e deixarmos que as coisas continuem assim. Tu Voltas para a tua terra e nós ficamos-te agradecidos na mesma pela boa vontade que demonstraste.

    — Não penses nisso — respondeu João Ar-Puro com firmeza. — Agora é que estou mesmo decidido a ajudar-vos a resolver este grave problema.

    — Mas como havemos de resolvê-lo?

    — Tenho a impressão de que encontrei a resposta para a tua pergunta.

    — Conta-me depressa qual é — disse o rouxinol com os olhos pequeninos a brilhar.

    — Vamos reunir num sítio seguro todos os nossos amigos: os pássaros, as plantas, os peixes… todos aqueles que sofrem com o fumo. Por isso, chamaremos também as pessoas que encontrarmos nas ruas, cheias de tosse e com os olhos vermelhos por causa de tanta fumarada. É bom que partas depressa e as chames todas para um lugar onde não haja o perigo de sermos descobertos.

    O lugar escolhido foi uma clareira muito abrigada no meio da floresta. Abrigada dos ventos e dos olhares indiscretos. O sítio ideal.

    Ao fim de uma hora, começou a juntar-se a multidão dos filhos da Natureza.

    Tinham um ar doente e preocupado, mas, ao mesmo tempo, havia nos seus olhos cansados uma réstia de esperança.

    João Ar-Puro empoleirou-se num tronco de pinheiro e dirigiu-lhes a palavra:

    — Pedi-lhes que viessem para, juntos, podermos encontrar uma solução para o problema que vos aflige.

    — Mas o que havemos de fazer? — perguntou, em coro, a multidão, no meio da qual se viam também muitas pessoas fartas de tanto fumo.

    — Vamos juntar-nos todos na maior praça que houver neste país, vamos aproveitar o ar que ainda temos dentro dos pulmões e vamos soprar, com quanta força tivermos, até conseguirmos expulsar de vez o fumo desta terra.

    João ouviu um “ah” de espanto a elevar-se no ar e logo a seguir uma voz que perguntava:

    — E onde temos nós fôlego que chegue para isso?

    — Dentro do peito, nos pulmões, nas guelras, eu sei lá, na nossa força de vontade — respondeu João Ar-Puro, determinado.

    Da clareira na floresta, partiram em pequenos grupos para a maior praça que conheciam. Quanto se juntaram todos, perceberam que se apertava já à sua volta um cerco feito por um verdadeiro exército de Cigarros-sem-Filtro.

    Entre a multidão estavam as baleias, os linces, os golfinhos, todas as aves e plantas raras que existiam no País do Fumo e todos eles exclamavam, olhando uns para os outros e aguardando uma ordem de João Ar-Puro: “É agora ou nunca!” Mas, ao mesmo tempo, havia quem perguntasse: “será que conseguimos?”.

    João pediu que se juntassem todos, muito juntinhos, como se fossem as pedras de uma muralha, e que se virassem para o sítio onde havia mais fumo. Depois disse-lhes:

    — Quando eu gritar “agora!” soprem todos com força para furarmos o cerco dos Cigarros-sem-Filtro e fazermos desaparecer de vez o fumo desta terra.

    — E aqueles que não têm boca nem bico para soprar? — perguntou o rouxinol de olhar triste.

    — Bem — respondeu João — esses sacodem as asas, as folhas, mexem como puderem para fazer vento, para agitar o ar.

    E, dizendo isto, respirou fundo e gritou como estava combinado, a palavra “agora”.

    Nesse instante, levantou-se uma forte ventania que empurrou para muito longe o exército dos Cigarros-sem-Filtro e com eles o fumo espesso que há muitos anos incomodava os habitantes do país.

    — Não parem de soprar! Não parem de soprar! — gritava João Ar-Puro sem esconder o entusiasmo e a alegria que estava a sentir nesse momento.

    Pássaros, peixes, plantas, homens, mulheres e crianças faziam todo o vento que podiam e, se por um instante se cansavam e perdiam o fôlego, logo ganhavam novas forças e voltavam à carga.

    Foi assim, graças ao esforço e à coragem de todos, que o fumo desapareceu quase por completo, deixando apenas, suspensas no ar, pequenas nuvens avermelhadas.

    Lá em cima, muito azul, via-se agora o céu e, no meio dele, um gigantesco Sol sorridente que os saudava a todos com os seus belos raios muito brilhantes.

    À saudação do Sol todos corresponderam com gritos de alegria, com saltos e acenos. Nem queriam, afinal, acreditar na grande vitória que tinham alcançado. Tratava-se agora de voltarem às suas vidas, já libertos de preocupações, com ar puro e fresco para respirarem.

    E assim, os peixes voltaram a nadar felizes, as árvores a dar lindos frutos sumarentos, os pássaros a voar alegres, as plantas a dançar ao sabor da brisa da manhã, as pessoas a rir e a cantar no meio das praças e dos jardins.

    Ao ter notícia da vitória dos filhos da Natureza, o Fumador-Mor e a Tossidora-Mor escaparam, pela calada da noite, com o que restava da sua guarda, montados numa nuvem negra e feia. Soube-se depois que acabaram os seus dias, tristes e zangados, no País da Falta de Ar, entre montes de carvão e grandes caixotes de lixo.

    Os filhos da Natureza, para celebrarem a vitória e o regresso do Sol e do céu azul, fizeram, na grande clareira da floresta, uma festa que durou vários dias. Vieram palhaços, trapezistas, acrobatas, bailarinas, músicos e actores. Cantou-se e dançou-se, bebeu-se água fresca das fontes e todos trocaram entre si flores com as cores do arco-íris.

    Quando o dragão do Lago dos Sonhos chegou, no dia marcado, para levar de volta João Ar-Puro, também entrou na festa, usando o fogo das suas narinas para acender as velas que iluminavam a noite.

    João subiu, cansado e feliz, para o dorso de escamas prateadas e voou através do céu limpo e azul a caminho da sua terra distante.

    À sua espera, no regresso, tinha a Natureza com os filhos à volta. Queriam agradecer-lhe tudo o que tinha feito. Deram-lhe uma linda estrela doirada e uma cabana de folhas verdes no meio do Bosque dos Unicórnios.

    O País do Fumo, hoje, já só existe no coração dos sonhos e dentro das histórias que se contam às crianças.

    José Jorge Letria

    João Ar-Puro no país do fumo

    Porto, Edições Asa, 1999

    Adaptado

    Eu sou a água do mar,
    a água de todos os mares,
    a água azul, verde ou cinzenta
    que liga os continentes,
    as ilhas, as línguas de terra
    onde o trigo cresce,
    onde os pássaros fazem ninho,
    onde as cidades despertam,
    onde as mãos amassam o pão,
    onde as plantas e as pedras
    se casam em manhãs de sol
    quando chega a Primavera.

    Por cima da minha cabeça
    está o céu e quem diz o céu
    diz a noite e o dia,
    diz a manhã e a tarde,
    o lençol de nuvens
    que guarda a chuva,
    o vento e a geada.

    Sou habitada pelos peixes,
    que são os meus melhores amigos,
    os pequenos cavaleiros das ondas
    que viajam comigo
    até às praias, até às baías,
    e voltam comigo para o fundo,
    enfeitados de algas e corais.

    Gosto dos peixes
    e eles gostam de mim
    como só os peixes sabem gostar,
    batendo as pequenas barbatanas
    quando estão contentes,
    quando querem que se saiba
    que estão felizes.

    Eu sou a água do mar,
    a água de todos os mares,
    dos oceanos imensos
    ou dos pequenos mares quietos
    onde o sal é tanto
    que faz arder os olhos
    só de olharmos para eles.

    Tenho alimento bastante
    para dar de comer
    a todos os meus filhos
    e também aos filhos da terra,
    às bocas que pedem mais pão.
    Habita em mim a riqueza:
    o ouro, o petróleo, o carvão.
    Por isso me cobiçam,
    me furam o corpo
    à procura de novas riquezas.

    Não quero para mim
    aquilo que as minhas águas
    escondem e protegem.
    Mas só darei ao homem
    aquilo que o homem
    souber usar, trabalhar, melhorar.
    Não quero o ouro
    para me adornar,
    o petróleo para me mover,
    o carvão para me aquecer.
    A minha riqueza é de todos,
    mas é preciso que saibam
    merecê-la, aumentá-la, amá-la.

    Há quem me chame
    grande continente azul
    e eu gosto deste nome,
    porque é bonito
    e porque gosto do azul
    que é a minha cor preferida.
    Azul de água e de vento
    de brisa e de espuma;
    azul do céu de Junho
    reflectido nas escamas de prata
    dos peixes voadores.
    Gosto de ser continente,
    mas continente de água,
    o maior de todos,
    o mais fundo e secreto.
    Gosto das estrelas do mar,
    dos búzios e das conchas
    e tenho uma guarda
    de cavalos marinhos
    que me acompanha
    para onde quer que eu vá.

    É no meu rosto de água
    que as estrelas e os astros
    se vêem ao espelho,
    se miram e embelezam.
    É no meu rosto de espuma
    que as crianças constroem
    castelos de sonho e areia.
    E como eu gosto das crianças!
    Queria ser um grande,
    um enorme jardim verde
    para elas poderem brincar
    abrigadas de todas as tempestades.
    Se às vezes me zango
    e me torno temporal,
    acreditem que não é por mal.
    É só porque não gosto
    que me sujem as águas
    com óleo de navios,
    que me estraguem o sono
    com ruídos de motores,
    que me manchem o azul
    com lixo e nafta.
    Sou irmã dos ventos,
    dos astros e das estações,
    das quatro estações que o ano tem,
    dos doze meses
    em que elas se repartem.
    E digo: o que é meu
    também é vosso.
    Se estiverem comigo
    estarei convosco: com os pescadores,
    com os navegadores solitários,
    com os astros e as auroras boreais.
    Eu sou a água do mar,
    a água de todos os mares,
    de todos os oceanos,
    do Atlântico, do Índico, do Pacífico.
    Sou casa, celeiro, refúgio.
    Todos os dias aprendo novas coisas
    que vale a pena aprender:
    nomes de plantas, de rios, de cidades.
    Quero ter a cor do sonho,
    o cheiro da maresia
    e do peixe fresco.
    É em mim que começa o azul
    e também a viagem do sol
    à superfície das águas.
    A viagem dos homens à descoberta.

    José Jorge Letria
    O Grande Continente Azul
    Mafra, Livros Horizonte, 1985
    adaptado

    Retirado de Verticalizar

    Os quatro irmãos

    Era uma vez quatro irmãos, quatro irmãos diferentes como são as horas do dia. Eram três irmãos e uma irmã.

    O primeiro era forte e loiro como um rei antigo. Tinha um olhar luminoso e fiel que só de olhar aquecia o coração. Na sua mão direita, estendida, parecia segurar uma estranha varinha – um raio de sol.

    O segundo irmão vinha vestido de castanho dourado. Com um fato de folhas douradas pela luz. E na sua mão direita, estendida, trazia um fruto maduro da cor do ouro velho quando lhe dá o Sol.

    E o terceiro irmão era velho e triste. Os cabelos brancos tombavam-lhe pela pele de carneiro que lhe cobria o corpo enregelado.

    Na sua mão direita, estendida, não trazia nada, nada. E a mão tremia de frio. Ou talvez a mão vazia, estremecendo, escondesse um maravilhoso segredo.

    E, por fim, ela, a menina, de cabelos lisos dourados e olhos verdes da cor das ervas tenras dos campos, cantava, segurando na mão direita uma estranha e bela flor.

    E os quatro irmãos, vindos pelos caminhos livres da terra, chegaram a uma montanha, a uma alta montanha perto do Sol.

    Mas quem são estes quatro irmãos tão diferentes? Ides sabê-lo vós mesmos, Amigos.

    Vieram estes quatro irmãos, uns atrás dos outros, devagarinho.

    E, no azul do Céu, o Sol pareceu parar, perguntando assim: – Por aqui? Todos ao mesmo tempo? E o Sol pareceu parar, fitando mais a menina:

    — Tu, e os teus irmãos?

    E redondo e parado, todo estremeceu parecendo zangar-se:

    Por aqui? Por aqui? Todos ao mesmo tempo?

    Então a menina falou:

    — Hoje, Sol nosso Amigo, saímos de nossa casa, que não tem paredes, nem telhado, nem janelas, e viemos aqui à montanha pelos caminhos livres da terra, falando com quem encontramos.

    E acrescentou como se se desculpasse:

    — Nós nunca andamos juntos, mas hoje…

    O Sol estremeceu ainda:

    — Mas o que será feito de vossa Mãe sem que um de vós lhe assista? Três de vós têm de ficar em casa…

    O irmão mais velho, o da mão estendida que parecia vazia, respondeu:

    — A Nossa Mãe-Terra continua a viver. É por pouco tempo que nós andamos assim… Não vês, Sol? Ora escuta… Vê… Voam e cantam os pássaros, correm os rios, vão e vêm as ondas do mar… Os homens trabalham, apitam as fábricas, revolvem-se os campos, vão as crianças para as escolas…

    O Sol, apesar de tudo, inquietou-se:

    — Vejo! Oiço! Mas vocês, vocês os quatro por aqui ao mesmo tempo! Não é costume. Não é bom nem prudente.

    Os quatro irmãos olharam-se. Queriam explicar por que estavam todos ali, vindos da casa sem paredes, sem janelas. Aquela casa onde habitavam os quatro irmãos, estando um sempre na rua, correndo os caminhos livres da Terra.

    Então, o irmão loiro, que parecia um rei antigo e trazia um raio de Sol na mão, resolveu falar:

    — Nossa Mãe mandou-nos os quatro pelos caminhos livres da terra, os quatro ao mesmo tempo, para que disséssemos aos homens que encontrarmos que somos amigos, embora bem diferentes tu nos vejas à tua própria luz. Embora diferentes, somos amigos, sabemos trabalhar para que os homens sejam felizes, tenham pão, flores, alegria…

    Foi nossa Mãe quem nos mandou…

    Os outros três irmãos sorriram, sorriram os três e continuaram de mão direita estendida, estendida, sorrindo. Até o de cabelos brancos, vestido de pele de carneiro, parecia jovem, sorrindo.

    E o Sol, docemente, com um calor todo suave perguntou:

    — Vossa Mãe? Como ela me lembra sempre! Ela que pensa em tudo e em todos! Está muito velha a vossa Mãe?

    Foi a vez de falar o irmão vestido de folhas doiradas, que trazia um fruto maduro na mão direita, estendida:

    — Nossa Mãe tem a idade da vida, da própria vida. Ama-nos a nós os quatro. E ama tudo e todos. Como pode envelhecer quem ama assim?

    E o Sol pensou alto, então:

    — Como tendes razão! Como pode envelhecer quem ama assim!

    E sorrindo, isto é, brilhando mais, falou para os quatro irmãos:

    — Continuai o vosso caminho pelos caminhos livres da terra. Mas não esqueçais que tendes de voltar para a vossa casa que não tem parede, nem telhado, nem uma janela, e um só de vós os quatro andar por fora. O que será da terra sem que um dos quatro irmãos lhe assista!

    E os quatro irmãos apressaram-se a dizer:

    — Tendes razão, Sol. Nós vamos.

    E disseram adeus ao Sol e começaram a caminhar. E foram em direcção ao mar.

    Chegaram junto a uma praia e viram consertando as redes um velho pescador de barbas grisalhas, moreno pelos ventos do mar, pela luz do Sol.

    E o pescador, pressentindo-lhes os passos na areia dourada, ficou-se pensativo com a agulha no ar e perguntou por fim:

    — Quem sois?

    Os quatro irmãos sorriram e outra vez o mais velho respondeu:

    — Tu conheces-nos. O ano inteiro nos conheces aqui nesta praia. Três meses por ano um de nós vem visitar-te. Acompanha-nos o Sol e o Vento, o Frio e a Chuva, a Bonança e a Tempestade. Olha bem para nós!

    Então o velho pescador franziu os olhos já cansados de olharem tantos anos, e sorriu. E falou devagar:

    — Como vos conheço! Sei quando vem cada um de vós, cada irmão por sua vez. Basta-me olhar o brilho das estrelas, o correr das nuvens, o bater do mar. Sei quando chega cada um de vós, deixando os outros irmãos em casa. Mas hoje, hoje vieram todos ao mesmo tempo…

    Os quatro irmãos sorriram. E falou a irmã:

    — Nossa Mãe mandou-nos os quatro pelos caminhos livres da Terra para que disséssemos aos homens que somos amigos, embora tão diferentes. Nós quatro, tu bem o sabes enquanto olhas o mar, como somos amigos. Como sabemos trabalhar para que os homens sejam felizes, tenham pão, flores, alegria.

    E os outros irmãos sorriram, sorriram os outros três, e continuaram com a mão direita estendida, sorrindo. Até o de cabelos brancos, vestido de pele de carneiro, parecia jovem, sorrindo feliz.

    O pescador fixou este com mais força no olhar cansado, e observou-lhe:

    — Tu, às vezes, fazes revolver o Mar, mais do que os teus irmãos agitar a Terra, e nós, pescadores, somos tragados pelas ondas frias.

    O irmão mais velho pareceu agora mais velho, mas sereno respondeu:

    — É assim a lei da vida que me manda experimentar os homens, a sua coragem. Mas o engenho do homem é imenso, a sua coragem, sem fim.

    O pescador sorriu, continuou a consertar a sua rede e pensou alto:

    — As praias batidas pelo mar tornam-se mais belas. A agitação das águas é a vida de milhões de peixes que enchem as nossas redes.

    E a coragem do homem é sem fim, tendes razão…

    E sorria, continuava sorrindo, os olhos, a boca, todo o rosto com suas rugas sorrindo, as próprias mãos pare­cendo sorrir também, trabalhando muito depressa…

    E os quatro Irmãos, três irmãos e uma irmã, caminharam de novo pela areia dourada aquecida pelo Sol.

    E pararam junto de uma árvore onde se abrigava uma doce mulher embalando um filho pequenino que adormecia nos seus braços.

    E a doce mulher cantava:

    Quem tem filhinhos pequenos

    Tem por força de lhes cantar

    Quantas vezes uma mãe canta

    Com vontade de chorar…

    E a mulher, a doce mulher, suspendeu o seu canto e o seu embalo, e perguntou aos quatro irmãos:

    – Quem sois vós?

    E os quatro irmãos sorriram. E respondeu o que se vestia de dourado e trazia um fruto cor de ouro velho na sua mão:

    — Tu conheces-nos. Sabes quando nós chegamos pelo canto dos pássaros, canto mais contente quando eles fazem o ninho na árvore que te dá sombra.

    E continuou:

    — Nossa Mãe mandou-nos pelos caminhos livres da Terra para que disséssemos aos homens que somos amigos, embora tão diferentes. Nós quatro, tu bem o sabes enquanto olhas os campos e o céu embalando o teu menino, como somos amigos. Como sabemos trabalhar para que os homens sejam felizes, tenham pão, flores, alegria.

    Então a doce mulher sorriu, sorriu e falou:

    — Como vos conheço! Sei quando vem cada um de vós pelo canto e pelo voo dos pássaros… Quando eles fazem os ninhos nesta árvore que me dá sombra, quando as flores nascem para me sorrirem por toda a casa, quando posso trincar um fruto como esse que tens na mão, tu irmão das folhas douradas… Mas hoje, hoje, viestes todos ao mesmo tempo… e não vos reconhecia.

    E os quatro irmãos sorriram. E a irmã falou. Falou de mão estendida, com uma bela e estranha flor na sua mão:

    — Foi nossa Mãe quem nos mandou…

    E os quatro irmãos sorriam, os quatro com o braço direito estendido. Até o vestido de pele de carneiro parecia jovem, sorrindo feliz. Então a mulher perguntou:

    — E como está a vossa Mãe, na vossa casa que não tem paredes, nem telhado, nem janelas? Muito velha, não?

    Respondeu o irmão loiro que trazia um raio de Sol na mão estendida:

    — Nossa Mãe tem a idade da vida, da própria vida. Ama-nos a todos. Ama tudo e todos. Cuida de nós todos. De ti, também, e do teu menino que embalas tão docemente. Como pode envelhecer quem ama assim?

    A mulher sorriu, entendendo, sorriu, e depois disse como se pensasse alto:

    — Vocês vieram os quatro ao mesmo tempo pelos caminhos livres da Terra, da vossa casa sem telhado, sem porta e sem janelas, para que o Mundo seja contente, para que todas as mães cantem sem vontade de chorar…

    E ficou-se a sorrir como se dissesse adeus, com uma lágrima sobre o rosto cansado.

    Então os quatro irmãos resolveram voltar a casa.

    Já a Lua no Céu lhes sorria como uma candeia de prata. Alumiava-lhes de mansinho, rodeada de estrelas, o caminho da casa, a casa sem telhado, sem portas e janelas, onde a Mãe os esperava com os dois braços estendidos, sorrindo, parecendo estar muito longe e muito perto.

    E a Mãe, esperando-os, murmurava sorrindo com uma voz cheia de amor:

    — Meus filhos!

    E abraçou-os um a um, devagarinho, com muito amor, lágrimas de felicidade fugindo-lhe pelo rosto enrugado e feliz.

    E os quatro Irmãos entraram sorrindo, com o Sol, a Chuva, o Vento no coração.

    E contaram à Mãe, à sua velha Mãe, o que haviam visto, os quatro ao mesmo tempo, nos caminhos livres da Terra…

    Deixai-os contar, um depressa terá que sair por três meses do Ano – terá de deixar a casa sem porta, sem janelas, sem telhados.

    E se eu vos não digo os nomes destes quatro irmãos , três irmãos e uma irmã, é porque vos quero dar a alegria de os descobrirdes sozinhos, assim como quem descobre quatro segredos que têm um nome só, igual ao de sua Mãe.

    Matilde Rosa Araújo

    Os Quatro Irmãos

    Lisboa, Livros Horizonte, 1983

    Texto adaptado

    Retirado de Verticalizar

    Histórias

    Nos arredores de uma pequena cidade viveu em tempos um homem. Chamava-se Humberto.

    Humberto era um homem simpático, de olhos bondosos e uns óculos muito pequeninos pousados no nariz.

    Os seus caracóis castanhos pareciam a lã de uma ovelha. Morava numa casa velha e torta que se escondia tímida, quase envergonhada, por detrás de um belo jardim. No jardim, num prado verde e florido, havia uma macieira.

    Todas as manhãs, quando se levantava, Humberto maravilhava-se com a beleza da sua árvore. Ao fim da tarde, quando regressava do trabalho, sentava-se durante horas a ver os pássaros na copa da macieira.

    Na verdade, devemos dizer que não é nada aborrecido estar a observar uma árvore. Algumas são verdadeiras artistas da mudança.

    Na Primavera, vestem-se de mantos floridos e estendem os ramos para o calor, enquanto as abelhas laboriosas as procuram em busca de alimento.

    No Verão, oferecem a sua sombra, enquanto o sol brilha com tanta intensidade que faz as pessoas andarem de rostos afogueados.

    No Outono, o vento forte brinca sem descanso com as folhas amarelas, vermelhas e castanhas e espalha-as pelos prados e ruas, até que o Inverno veste a paisagem de um manto branco.

    Quando Humberto se deitava debaixo da macieira, lembrava-se de como costumava trepar por ela acima em criança. Muitas vezes se escondera nos seus ramos, quando a mãe o chamava para almoçar e ele ainda não tinha vontade de voltar para casa.

    Quando Humberto contemplava a sua árvore, sentia uma alegria imensa.

    Acontecia também que as pessoas paravam junto à cerca – uma mãe ou um pai com um filho, por exemplo. Por vezes alguém exclamava:

    — Olha, que bonita!

    Mas a maioria das pessoas passava apressadamente. Parecia que havia muitas coisas urgentes a fazer naquela cidade tão pequena.

    Assim passaram os anos. Humberto ficou mais velho. A cara ficou coberta de rugas. O cabelo ficou, primeiro grisalho, depois branco e, com o tempo, desapareceu como as folhas no Outono. Só a barba continuava a crescer luxuriante, cobrindo-lhe o queixo e descendo pelo pescoço até ao peito.

    Humberto, contudo, continuava feliz, observando horas sem fim a árvore e os pássaros.

    Se apanhava crianças atrevidas a roubar maçãs, limitava-se a rir e gritava:

    — Assim é que elas sabem bem, não é?

    Os miúdos, então, fugiam envergonhados.

    Um dia, contudo, aconteceu uma coisa horrível. Era mais uma vez Outono. O vento forte batia violento nas janelas e fazia as folhas coloridas girar no ar. Das montanhas em redor vieram nuvens carregadas de tempestade. Eram tão negras, sinistras e assustadoras que as pessoas fugiram para casa. Humberto também fechou a janela depois do primeiro trovão, mas ficou a ver o que acontecia, abrigado atrás do vidro.

    Logo começaram a cair grossos pingos de chuva na janela. Depois, abateu-se um chuveiro sobre a pequena cidade, como se alguém muito zangado tivesse aberto a torneira. Entretanto, os relâmpagos riscaram o céu, acompanhados de trovões cada vez mais fortes e ameaçadores. De repente, o coração de Humberto ficou paralisado de susto. Diante dos seus olhos, um raio riscou o céu e caiu sobre a macieira com um estrondo medonho. Ela estalou e gemeu enquanto o tronco se fendia em dois. Depois, a chuva refrescou a ferida.

    A tempestade passou.

    Ali estava a árvore que fora tão bela. Oferecia um aspecto muito triste. Ficara tão retorcida e nodosa como a casa. Uma visão estranha. O tronco tinha uma cicatriz que ia até às raízes poderosas.

    — Isso dói — disse Humberto à árvore, dando-lhe uma palmadinha afectuosa. A árvore suspirou baixinho.

    E, se as pessoas soubessem que as árvores também choram, talvez Humberto tivesse reparado nas gotas que havia na casca da macieira.

    A Primavera seguinte foi quente e cheia de sol. O canto dos pássaros era uma maravilha. As flores cresciam por toda a parte. Só a árvore continuava retorcida, nodosa e triste. Algumas folhas pequeninas tinham nascido e havia algumas flores em redor das quais as abelhas se atarefavam.

    Mas, embora se esforçasse, a pobre árvore já não tinha forças para florir como no passado. Ainda tinha dores, quando o tempo mudava ou o sol lhe queimava o tronco. Mas isso não era o pior. Ultimamente, as pessoas paravam outra vez a olhar para ela. Sem coração, miravam-na e chamavam-lhe “feia” e “nódoa”.

    — Aquilo devia ser cortado — tinha dito uma mulher, e um homem respondera que aquele era um bom local para um parque de estacionamento ou, pelo menos, para um relvado agradável, se a árvore não estivesse lá.

    A árvore ficava cada vez mais triste. As lágrimas corriam pelos novos rebentos, tornando-os cada vez mais fracos.

    Humberto irritava-se com os comentários das pessoas. Gostava da árvore tal como ela era. Observava as aves a esvoaçar nos ramos e, à noitinha, dava-lhe palmadinhas no tronco.

    — Fora daqui! — gritava furioso, perseguindo com uma vassoura as pessoas pasmadas e surpreendidas.

    No entanto, não servia de nada. Apareciam sempre outras pessoas com comentários desagradáveis.

    Um dia, montou na sua bicicleta ferrugenta. Os vizinhos ficaram espantados com o sorriso que ostentava no rosto. Algumas horas mais tarde, regressou carregado. Foi a correr ao barracão buscar uma pá e começou a cavar energicamente junto ao tronco da macieira. Só parou quando já tinha uma cova bem funda. Aí plantou uma pequena macieira delicada, que mal lhe chegava à altura da barba. “Assim, pelo menos, vamos ficar livres daquela árvore,” pensaram as pessoas.

    Mas Humberto sorriu malicioso, cobriu as raízes da macieira com terra, regou-a muito bem e foi arrumar a pá.

    Passaram muitos anos. Primaveras, Verões, Outonos e Invernos, uns atrás dos outros. Humberto transformara-se num velho curvado, que se sentava satisfeito à janela. A pequena macieira crescera tanto e estava tão carregada de frutos que Humberto não conseguia comê-los todos sozinho. A velha árvore retorcida continuava no jardim. Protegida pelos ramos da árvore jovem, vivia sossegada e contente.

    Bastavam-lhe as poucas folhas e rebentos que corajosamente produzia todas as Primaveras. Sorria secretamente sempre que uma criança roubava uma das suas maçãs, que já há alguns anos eram enrugadas e pequenas. As pessoas continuavam a passar apressadamente, tratando da sua vida. Já ninguém ligava às duas árvores. Contudo, de vez em quando, alguém parava e contemplava-as com satisfação.

    Numa tarde de Outono, a árvore sentiu inesperadamente o toque familiar de uma mão. O velho Humberto caminhara silenciosamente até ela e murmurara-lhe qualquer coisa. A árvore acenara em resposta.

    Também tinha sentido. O ar cheirava a neve. O Inverno estava à porta. Era tempo de repousar.

    Enquanto os primeiros flocos de neve dançavam na janela e Humberto estava deitado na cama, a árvore, lá fora, também adormeceu.

    E assim, dormindo sossegados, ambos sonhavam com a Primavera.

    Bruno Hächler
    Humberto e a Macieira
    Porto, Ambar, 2000
    adaptação

    O Bosque Mágico

    Havia em certo bosquezinho da Terra um reino encantado onde reinavam dois reis muito simpáticos.

    Era no tempo em que os homens ainda não tinham conquistado tudo e atravessado tudo com as suas auto-estradas, os seus postes de electricidade e até o próprio céu com os riscos brancos dos seus aviões supersónicos.

    Naquele bosquezinho não se ouvia outro barulho que não fosse o toque-toque do picapau no tronco do carvalho, o canto da toutinegra tagarela, ou então a canção do vento, solene e grave, por entre a ramaria das árvores.

    Que paz, que abençoado sossego! Ali, todos os bichinhos viviam felizes, em boa harmonia uns com os outros, graças aos dois reis simpáticos que reinavam cada qual por sua vez, um durante o dia, outro durante a noite. Um era louro, de carinha rosada, olhos azuis, cabelos encaracolados e luminosos como o nascer do Sol. Chamava-se Antalcitor. O outro era moreno, de face pálida (mas viçosa como uma camélia branca), olhos negros (mas transparentes como a fonte à sombra). Chamava-se Galaor.

    Faço muito empenho em dizer-lhes os nomes, principalmente por serem os nomes deles e ninguém lhos poder mudar. Teria sido igualmente prático chamar-lhes Louro e Moreno. Mas isso são apelidos de gente, e Antalcidor e o seu amigo Galaor eram ambos geniozinhos. Geniozinho do dia e geniozinho da noite. Vou tentar contar-lhes agora exactamente como as coisas se passavam.

    Realmente não podia ser mais simples. Assim que a madrugada fazia empalidecer a noite lá no extremo do Atalho Maior, assim que a cotovia soltava o seu primeiro trinado, Antalcidor aparecia ao longe, no limite do bosquezinho.

    Tinha o aspecto de um belo rapaz de dezasseis anos, mas que não tivesse mais de três palmos de altura, quando muito. Vestido de cetim cor-de-rosa, seda branca e fitas azuis, fina espada de prata, um salpico de oiro na gravatinha e na fivela do cinto, brilhava como um pedacinho de céu sob o túnel da folhagem.

    Mal tocava com os pés na relva. Mas não tinha pressas; aqui, dava lustro a uma folha de junquilho, além, cheirava uma primavera. De vez em quando parava, olhava para a direita, para a esquerda, batia as palmas e cantarolava uma cantiga de geniozinho, a   canção  matinal  do render da guarda:

    A pé! A pé! É já manhã!

    O meu reinado principia.

    O rei da Noite adormeceu;

    P’ra o seu lugar aqui estou eu,

    Antalcidor, o rei do Dia.

    E lá ia, de narizito no ar, só interrompendo a cançoneta para dar gargalhadas e ordens:

    — Salta, esquilo! Do pinheiro para o bordo, patas esticadas, cauda bem desfraldada! Apoia-te no vento que passa! E tu, ó toutinegra? Porque esperas, tagarela? Põe-te a tagarelar! E tu, ó pica-pau? Onde tens o gorro verde e encarnado? Pica, pica-pau! E tu, ó pombo azul? Arrulha! E tu, melro preto? Assobia!

    E batia as palmas, despertando a ervinha e a flor, o primeiro sopro da aragem da madrugada, a gota de orvalho poisada numa folha, a tagarelice da toutinegra, o arrulho do pombo azul, o toque-toque do picapau no tronco do carvalho e o trinado alegre do melro.

    — És tu, Antalcidor? Estou a dormir.

    — Já?

    — Ou quase… Já são boas horas de chegares.

    Sem forças, semicerrando as pálpebras de pestanas escuras, Galaor acolhia o recém-chegado. Era sempre à mesma hora, debaixo da árvore mais linda do bosque, num sítio que se chamava Coração-de-Estrela, porque ali vinham dar todos os caminhos e atalhos.

    A árvore de Coração-de-Estrela erguia-se exactamente ao centro, tanto assim que se via de toda a parte, enorme, gigantesca, cobrindo a clareira com a sua copa sussurrante e frondosa.

    Era um bordo, de casca prateada, cujas raízes tinham levantado a terra, formando um pequeno montículo coberto de musgo. O palácio real ficava aí, entre duas dessas raízes, enormes, nodosas, mas tão suavemente arqueadas que nenhuma casa humana poderia ser tão sólida e agradável, nem tão sumptuosa nem tão bela.

    Não havia tecido algum, de brocado ou damasco, que pudesse rivalizar com o musgo espesso e cheio de reflexos doirados. O luzidio das raízes brilhava como couro de Córdova. A neblina da madrugada e a neblina do entardecer suspendiam graciosos cortinados mais transparentes que a mais fina cambraia.

    Aranhas tecedeiras entrelaçavam os fios, armadilhas para o orvalho de pérolas tremulantes porque nenhum insecto ali caía.

    Não havia nada mais macio nem mais fofo que o chapéu dos cogumelos novos, aqueles que se chamavam boletos-pão-de-ló. Nunca houve rei dos homens que se sentasse em trono almofadado mais fofo, de tom mais rico e mais quente que o trono-cogumelo, o trono-boleto-pão-de-ló, em cima do qual os geniozinhos do bosque se sentavam.

    Nunca ambos ao mesmo tempo, já se sabe. Assim que Antalcidor aparecia, Galaor levantava-se para se ir embora. Mal tinham tempo para trocar os bons-dias.

    O geniozinho da noite piscava os olhos, bocejava, sacudia o veludo negro do gibão.

    Debruçado sobre a corola de uma flor, bebia o orvalho da manhã.

    — Está tudo em ordem? — perguntava Antalcidor.

    — Tudo em ordem.

    — Até logo à noite?

    — Até logo à noite — respondia Galaor. — Ao primeiro voo do noitibó.

    E partia imediatamente. Nunca se soube para onde. Deviam descansar em qualquer sítio, lá para os limites do bosque, num outro palácio desconhecido, esse absolutamente secreto. Nem sequer me sinto no direito de falar nele.

    Chegado o momento, o geniozinho reinante via apa­recer o seu amigo, sempre lá ao fundo do Atalho Maior. Acolhia-o no palácio real, entre as raízes do grande bordo, cedia-lhe amavelmente o trono, bebia da corola de uma flor alguns goles de água perfumada e desaparecia durante doze horas: um até ao nascer do dia, o outro até ao cair da noite.

    Era assim que as coisas corriam. Não podia estar tudo melhor combinado. Nunca havia arrelias, nunca havia discussões, nunca havia sarilhos, como se costuma dizer. E a verdade é que não haveria a mais pequena história a contar, a não ser uma história sem complicações (mas, apesar de tudo, linda como um galopar de corça ou um voo de andorinha) se…

    Aconteceu tudo por culpa do besouro, da espécie isca-riscada, pesado e peludo. Não era um besouro mau; apenas demasiadamente zumbidor como todos os besouros do mundo; mas, além disso, muito cheio de si e de melindres.

    Era de dia, um dia igual a todos os outros, calmo e primaveril (naquele bosque estava-se sempre na Primavera) com bocadinhos de céu azul que passavam pelo intervalo das folhas, canções de pássaros de que já falei (esquecia-me da felosa, de penas verdes) e uma borboleta da urtiga, magnífica, que batia as asas devagarinho em cima de um joelho de Antalcidor. E havia também o besouro, infelizmente!

    Chegou numa réstia de sol, foi de encontro ao tronco do bordo, fez «bzzim!», saltou, foi de encontro à testa do geniozinho, fez «bzzum!», saltou outra vez, andou à roda da borboleta da urtiga, rodopiou, zumbiu, fez voar a borboleta, bateu de encontro a tudo, com as asas a vibrar tanto tempo e com tanta força que não havia mais nada a fazer senão tapar os ouvidos, enquanto aquele zumbido besourante, buzinante, rodopiante, enchia o palácio com as suas voltas e reviravoltas, os seus tombos e a sua desenfreada loucura.

    — Vai-te embora, besouro! — disse Antalcidor severamente.

    — Que foi que eu fiz? — choramingou o besouro, sempre a girar. — Eu vinha da chapa do sol, a sombra cegou-me… Por isso é que bati com a cabeça. Magoei-me mais do que julgas: as paredes do teu palácio são duras.

    — E a tua cabeça também — disse o geniozinho. — Nem se imagina! Fiquei com um galo na testa… Vai-te embora, besouro!

    E curvou-se para agarrar na sua erva de S. Tiago, uma grande tasneirinha de flores douradas como estrelas, que lhe servia de varinha mágica.

    — Uma vez… Duas vezes… Vou dizer três…

    E, de repente, fez-se silêncio: nem barulho, nem besouro. À ordem do geniozinho cor-de-rosa, o raio de Sol levou-o tão depressa como o trouxera. Muito descontente, furioso, ressentido. Mas o simpático Antalcidor nem dá por isso. Está nesse momento a ouvir trinar a cotovia. A borboleta voltou a poisar-lhe no joelho. E o dia bonito recupera a calma sob o olhar do rei geniozinho.

    A alegria brilha de novo nos seus olhos, uma grande alegria feita de amizade por tudo o que o rodeia: o ar puro, as árvores, os tufos de erva, os animais inocentes, os que ele vê e os que não vê mas sabe estarem ali, cada qual no seu lugar naquele pequeno reino florestal — os animais nocturnos que esperam por Galaor, adormecidos na toca, num buraco de árvore; os grandes que nunca se aproximam, por amabilidade, para não assustarem um geniozinho tão simpático, tão pequenininho. Mas também esses — o cabrito-montês, o veado velho, o javali — se sentem satisfeitos com o seu reizinho, com a boa ordem que reina no mundo, com uma harmonia que nem sequer é perturbada pelo voo tonto de um besourão.

    Deste modo, Antalcidor continua o lindo sonho acordado que se repete todas as manhãs. Sente-se digno da confiança que nele e em Galaor deposita o Grande Rei dos geniozinhos.

    Diz de si para consigo: «Não sei o que se passa durante a noite. Mas de dia, mesmo assim, vai indo tudo bem. Ah! Não tenho nisso grande merecimento: basta uma chamadazinha à ordem, lá de vez em quando. Nem sequer é preciso empunhar a minha erva de S. Tiago. O meu povo é bem-educado, obediente…»

    — Hihi! — canta uma voz estridente. — Hihi!

    — Que foi isto? — murmura o reizinho. — Quem está a fazer troça? Quem tem semelhante atrevimento? Estarei a sonhar alto?… Ah, bom, é simplesmente o pica-pau que muda de árvore. O principal é que continue a bater… Bate, bate, pica-pau!

    Imediatamente o bico do pica-pau recomeça a bater noutro carvalho. Um leirão, sem ruído, parece cair de uma faia, passa mesmo junto aos pés de Antalcidor, segurando na boca um fruto. «Picapau no carvalho — diz consigo o geniozinho — leirão na faia, está tudo certo.»

    E põe-se a cantarolar, por brincadeira, a lengalenga para uso dos reis-geniozinhos:

    Leirão na faia

    Búzio na praia

    Picapau no carvalho

    Mosca no bugalho

    Rata no trigo

    Vaca no pascigo

    Carraça no cão

    Pulga no colchão

    Pega no ninho

    Toupeira no buraquinho

    Burro no palheiro

    Galinha no poleiro

    Corça na floresta

    Lebre na giesta

    Cabra no rebanho

    Lontra no banho

    Castanha no ouriço

    Abelha no cortiço

    E assim, durante muito tempo, sem um esquecimento, sem um engano, sem errar uma sílaba sequer e também sem tomar fôlego (de contrário, perde-se)

    …Porco na lavadura

    Cotovia na altura!

    termina finalmente Antalcidor. «Uff!…» E respira fundo, satisfeito por ter ganho e por poder dizer que mais uma vez ficará descansado durante todo o dia, mais um lindo dia sem complicações.

    Isso é o que ele julga, o ingénuo do Antalcidor! Esqueceu-se completamente do besouro, do besourão, tão cheio de melindres e ressentimentos, que foi enxotado e humilhado, e que naquele mesmo instante…

    Que andará ele a fazer, esse tal besouro às riscas? Julgar-se-ia que voa inocentemente de flor em flor e que também já se esqueceu de tudo.

    Mas então porque se esconderá ele, ao passar do sol para a sombra, com a sua gorda barriga dourada às riscas pretas? Por que motivo voará na ponta das asas, de mansinho, de mansinho, desejoso pela primeira vez de passar despercebido, ele que adora ouvir o seu próprio zumbido de besouro zumbidor?

    Vai e vem, seguindo sempre o mesmo percurso diante da porta do palácio, sempre da mesma flor para a mesma flor. Há muitas em Coração-de-Estrela, as mais lindas de todo o bosque.

    Mas aquelas duas são as mais bonitas de todas: uma erva-pombinha azul-pálida, cor do céu quando a tarde lhe apaga a cor, e uma campainha, também azul, mas luminosa como a manhã. (Na língua dos geniozinhos, a primeira chama-se Colombina e a segunda Bellflower, o que quer dizer, segundo parece, Sinoflor).

    Deste modo, voa o besouro e torna a voar, de Colombina para Sinoflor e de Sinoflor para Colombina, sem descanso, sem barulho, enquanto Antalcidor sorri e não dá por coisa alguma.

    O dia vai morrendo, resvalando devagarinho para a noite. E a hora a que o geniozinho do dia, como de costume, principia a olhar para as bandas do Atalho Maior, lá no extremo do túnel frondoso, onde daí a pouco, vestido de veludo negro, igualmente encantador, com três palmos de altura igualmente, vai aparecer o geniozinho da noite.

    Ali vem ele, o pontual Galaor, recortando a delicada silhueta no horizonte que escurece. Por cima do seu ombro já brilha a Estrela Vésper. Antalcidor vê-o chegar e o seu coração afectuoso enternece-se:

    — Que bom amigo! Que simpático rei! Como será que ele se governa, às escuras, no meio de todos aqueles bichos inquietantes?… Ah, lá vem o noitibó. Nem sequer se ouve voar. Não gosto disto… Despacha-te, Galaor!

    Finalmente, ouve sob os ramos a voz clara do outro geniozinho. É a canção do render da guarda da noite, evidentemente:

    A pé! A pé! Escondeu-se o Sol.

    Estrelas de prata vão brilhar.

    Acordai vós, povo nocturno,

    Chegou agora o nosso turno!

    Antalcidor pode ir sonhar.

    Antalcidor boceja e sorri.

    — Tudo em ordem? — pergunta o recém-chegado.

    — Tudo em ordem.

    — Até amanhã?

    — Até amanhã — responde Antalcidor. — Ao primeiro trinado da cotovia.

    E acrescenta, espreguiçando-se:

    — Tenho tanto sono! Nem vale a pena esta noite beber a água de Sinoflor.

    — Oh, desgraçado! Não deixes de fazer semelhante coisa! — protesta Galaor com um ligeiro arrepio.

    — Descansa! — sossega-o o amigo. — Como havemos de fazer respeitar as leis, se nós próprios as não cumprimos?

    E, transpondo o limiar musgoso, inclina-se para Sinoflor, bebe a água fresca do relento no fundo da corola e afasta-se pelo Atalho Maior para alcançar o palácio secreto.

    Nem ele nem Galaor ouviram crepitar um pequeno rumor de asas junto do pé da Campainha. Era o besouro escondido na relva que vira o geniozinho do dia a beber e que não pudera conter a sua satisfação.

    Porquê? Esperem pelo resto da história.

    Portanto, aí temos Galaor instalado, empoleirado em cima do seu trono-cogumelo. Aí o temos a bater as palmas e a dar as suas ordens para essa noite:

    — Morcego, esvoaça e entrelaça!… Mostra os teus grandes olhos, coruja!… Família ouriço, cá para fora! Saiam todos debaixo do silvado!… Tu, sapo do luar, faz tilintar a tua bigorna!…

    E tudo se faz como ele manda: a coruja acende os olhos dourados; o morcego e o noitibó entrelaçam os seus voos caprichosos; os ouriços em correnteza, o papá adiante, a mamã atrás, os meninos ouriços por ordem de tamanho, revolvem com o focinho as folhas secas; e o sapo da fonte, invisível na neblina leve, faz tilintar a sua bigorna de cristal.

    «Perfeito, perfeito! — pensa Galaor. — Não sei o que se passa durante o dia e como será que Antalcidor se governa com todos aqueles bichos turbulentos. Mas, ainda assim, durante a noite, vai indo tudo bem. O meu povo é dócil e sossegado. Que belas horas passadas na escuridão dos bosques, profunda e suave, mais aveludada que o veludo do meu gibão!»

    Pelo intervalo dos ramos olha as estrelas girando. A seus pés, um pirilampo brilha na relva como uma esmeralda; depois outro, depois uma centena deles, em correnteza.

    Movendo as mãos no escuro, Galaor desenha em redor longas curvas cadenciadas: a fila dos pirilampos alinha ao gesto das suas mãos, e continua a brilhar a toda a largura do palácio como uma grinalda de fogo de artifício. Um grilo estridula baixinho. A pequena bigorna do sapo parece bater ao ritmo da sua límpida canção.

    E Galaor baloiça-se no trono, cantarolando a meia-voz o estribilho-lengalenga dos geniozinhos, exactamente o mesmo que Antalcidor cantava, tão depressa como o geniozinho do dia, tal como ele, sem hesitar e também sem tomar fôlego:

    Leirão na faia

    Búzio na praia

    Picapau no carvalho

    Mosca no bugalho

    e por aí fora, até … Cotovia na altura!

    — Uff! — suspira por fim. — Ganhei. Esperemos sossegadamente pela cotovia.

    Falou apenas para si. Mas alguém o ouviu. Quem? Ora… o malvado besouro, escondido agora debaixo de Colombina. Está radiante, esfrega as patorras e pensa, recozendo o seu ressentimento: «Sim, meu amigo, esperemos pela cotovia! Quando ela cantar, é que eu me vou rir!»

    A um e um apagam-se os pirilampos. A uma e uma apagam-se as estrelas. O grilo e o sapo calam-se. Ao fim do Atalho Maior o céu torna-se cor-de-rosa. Galaor, um pouco entorpecido, pensa já no rico soninho que irá fazer, durante o dia inteiro, no palácio secreto!

    — Nem me valia a pena também beber a água da minha flor — diz de si para si. — Mas, Deus me livre! A lei é lei:

    Água de Sinoflor para Antalcidor:

    Vai ele dormir quando a coruja pia

    Colombina guarda para Galaor

    A água que dá o sono de dia.

    E afinal — acrescenta sorrindo — a flor mais bonita e a água mais deliciosa são as minhas:

    Podes tocar e tilintar

    Até cansar, ó Campainha.

    A minha flor é só aquela,

    A que entre as mais é a mais bela

    Das flores azuis: a Erva-Pombinha.

    Levanta-se, dirige-se lentamente para Colombina, inclina-se sobre a sua corola funda e bebe a grandes sorvos o orvalho da madrugada.

    Que fresquinho! E, no entanto, parece-lhe mais perfumado, mais estonteante que nas outras manhãs. Mais um golinho, mais outro… Que aconteceu a Antalcidor? Já cá devia estar. O dia cresce. É a cotovia a cantar?… É ela, é. O seu trinado aproxima-se, ecoa nos limites do bosque, mesmo no extremo do Atalho Maior. Mas é inutilmente que Galaor fita o buraquinho de luz que brilha lá ao fundo, sob o túnel dos ramos: ninguém. Nem sombra de geniozinho.

    A claridade agora alastra por todo o lado; largos pingos de luz inundam Coração-de-Estrela. O pombo azul arrulha no bordo. Uma labareda ruiva atravessa o ar numa pirueta, desenrolando uma cauda comprida e felpuda. E Galaor estremece, ele que nunca viu um esquilo, diante daquele bicho peludo que voa tão leve como um pássaro.

    — Antalcidor! Antalcidor! — chama ele.

    Em seu redor tudo se agita, estremece, resfolga, pia e chilreia. Grandes aranhas pançudas baloiçam-se na ponta do fio. Zumbem abelhas, tirando o pólen de flor em flor.

    — Antalcidor! — continua a chamar o pobre abandonado.

    Mas inutilmente. Nem rasto de Antalcidor. E de minuto a minuto a desordem aumenta. Gaios pairam, pegas brigam furiosamente na ramaria do próprio bordo. Que horríveis gritos! A luz do Sol tremelica, cada vez mais deslumbrante. E Galaor, perdendo a cabeça, geme: — Já não vejo nada! Tenho os ouvidos estoirados!… Ai, ai! Que irá acontecer?

    Que é feito do bom silêncio nocturno, tão puro, em que guisalhava o cantar do grilo, em que tilintava em pancadas límpidas a pequena bigorna do sapo? Que é feito da obscuridade sedosa e fresca, semitransparente, que reinava em Coração-de-Estrela? Tudo é cru, brutal e agressivo. O pobre geniozinho tapa inutilmente os olhos com as mãos; vê grandes círculos a girar: vermelhos, verdes, roxos, novamente vermelhos. Pela última vez, com a voz a tremer, quase a chorar, chama:

    — Antalcidor! Geniozinho do dia! Meu bom amigo, meu irmão, acode-me!…

    Mas ninguém lhe responde, a não ser a gritaria das pegas e as gargalhadas trocistas dos gaios.

    — Dormir! Dormir! — suspira Galaor. — Há uma hora pelo menos que eu devia estar a dormir…

    Ao pensar nisso, o seu desânimo e o seu medo aumentam. Não é só o amigo que o abandona, mas, pela primeira vez na sua vida, está acordado em pleno dia; e não só acordado, mas sem sono; sem sono absolutamente nenhum.

    Deixa o trono, desta vez dando um salto, e corre para a erva-pombinha:

    — Ó Colombina, também tu serás capaz de me atraiçoar? Eu quero dormir…

    Inclinado sobre a corola azul-pálida, mergulha nela o rosto afogueado. Mal restam, lá muito no fundo, umas raras gotas de orvalho.

    Bebe-as sofregamente, de olhos fechados, à espera de sentir aquela comichão nas pálpebras a que os meninos chamam o João-Pestana. Mas, pelo contrário, os olhos abrem-se-lhe ainda mais, o sangue corre-lhe mais depressa nas veias. Porquê? Porquê? É tão profundo o seu espanto que repete em voz alta:

    — Porquê?

    — Eu cá sssei! Sssei assim!…

    — Quem está a falar?

    — Sssim, a sssério! De vvverdade, de vvverdade!

    «Aquilo» rodopia-lhe em torno da cabeça, pela direita, pela esquerda, às reviravoltas, aos tombos. Olha, e não vê nada. Agita a mão no ar. Mas que bicho diurno será aquele que está ao mesmo tempo em todo o lado e em todo o lado é invisível?

    — Quem és tu? Fala, bicho voador.

    — Sou o besouro, sou o besouro! — zumbe a voz redemoinhante. — Dormir? Ah! Ah! Zzta! Nesta fffloresta nem sssono nem sssesta! Nenhum nenhum nenhum nenhum…

    — Mas porquê? — suplica o pobre geniozinho. — Se sabes, diz.

    — Porrrque sssim — ronca o besouro.

    E, com uma batidela de asas, desaparece em pleno sol que ilumina a clareira.

    Por toda a parte, em volta de Galaor, reinam a algazarra e a confusão. Àqueles pios, àqueles guinchos, àqueles apitos, àquela desafinação horrorosa é que o geniozinho do dia chama canto dos passarinhos? Não há uma voz que afine com outra; estridulam, fazem surriada, assobiam, interrompem-se umas às outras para suplício de um geniozinho que tem os ouvidos delicados e que tanto desejava dormir!

    Ei-lo novamente em cima do trono-cogumelo, no sítio mais macio do belo acolchoado castanho. Embala-se a si próprio, cantarolando baixinho para acalmar: «Fecha os teus olhos, o dia é de oiro…» Essa agora! Não há meio. O dia é de fogo, não é de oiro! Toda a vegetação flameja através das cortinas transparentes que as aranhas teceram.

    — Mandrionas! — grita-lhes Galaor. — Façam-me sombra, suas grandes barrigudas! Quero uns cortinados bem espessos!

    Mas as aranhas reboludas, suspensas do centro da teia, com as suas oito patas muito afastadas, dormem regaladas ao sol.

    De cada vez que Galaor grita, dão apenas um leve estremeçãozito, como nós damos às vezes a sonhar, e ficam outra vez imóveis. Sabem lá porventura quem é Galaor? E Galaor sabe-lhes porventura o nome?

    Os seus gritos não têm nada a ver com elas.

    O desgraçado Galaor está sozinho, de olhos abertos ao meio-dia, apesar do orvalho que bebeu da corola de Colombina, essa água que faz adormecer durante o dia, a água maravilhosa do geniozinho da noite.

    Chora, desesperado. A pluma de avestruz do gorro pende-lhe, caída em frente do nariz. Endireita-a com uma sacudidela da cabeça, subitamente furioso. De pé, entre as raízes do bordo, muito teso, muito encarnado, ele, habitualmente tão pálido, barafusta para todos os lados ao mesmo tempo:

    — Insuportáveis bichos! Silêncio! Estou farto de tudo isto! Como te chamas tu, ó lá de cima, o do focinho aguçado, orelhas em bico e rabo vermelho? Tu, sim, tu que tens quatro patas e voas como os pássaros. E tu, ó pássaro cor da noite, donde foi que saíste? Preto como és, devias pertencer ao meu povo, e não te conheço. Ah! Mas o bico atraiçoa-te, esse teu bico cor de sol.

    Assim interpelado, o melro solta um longo assobio trocista:

    — Rrridículo! Co’a breca! Rrridículo!

    E do cocuruto do bordo, o esquilo Rabo Vermelho precipita-se de escantilhão, de ramo em ramo, dá voltas e reviravoltas em redor do tronco, ora pela direita ora pela esquerda, mostrando de cada vez o focinho, e com a patinha faz a Galaor a gaifona mais atrevida deste mundo:

    — Não vales nada! Nada! Três vezes nada!

    Um bando de chapins com as penas azuis e amarelas todas despenteadas rodeia-o numa sarabanda de asas que lhe tira o fôlego e a voz.

    — Quem governa! Quem governa aqui?

    — Tu, não! Tu, não! — resmunga outra vez o esquilo.

    Galaor, recuando entre as raízes do bordo, cai em cima do trono-cogumelo. De propósito, vira as costas à clareira. Aos poucos e poucos o coração sossega-lhe. Procura recuperar a serenidade.

    — Vamos lá pensar — diz ele, para ganhar coragem. — Vamos a recuperar o sangue-frio. Já que Antalcidor desertou, já que o mundo está de pernas para o ar, sou eu, Galaor, quem tem de reinar, seja dia ou seja noite. Preciso de restabelecer a ordem e a disciplina e entregar ao meu colega, quando ele finalmente se dignar aparecer, um bosquezinho digno de nós ambos, um reino encantador e feliz. Vamos lá a isto.

    Lembra-se de que todas as manhãs, quando Antalcidor chegava pelo Atalho Maior, vinha sempre a bater as palmas, disparando alegremente as suas ordens. Quais serão as ordens do geniozinho do dia? Era preciso descobrir as mesmas palavras e dizê-las da mesma maneira decidida e alegre. Galaor agarra a cabeça com as mãos, faz um esforço enorme para se lembrar ao menos de algumas das palavras mágicas.

    — Ai, é muito difícil! Todos os dias ao amanhecer o sono me vencia, sem eu querer; era no meio dessa espécie de nevoeiro que eu ouvia Antalcidor. Mais um bocadinho: está quase… Coragem, aí estão elas! Está quase… está quase… Portem-se como deve ser, seus desobedientes!

    Galaor ergue a cabeça de repente, bate as palmas. A sua voz ecoa através de Coração-de-Estrela, voa ao longo dos atalhos, dos carreiros, pelo bosque inteiro…

    — Salta, cabrito, do pinheiro para o bordo! Apoia-te no vento que passa! E tu, cotovia, onde tens o gorro encarnado e verde? E tu, ó melro azul, porque esperas? Esvoaça e entrelaça! Não, não é nada disto… Pica, pica!… Também não é assim! Estou bem arranjado!

    Depois de uns momentos de surpresa, as gargalhadas e a surriada desencadeiam-se.

    Um grande cabrito montês, de ventas abertas, pula nas quatro patas como se voasse sobre Coração-de-Estrela, encolhe-se e rebola pelo musgo, levanta-se e desaparece aos pinotes, assoprando.

    — Está maluco! Completamente maluco!

    — Huhuuh! — assobia o vento que passa. — Como é que eu podia levantar ao ar um cabrito montês?… Está maluco!

    — Bebeu demais? Bebeu demais? — trina a cotovia. — O meu gorro encarnado?… A minha poupa! A minha poupa!

    — Silêncio! — explode Galaor. — Voltem todos pára casa. Todos, ouvem bem? Fiquem lá escondidos até à noite!

    A voz engasga-se-lhe. As palmas das mãos ardem-lhe de as bater com tanta força.

    Mas cada vez sente maior medo diante da agitação terrível que causou sem querer.

    De todos os lados surgem bichos que voam, que saltam, que rebolam, enrolando e desenrolando, através de Coração-de-Estrela, uma farândola fantástica. Coelhos, faisões, lebres da floresta, grandes moscardos tigrados de olhos avermelhados, doninhas ondulantes e amarelas, ágeis lagartos couraçados de esmeralda, saem de cada atalho, de cada pedra, dos troncos das árvores e da espessura da folhagem. E Galaor torce agora as mãos. E suplica com a voz a tremer:

    — Deixem-me, eu não lhes fiz nada! Sou apenas um geniozinho, um bom geniozinho da noite… Ui! Brr! Misericórdia, excelentíssimo senhor! Piedade!

    É que um enorme javali, de pêlo eriçado, labaredas a bailar nos olhos roxos, os dentes brancos em riste, atravessados na tromba preta, fita-o, mete a cabeça por entre as raízes do bordo… Felizmente a cabeça é grande demais para passar. O javali assopra ruidosamente, torce e retorce o rabo; por fim, grunhindo e aos saltos, retira-se a trote ligeiro.

    Galaor está quase desmaiado. Meio inconsciente, balbucia como último recurso as palavras da lengalenga mágica. Mas engana-se outra vez, coitado, mistura tudo, baralha e emaranha tudo:

    Burro no ninho  

    Corça no buraquinho 

    Picapau no colchão  

    Ai que confusão!

    Lebre no poleiro.

    Não é nada disso!

    Vaca no cortiço.

    Não é bem assim!

    Quem se ri de mim?

    Riem os bichos todos; e ri o vento na folhagem, riem as moscas nas réstias de sol, as aranhas no meio da teia, o bosque inteiro desde a terra até ao céu.

    Mas quem ri com mais gosto, quem continua através da clareira nos seus rodopios, nos seus tombos, com os seus bzzzs, os seus tzzzs? Quem, senão o besouro, o besouro isca-riscado?

    Daí por diante, Galaor cala-se. Desiste. Só tem um pensamento, um único desejo: chegar finalmente ao entardecer daquele dia medonho, esquecer aquela desordem escandalosa, aquela sarabanda descarada, que o faz morrer de vergonha.

    Adormeceu finalmente? Passou apenas pelo sono? Estremece, repara que o sol ofuscante filtra agora por debaixo dos ramos uma luz oblíqua e dourada. A algazarra acalmou um pouco. Até que enfim! Até que enfim que lhe chega deliciosamente aos ouvidos uma canção vinda do Atalho Maior:

    De pé! De pé! Já é manhã!

    O meu reinado principia…

    Não é verdade. Não é manhã. É noite. Mas, graças a Deus, mesmo que Antalcidor divague, é a sua voz que realmente soa, que se aproxima. E é realmente ele que aparece ao cair da noite, no fim da clareira, vestido de cetim cor-de-rosa e seda branca, pimpante, elegante, de espadinha de prata ao lado.

    Galaor boceja, procura sorrir, murmurar o cumprimento do costume e, de repente, cai como um chumbo no fundo de um sono sem margens.

    Antalcidor vê o corpo de Galaor dobrar-se, oscilar à beirinha do trono e escorregar inerte para cima do musgo. Alarma-se, corre, chama:

    — Galaor! Galaor!

    Mas é em vão. Curvado agora sobre o amigo, sacode-o, suplica-lhe desvairadamente:

    — Responde-me! Acorda! Não vês que a noite vem a chegar?… Que hei-de eu fazer, que será de mim sem ti?

    Para ele também o mundo está do avesso. Continua a falar, a explicar:

    — Perdoa-me; a culpa não foi minha. Não acordei; estive a dormir no palácio secreto até ao entardecer. Como se… Como se tivesse bebido na corola de Sinoflor a tua água que faz dormir de dia. Deitei a correr! A correr! E agora que vai a escurecer, és tu quem dorme, dorme, dorme, como se… Estás a ouvir-me, Galaor? Como se tivesses bebido na corola de Colombina a minha água que faz dormir de noite.

    Galaor não responde: dorme. A sombra adensa-se. Os olhos enormes da coruja acendem-se à entrada do palácio. O morcego passa e torna a passar, batendo com o vento frio das asas na cara de Antalcidor.

    Os finos cabelos loiros deste eriçam-se, a voz gela-lhe nos lábios. Ah! Que é aquilo? Diante dele, a poucos passos, as folhas do silvado chiam. Quem vem lá? Quem passa assim nas trevas em fila indiana interminável? Qualquer coisa raspa-lhe a perna. Estende a mão, mas retira-a logo soltando um grito: «aquilo» picava como um milhar de picos cerrados!

    Ao ouvir o grito, outra criatura salta e vem cair-lhe pesada­mente sobre um pé como um embrulho de trapos molhados. Antalcidor toca-lhe sem querer e solta novo grito de pavor: era gelado, um bocado peganhento, todo aos altos como se estivesse cheio de borbulhas…

    Quem diria ao infeliz Antalcidor que toda a família ouriço e o sapo da fonte tinham tido ainda mais medo que ele?

    Está muito escuro. A custo, aqui e acolá, brilham nas trevas luzinhas verdes. Espalham-se, e em breve se apagam. Galaor, estendido no musgo, continua a dormir um sono profundo. Como é que os pirilampos sozinhos haviam de ser capazes de pendurar nas paredes do palácio a sua grinalda de fogo de artifício?

    O grilinho cala-se, assim como o sapo da fonte. Mas a noite inteira enche-se de sussurros, de murmúrios, de gritos estranhos, de uivos, que põem o coração aos saltos. O mocho solta um grito escarninho, o alcaravão berra, o lince ulula, a coruja pia, o veado velho brama no vale com tal força que todo o bosque reboa. E, de repente, atravessando o céu, o bufo solta um queixume longo, longo, tão lúgubre que Antalcidor tapa os ouvidos com ambas as mãos, julgando chegada a sua última hora. «É com certeza o lobo» — diz consigo. — «E o lobo! Vai comer-me…!»

    Esquece-se da sua erva de S. Tiago caída ao lado do trono. De resto, mesmo que tivesse pensado nela, seria capaz de a encon­trar no meio da escuridão? Treme. Finalmente o horrível lamento calou-se. Mas logo no semi-silêncio ressoa uma voz por detrás dele semelhante ao sussurro de duas asas que se esfregam uma na outra:

    — A lengalenga! A lengalenga! Zzzz … Zzzz! A lengalenga!

    «É verdade! — pensa Antalcidor. — Onde diacho tinha eu a cabeça? Estou salvo!»

    E vá de respirar fundo para ir até ao fim sem tomar fôlego nem uma vez só:

    Cotovia no bugalho

    Pulga no carvalho

    Corça no cortiço

    Toupeira no ouriço

    Ai que grande asneira!

    Lontra na toupeira.

    Não é assim! Não.

    É vaca no cão…

    Pára, com as lágrimas nos olhos. Que foi que lhe deu? Que embrulhada é aquela?

    — Zzz, zzz, zzz, a lengalenga!… Zzz, zzz, zzz, a lengalenga!… A voz trocista persegue-o.

    Dir-se-ia agora que pequenos pratos metálicos se chocam, marcando o ritmo de uma canção triunfal:

    — Bzzz zenga, a lengalenga! Bzzz zenga, a lengalenga!…

    E realmente é como se um génio malfazejo se alegrasse com o alarido, a desordem e a detestável anarquia que sacodem o bosque nessa noite.

    — Toda a noite, bzzz, bzzz, bzzz! Toda a noite, bzzz, bzzz, bzzz!…

    — Basta! — geme Antalcidor. — Quem és tu, génio mau?

    — Ainda o perguntas? Sou o besouro! O besouro que tu enxotaste! O besouro que se vingou! O besouro isca-riscada. A lengalenga, bzz! A lengalenga, bzz! Isto há-de durar a noite toda!

    Ai, é bem verdade. O que Galaor sofreu durante o dia não é nada em comparação com o que espera o desventurado Antalcidor nessa noite.

    Como fizera o outro geniozinho, também ele tenta primeiro lutar; bate as palmas, esganiça-se a gritar ordens. Mas a língua embaraça-se-lhe sempre, aumentando a balbúrdia e o horror. Que noite! Tudo fervilha, grunhe, trepa, tudo se retorce, se enrosca, se desenrola, rasteja, ronda, escorrega, estala, em redor de Antalcidor; tudo lhe toca, baila, avança, recua, tudo lhe dá encontrões, e sempre na escuridão cada vez mais escura, sem que lhe seja possível distinguir um vulto, uma silhueta, nada senão aquele fervilhar medonho, aqueles assopros, aqueles suspiros assustadores.

    Mas o pior é o zumbido do besouro, o zunido das suas asas e as marteladas dos seus pratos.

    Aquele besouro é impiedoso; tão satisfeito que perde a cabeça, quando, no fim de contas, tudo aquilo também pode acabar mal para ele.

    Esperemos isso, que bem o merece.

    Quando por fim a manhã se avizinha, Antalcidor e ele estão tão cansados um como o outro. O geniozinho, compreende-se: treme de medo e de frio. O besouro, por ter vibrado tanto, voado tanto, saltado e pulado tanto, e aplaudido tanto o seu estratagema maldoso. Passar uma noite inteira a dizer: «Ah! que espertalhão que eu sou! Sou o mais espertalhão dos besouros!», é realmente demais… Ai, sim, sim, não há dúvida de que a história há-de acabar mal para ele.

    Assim que o primeiro alvor da madrugada se escoa pelo Atalho Maior, e alcança a entrada do palácio, acaricia em primeiro lugar a carinha de Galaor, adormecido em cima do musgo; o geniozinho da noite sorri e as pálpebras estremecem-lhe ligeiramente.

    A luz sobe, transformada em raio de sol, ilumina o besouro com as riscas despenteadas, cambaleante e a ir de encontro a tudo. Quer sair; atira-se contra as raízes grossas. E…

    E a sua filarmónica, de repente, muda de tom. Deixou de ser triunfal. Vibra num longo grito de angústia, numa nota só, aguda, desvairada. Galaor acorda logo, senta-se, sorri ao seu amigo, cantarolando maquinalmente a canção do render da guarda:

    A pé! A pé! Escondeu-se o Sol…

    — Ah, não! — exclama Antalcidor. — É dia! É dia! É dia!

    Salta do trono abaixo, estende ambas as mãos a Galaor e ajuda-o a levantar-se. Entretanto, o bater de asas do besouro torna-se cada vez mais aflitivo. Parecia uma corneta a vibrar na nota mais alta, tão fina como se fosse quebrar.

    — Onde estás, besouro? Onde estás tu? — perguntam os geniozinhos em coro.

    — Aquiii… aqui… — chora o besouro.

    A voz vem lá de cima, do alto da porta. Os nossos amigos levantam os olhos, não vêem nada. No entanto, é agora dia claro: aquela enorme bola ruiva e preta havia de lhes saltar à vista.

    — Aqui, onde?

    — Nas teias de aranha. Fiquei preso!

    Lá mesmo em cima, no canto da porta, os geniozinhos avistam por fim qualquer coisa a mexer, a debater-se desesperadamente. E o besouro atrapalhado nos fios, com as patas atadas, as asas paralisadas.

    — Libertem-me! — suplica o besouro. — Confesso tudo! Fui eu! Aconteceu tudo aquilo por minha culpa! Desatem-me que eu conto tudo.

    — Conta primeiro — dizem os geniozinhos. — Realmente foste apanhado na ratoeira.

    Em vez dos festões delicados, transparentes, onde só podiam prender-se as gotas leves do orvalho e as cores do arco-íris, as aranhas tinham fiado cordas suficientemente fortes para amarrar o maior e o mais estúpido dos besouros isca-riscados, e aí estava a prova.

    Quando todos perderam a cabeça, quando o dia e a noite se confundem, quando os que devem dormir estão acordados e os que devem estar acordados dormem, é assim que as coisas acontecem, mesmo no bosquezinho mais sossegado e mais feliz da Terra.

    — Conta! Conta! — repetem os geniozinhos.

    E o besouro, pendurado lá em cima, baloiçando como um badalo de campainha, lamentoso e arrependido, conta:

    — Chupei a água de Colombina e deitei-a em Sinoflor com a minha tromba.

    — E depois? E depois? — perguntam os geniozinhos, quase sem respiração.

    — E depois, naturalmente, suguei a água de Sinobina e deitei-a em Colonflor com a minha chupa.

    — Não te enganes, chupador do diabo! — gritam ao mesmo tempo Antalcidor e Galaor. — Não te chega, se calhar?… Trocaste a água das nossas flores, confessa-o, e pronto.

    — Sim, infelizmente — diz o besouro.

    — Ah! Ah! — troça Antalcidor. — E eu bebi em Sinoflor a água que faz dormir de dia. Por isso não acordei quando chegou a madrugada.

    — Ah! Ah! — explode Galaor. — E eu bebi em Colombina a água que faz dormir de noite. Por isso adormeci num sono de chumbo exactamente à hora em que devia reinar.

    — Pois, besouro — dizem ambos em coro — parabéns, fizeste um lindo trabalho!… E se nós agora te deixássemos aí em cima?

    — Não! Não! — suplica o besouro. — Eu nunca mais torno! Piedade, misericórdia, meus fidalguinhos, meus geniozinhos encantadores e generosos! Pensem que neste momento já tudo entrou na ordem. No coração de Colombina já caíram as lágrimas do orvalho da madrugada. Ele aí está à tua espera, Galaor, pronto para ti! Bebe-o daqui em diante sem desconfiança; e dirige-te ao palácio secreto onde dormirás todo o dia enquanto reinar Antalcidor. E tudo voltará a ser como dantes, quando vivíamos felizes.

    — Está bem — sorriem os dois geniozinhos. — Nós perdoamos-te, besouro.

    Galaor, de pé sobre o trono-cogumelo, deixa que o amigo lhe trepe para os ombros. Este, com a sua espadinha de prata, solta uma asa do besouro, e pára…

    — Estás arrependido? Verdadeiramente arrependido? Juras?

    — Juro! — diz o besouro.

    Mais dois ou três leves golpes: as patas mexem, as asas palpitam.

    — Voa em direcção a nós — ordena Antalcidor. — Vem poisar exactamente diante do trono, na claridade da porta.

    O besouro obedece, desce em voo planado, poisando suavemente sobre o musgo.

    — Sentemo-nos ao lado um do outro no trono real — continua Antalcidor. — Bem. E agora, meus amigos, a lengalenga! Ambos ao mesmo tempo, Galaor e eu. Tenho a certeza de que vai correr bem. E tu, besouro, os pratos, a corneta, toda a tua orquestra de besouro. Bem a compasso e com toda a força! Que todos os bichos do bosque, os diurnos e os nocturnos, oiçam de um extremo ao outro de carreiros e atalhos. Estamos prontos?

    — Estamos! — responde Galaor.

    — Estamos! — responde o besouro riscado.

    — Então, assim que eu mandar…

    Antalcidor apanha do musgo a erva de S. Tiago de flores douradas, levanta-a, baixa-a para dar o sinal. E os dois geniozinhos, a plenos pulmões, de um só fôlego e sem se enganarem uma única vez, entoam e cantam a lengalenga do bosque.

    E o besouro, com a sua corneta, os seus pratos, o seu grande tambor zumbidor, acompanha a cantiga dos geniozinhos.

    E todos os bichos do bosque correm agora obedientes e pontuais. O esquilo salta do pinheiro para o bordo, de patas esticadas, cauda bem desfraldada; a cotovia tagarela põe-se a tagarelar; o pombo azul arrulha; o pica-pau bate com o bico no tronco do carvalho e o melro assobia o seu trinado, todos a compasso, enquanto os bichos nocturnos — o noitibó, o morcego, a coruja, a família ouriço e o sapo do luar — se deixam ficar sossegadamente na segunda fila, sabendo que ainda não chegou a sua altura, mas que cada qual terá a sua vez, enquanto os bichos grandes do bosque — o cabrito montês de chifres afiados, esticando o pescoço gracioso e flexível; o veado velho, alçando o focinho por cima das palmas dos fetos; o javali, espreitando na orla do arvoredo retêm a respiração e ficam imóveis a escutar os dois amigos:

    Leirão na faia

    Búzio na praia

    Picapau no carvalho

    Mosca no bugalho

    Rata no trigo

    Vaca no pascigo

    Carraça no cão

    Pulga no colchão

    Pega no ninho

    Toupeira no buraquinho

    Burro no palheiro

    Galinha no poleiro

    Corça na floresta

    Lebre na giesta

    Cabra no rebanho

    Lontra no banho

    Castanha no ouriço

    Abelha no cortiço…

    E assim até ao fim, sem um esquecimento, sem tomarem fôlego, até (lembram-se?)

    …Porco na lavadura

    Cotovia na altura!

    Às alturas, como a cotovia, sobem as vozes frescas dos geniozinhos. Sinoflor e Colombina erguem-se muito tesinhas no seu pé, mais azulinhas que nunca.

    — Agora nós! — exclama o besouro.

    E os bichos todos, mais as duas flores — a campainha e a erva-pombinha — vá de cantarem em coro com toda a alma, como um voto de felicidade feito para sempre:

    Já se viu à luz do Sol

    Ou ao luar prateado

    Dois reizinhos como estes

    Que nos têm governado?

    Vivam com muita alegria

    Um de noite, outro de dia!

    Maurice Genevoix

    O bosque mágico

    Verbo, Lisboa, s/d

    Adaptação

    O céu tem quatro portas.

    A porta branca onde mora um velho chamado Inverno, a porta verde onde mora uma menina chamada Primavera, a porta amarela onde mora um rapaz chamado Verão e a porta dourada onde mora um homem chamado Outono.

    O Inverno sai da sua porta branca com um saco cheio de maravilhas e verifica que a tinta da porta está um bocadinho esmurrada. Volta atrás a buscar uma trincha e conserta aquela pequena mancha. Depois segue, um bocado rabugento, e como não quer que o vejam, tira do saco uma embalagem de nevoeiro e espalha-o pelo caminho. Fica tudo cinzento e, embora esta não seja a sua cor preferida, sempre a acha melhor que os castanhos de mil e uma tonalidades que o Outono deixou atrás de si.

    O Inverno, como já perceberam, não gosta de dar nas vistas, por isso sai no dia mais curto do ano, 21 de Dezembro, convencido de que ninguém dá por ele. E de facto, às vezes estamos tão entretidos a preparar o Natal que nem o sentimos.

    Por onde passa, vai deixando a Natureza arrepiada. As árvores largaram as últimas folhas (algumas!, porque outras, chamadas de folha perene, nunca se despem da sua roupagem). Os bichinhos escondem-se nos seus abrigos onde guardaram comida para os meses frios. As formigas, por exemplo, são muito previdentes e fazem sempre isso. Há animais, como os ursos, que dormem durante a época em que não há comida. Metem-se nas suas cavernas e ali estão quentinhos a hibernar, a poupar energias, para não darem de caras com nevões e outras coisas de que não gostam. Há ainda os pássaros que, não podendo sobreviver ao frio, preferem ir passar esses meses para lugares mais quentes do planeta, para depois voltarem a casa, como nós fazemos no fim das férias.

    É por isso que o Inverno é um bocado resmungão. Não encontra quase ninguém pelo caminho a não ser árvores despidas e bichinhos assustados. Às vezes encontra pessoas, mas não dá para conversar, porque elas vão à pressa para casa, embrulhadas nos seus agasalhos, a soprar bafo quente para as pontas dos dedos.

    Irritado com esta falta de atenção, o Inverno tira do saco uma chuva torrencial, de que todos fogem, mas que é uma das suas maravilhas porque vai alimentar os rios e preparar a terra para mais tarde desabrochar.

    Entretanto os homens já cortaram a madeira (só a indispensável) e já a puseram a bom recato, semearam e protegeram produtos da horta que fazem falta na nossa alimentação, como agriões, alfaces, espinafres, ervilhas, tomate e temperos como a salsa e os coentros. E semearam o centeio, para fazer mais tarde aquele pão escuro e saboroso, do qual, comido quentinho, até o Inverno gosta…

    Mas o Inverno não está agora a pensar nisso. Quando está aborrecido e lhe apetece ver um espectáculo, autoriza as nuvens a fazerem uma brincadeira aparentemente parva, que é atirarem-se umas de encontro às outras para provocarem descargas eléctricas; põe os trovões a ribombar e os relâmpagos a iluminar a noite e delicia-se com aquele fogo-de-artifício.

    As nuvens gostam muito do Inverno; ele dá-lhes imensa importância, deixando, inclusivamente, que elas substituam o azul do céu. Ficam vaidosíssimas e, além de largarem água cá para baixo, entretêm-se a fazer noites escuríssimas, de meter medo. Só a lua lhes dá resposta quando, principalmente em Janeiro, espalha pelo céu um luar de que o Inverno muito se orgulha por ser, dizem, o mais bonito de todos.

    O Inverno guarda para o fim a sua maravilha preferida. Depois de ter largado todo o frio, de ter feito gelar a água das fontes e dos lagos, de ter espalhado ventos fortíssimos em todas as direcções, de ter coberto tudo de geada, de ter feito chover granizo que lembra as pedrinhas brancas de milhões de colares rebentados, de ter levantado as ondas quase até ao céu, o Inverno diz ao mar e ao vento e às nuvens que se aquietem e tira do saco o seu mais lindo brinquedo, que é branco e frio e fofo e que se chama neve. Cobre tudo com ela e aí passa-lhe o mau humor porque vê as crianças saírem para brincar e ouve-lhes as gargalhadas e observa o que as pessoas inventam, como carrinhos, esquis e trenós, e regala-se, quando anoitece, com o silêncio que envolve aquela zona da Terra. É como se tivesse oferecido ao mundo um manto branco e o mundo se aconchegasse debaixo dele.

    Então o Inverno adormece. Fica tão sossegado que nem nota que a Primavera abriu devagarinho a porta verde e se vem aproximando no seu passinho de dança.

    O Inverno tem, sempre teve, um grande fraquinho pela Primavera. Nunca lhe disse nada porque ela é muito nova e ele um velhote, não quer aborrecê-la com conversas parvas. Quando acorda e sente no ar o cheiro cor-de-rosa do vento, sabe que chegou o momento de voltar à porta branca e preparar-se para fazer outras invernias noutras paragens da Terra.

    Então, para deixar um presente à Primavera, inventa uma flor linda que parece uma estrela, quase prateada de tão branca, e vai pousá-la, como um segredo que a Primavera terá que descobrir, lá no pico mais alto dos Alpes. Fica admirado com a sua invenção, mas não tem que espantar-se porque o amor é o maior inventor de todo o universo e faz coisas lindas como essa flor-estrela chamada Edelweiss.

    A Primavera chega descuidada, diz de longe um adeusinho ao Inverno que já vai a caminho de casa e põe-se a brincar com as borboletas. Mas ao chegar, ali pelo dia 20 de Março, toma bem conta se os sapos, as cobras e os morcegos estão de boa saúde, pois precisa deles para se alimentarem de insectos e ratos que de outro modo estragariam as culturas.

    A Primavera às vezes parece tonta porque espalha ventos carregados de pólens que nos fazem espirrar e esfregar os olhos, mas ainda bem que ela tem essa preocupação porque é assim que se reproduzem as flores que ela traz nos cabelos. Ela é amiga do sol mas também das chuvas miudinhas, pode dizer-se que a Primavera é amiga de todos e gosta de andar pelos campos a ver nascer cordeirinhos, cabritos, vitelos e potros, isto em Portugal, porque se fôssemos a falar de outros países, não tinham conta os animais que ela faz nascer, desde leõezinhos a elefantes, de renas a ursinhos panda, passando por milhões de outros bebés.

    Se a Primavera colhe muitas flores, também semeia algumas, como cravos, amores-perfeitos, dálias e crisântemos, para que possamos ter flores todo o ano sem ter que as mandar vir de outros países. A Primavera gosta de acolher os pássaros que chegam de férias (chamam-se aves migratórias) e que não são só as andorinhas (que conhecemos bem por fazerem os ninhos nos beirais das nossas casas) mas também as rolas, os gansos, as cagarras, os patos bravos.

    O que se nota logo é que a Primavera gosta de tudo quanto é novo, de tudo o que principia, de tudo o que é cheio de vida, é como se o mundo fosse feito e refeito por ela todos os anos. A Primavera quer ver a Terra a desabrochar, por isso não se cansa de andar de um lado para o outro. Às vezes desenha no céu um arco-íris com a ponta dos dedos, outras faz nascer plantas com o hálito da sua boca perfumada, outras ainda veste as árvores de folhinhas tenras só de passar-lhes de leve a mão pelas ramadas.

    Em 1478 houve em Itália um pintor chamado Botticelli que pintou um quadro que representa a Primavera, não com um só rosto mas com vários, incluindo os do vento, do amor, da flora, e da deusa da beleza (que se chama Vénus ou Afrodite). Estão num pomar cheio de frutos e de flores e de movimento, como se uma brisa ali passasse e fizesse nascer aquela formosura toda.

    Lá para o meio do mês de Junho a Primavera, com a boca cheia de morangos, começa a preparar-se para descansar. A Natureza já recebeu os seus presentes e agora antecipa a chegada do Verão. A Primavera, a caminho de casa, gosta de encontrar-se com ele, que é um rapaz muito bonito, bronzeado e forte. Ficam um momento a conversar, ali por volta do dia 21 de Junho, que é o dia mais longo do ano e por isso dá tempo para esses vagares.

    O Verão vem com toda a calma (calma também quer dizer calor, por isso é duas vezes verdade). O amarelo é a sua cor preferida e a que melhor fica à sua pele morena. Tirou-a do sol, das praias, dos campos que vão ficando amarelecidos à medida que ele avança. O Verão é louco por umas boas ondas, um surf, um vólei de praia mas também por um trigal ondulante, um cantar alentejano ou um barco pelo rio acima. O Verão gosta de ver guarda-sóis às cores pelas esplanadas e muitas crianças em férias. O Verão tem sede: gosta de frutos sumarentos como as ameixas, as rainhas-cláudias, as melancias, e acha engraçado apanhar melões, que também são amarelos. Assiste sempre à tosquia dos rebanhos, que é como quem despe os casacos aos carneiros para não terem calor. Outra alegria do Verão é andar pelos milheirais, correr pelos campos ou sentar-se a observar como os passarinhos mais novos aprenderam a voar tão bem e ouvir os seus chilreios pelas tardinhas. O Verão não perde uma ceifa: gosta de ouvir as mulheres a cantar e, quando anoitece, fica deitado no restolho a olhar as estrelas que parecem falar pela voz das cigarras.

    No dia 22 de Setembro, já com as uvas maduras na videira, o Verão vai andando tranquilo para a sua porta amarela, não sem antes cumprimentar o Outono, que sai nesse dia e é um senhor cheio de sensibilidade (dizem que é pintor), e o Verão sente por ele muita amizade e respeito.

    O Outono preocupa-se primeiro com as vindimas, mas antes dá ainda umas pinceladas douradas nas uvas brancas, púrpura nas pretas, para que o vinho que delas nasça seja delicioso como um néctar.

    Depois começa a ocupar-se do arvoredo onde exerce os seus dotes de artista.

    Baixa a temperatura, aos poucos, para que os meninos que já estão em aulas se não constipem. E depois o Outono, que além de pintor é um grande maestro, cria uma sinfonia de verdes escuros, castanhos, roxos, vermelhos e dourados na folhagem das árvores.

    O Outono manda reduzir as regas e abrir covas para as árvores novas, ceifar o arroz, apanhar a azeitona e colher a amêndoa, indispensável nos doces portugueses. Não se esquece de plantar os morangueiros para que a Primavera possa deliciar-se com a sua fruta preferida. Mas também as cerejeiras, as pereiras e as macieiras. O Outono preocupa-se com o futuro e não quer a beleza do mundo só para si. E porque também gosta do conforto, manda acender as lareiras, diz às árvores para atapetarem os caminhos com as suas folhas caídas e lembra às aves migratórias que podem partir. Então elas despedem-se com muitos pios arrepiados e, a caminho do Sul, fazem longas filas que enfeitam o horizonte como uma fita bordada.

    O Outono gosta de conviver. Por isso ele vem na época das longas conversas e também dos longos silêncios, de qualquer modo um tempo em que as pessoas comunicam não só pelas palavras mas também pelo coração.

    Então, pelo S. Martinho, o Outono convida os colegas para passarem o dia com ele. O Inverno raramente aceita o convite porque tem frio e não lhe apetece sair de casa. Mas a Primavera e o Verão nunca faltam. É tempo de festa, de comer castanhas e provar o vinho novo e então, só porque eles saíram da porta verde e da porta amarela, o dia acorda primaveril, com uma suave brisa matinal e ao meio-dia está quente como se fosse Agosto.

    (O ano desta história foi excepcional e o Inverno apareceu com o saco de estrelas e lançou alguns cristais de neve por cima dos telhados. Ficou lindo e de manhã o Verão derreteu-os antes de ir para casa).

    O Outono, que tem predilecção por bibliotecas, casacos de malha e crepúsculos suaves, sugere sempre às pessoas que juntem estas três coisas e leiam bons livros, dos quais se lembrarão toda a vida, sobretudo enquanto houver bibliotecas, camisolas de malha e finais de tarde entre o dourado e o lilás.

    O Outono gosta de criar uma ambiência especial, luminosa e serena, que faz as pessoas sentirem uma certa quietude na alma.

    Talvez seja por isso que os poetas gostam do Outono.

    Esta é a história das quatro portas do céu e quem a contou à Maria e ao António foi o próprio Outono, poucas semanas depois de terem começado as aulas, quando a professora pediu uma composição sobre as quatros estações e eles estavam sem saber o que escrever.

    Perceberam tudo muito bem. Nunca mais disseram que o Inverno é uma chatice e o Verão é que é bom, porque entenderam que uma menina, fresca e alegre, que gosta de correr entre as árvores e ver nascer as flores e os cordeirinhos, pode ser amiga de um senhor velhote de nariz vermelhusco e ambos de um rapaz que gosta de surf e campos de restolho, e todos de um homem culto, que gosta de livros e de castanhas assadas, capaz de os juntar para beberem o vinho novo no dia de S. Martinho.

    O Outono também lhes disse que a vida das pessoas tem quatro estações como o tempo. Primeiro somos novos e estamos, como a Primavera, a começar tudo e a aprender a sonhar; depois somos adultos cheios de força e energia como o Verão; mais tarde ficamos sensatos e sábios como o Outono; e por fim tornamo-nos, como o Inverno , um bocado rabugentos, mas ainda capazes de inventar uma flor.

    Todas as idades, como todas as estações, têm o seu encanto, o que é preciso é coração para senti-las e amá-las tal e qual como elas são.

    Como a porta dourada estava entreaberta, o António e a Maria ainda puderam ouvir uma música linda que vinha lá de dentro.

    — Que música é esta?

    — Foi escrita por um padre que tinha o teu nome, António. Chamava-se António Vivaldi e publicou-a em 1725, há quase três séculos, vejam lá! Chama-se “As Quatro Estações”. Se ouvirem com atenção, hão-de reparar que a música diz tudo o que diz esta história porque nem só as palavras servem para comunicar.

    — Podemos pôr isso na composição?

    — Numa composição pode pôr-se tudo, é para isso que as composições servem. Mistura-se o que se sabe com o que se sente, junta-se o que se inventa e aí até podem acontecer coisas mágicas como abrir portas no céu e conversar com quem imaginamos que lá mora.

    Até hoje o António e a Maria não sabem se sonharam com estas coisas bonitas e um bocado malucas ou se elas surgiram à medida que se puseram a reparar melhor na Natureza, a ler mais livros, a ouvir com mais atenção o que os mais velhos vão contando.

    A verdade é que tiveram a melhor nota da turma na composição sobre as estações do ano.

    Rosa Lobato de Faria

    As Quatro Portas do Céu

    Porto, Edições Asa, 2001

    Adaptação

    Trepa devagar, a arrastar o corpo
    inteiro. Trepa o raminho, mais
    parece um arranha-céus, mais
    parece um arco-íris, lá em
    baixo um formigueiro.

    Quem é pequenino, do tamanho de um
    botão, do tamanho de um segredo
    pequenino, parece perdido no
    mundo, num mundo de gigantes.
    Cá de baixo, as folhas lembram
    barrigas de elefantes.
    As flores que abrem são
    chapéus de chuva preguiçosos…

    Trepa e vai contente, assim feliz
    por trepar, que no cimo do raminho
    há muita coisa para ver,
    muito mais para contar.
    Mil coisas para olhos curiosos.

    Lá no fundo corre um rio,
    corre apressado direito ao mar.
    Para se ver o rio
    é preciso trepar mesmo ao alto do raminho.
    Mas não se vê de lá o mar…
    Agora há um problema porque o ramo
    Tem uma folha que é preciso contornar.
    Trepar, assim devagar, é mesmo muito difícil,
    difícil até cansar. Vem o vento, abana o ramo.
    Credo, que aflição! Quem é mesmo
    pequenino vive sempre em desalinho.

    Voa o pássaro e observa, espreita com atenção:
    — Para onde sobes, amigo?
    — Vou ver o céu e o rio e o que mais se pode ver.
    Vai o pássaro para o ninho fica o ramo a meio caminho.

    Vai devagar, é claro, e já se sente cansado.
    Trepar, trepar, trepar.
    E o vento, endiabrado, que não pára de soprar.
    Chega o ouriço pelo chão, levantando o nariz e diz:
    — Boa vista aí do alto?
    — Por enquanto é só trepar.
    Quando lá chegar ao cimo,
    mais terei para te contar.

    Trepar, trepar, devagar. Bate-lhe o sol na cabeça.
    O tronco, só por desfeita, tem outra folha travessa.
    E o vento, turbulento, que não deixa de soprar.
    — Queres ajuda, queres que assopre?
    — Obrigado, meu amigo.
    Mas eu penso que consigo
    chegar lá sem a tua ajuda.

    A borboleta dá pinotes,
    mostra as cores todas que tem.
    Se usasse laçarotes, talvez lhe ficassem bem…
    — Boa viagem, boa subida.
    Queres uma asa emprestada? —
    diz a borboleta colorida
    descarada, ladina e muito atrevida.
    — Cá vou na subida, não preciso da
    tua asa. E o mais que me faltar
    tenho eu aqui em casa.
    Trepa, faz mais um esforço.
    Evita as folhas do caminho.
    Passear devagarinho
    Também tem as suas grandezas.
    Vem a joaninha, janota, faz chacota da subida.
    Mostra as pintas, tão negrinhas,
    parece a noite às bolinhas:
    — Trepa, trepa. Se calhar, um dia hás-de chegar.
    — Trepo, trepo. Se calhar, hoje mesmo vou chegar.

    Já se vê uma maçã, aqui mesmo
    deste lado. Subir, assim, sossegado,
    deixa ver muitas belezas. Vem uma lagarta,

    nas bochechas da maçã. Boceja, pede
    desculpa, pergunta se é de manhã.
    — Não é tal, já veio a tarde. Já o sol se
    sossegou. E a lua (podes ver)
    também já se levantou.

    Sai a lagarta da maçã,
    vem um besouro a passar:
    — Isto são horas de acordar?
    — Estava-se tão bem ali.
    Parece que consegui
    achar sítio para morar.
    Trepa, trepa, e vai ouvindo,
    ouve tudo o que se diz. E está
    próximo do cimo, afinal como ele quis.

    Lá no alto muda tudo. Há um penedo para ver,
    um mundo para conhecer.
    Uma casa acolá, para lá um girassol…
    E digam que não é boa a vida de um caracol…

    Alexandre Honrado
    Viagem ao Alto de um Ramo
    Porto, AMBAR, 2002
    adaptação

    A senhora Adelaide Caracol está a preparar-se para uma grande noite. Tem novamente um espectáculo na Opereta dos Caracóis e vai cantar o papel principal.

    Espreguiça-se em frente ao espelho a estudar a sua parte. De cantar, não precisa, só fazer de conta, porque os caracóis não ouvem. Passa a tarde inteira a dar os últimos retoques ao seu papel.

    Enquanto isso, Alfredo Caracol, o seu marido caracol, toma banho na banheira nova, que há uns dias caiu tão repentinamente do céu. É certo que tem uma rachadela mas caiu numa tal posição, que a água da chuva não sai.

    O tempo passa a voar. Adelaide dá um toque a Alfredo para que se despache e vá tratar do Norberto.

    Norberto é o filho caracol e o caracol mais lento das redondezas. Passa o tempo todo colado ao tecto da sala, ao lado do lustre; é o lugar cativo dele. Lá de cima consegue ver quase tudo o que se passa.

    Ele lá desce, contrariado, e desliza, carrancudo, aos empurrões ao morango de futebol. Preferia ficar em casa a brincar com o filho do vizinho. O teatro não lhe interessa absolutamente nada e até o acha enfadonho.

    Mas, para a senhora Caracol, é das coisas mais importantes. Dá um toque ao Norberto para lhe dar uma mãozinha com o vestido de noite.

    Nos corninhos põe o chapéu que o Norberto lhe trouxe do armário. Mas está nervosa e hoje nada lhe agrada.

    Norberto traz-lhe um chapéu atrás do outro e já está quase sem fôlego.

    A Senhora Caracol quer agora o chapéu com canudinhos de couve que está no fundo do armário. Norberto já está farto de remexer nos chapéus e, sem que a mãe caracol se aperceba, dá-lhe o primeiro, com a cardamina.

    Finalmente, ela decide-se por esse.

    “Porque não se decidiu logo no início?”, pensa Norberto e, ofendido, encolhe os corninhos.

    A família caracol desliza pela casa numa grande excitação. A Senhora Caracol, porque tem medo do palco, o Senhor Caracol, porque ainda não estão prontos. Só o Norberto é que não sabe lá muito bem porque está excitado. Talvez por ser sempre muito lento e agora ter de se despachar.

    O relógio já mostra as cinco horas e o pano sobe às oito.

    O senhor Alfredo Caracol zanga-se porque ainda ninguém inventou um relógio para caracóis que ande mais devagar. É que ele é director de uma grande fábrica de cola e, pela manhã, os trabalhadores chegam todos sempre tarde ao trabalho.

    A senhora Caracol embrulha-se na écharpe de noite mas, assim que se vê ao espelho, assusta-se de tal forma que toda a Vivenda Caracol estremece. A écharpe está murcha e toda comida nas pontas pelas lagartas! Com o choque, a senhora Caracol fica com os olhos arregalados e começa a revolver o armário todo num frenesim. Tira daqui uma gola de bicos de salsa, dali um véu de erva para os corninhos, que usou no casamento e já está todo seco. Como não consegue separar-se dele, volta a pô-lo no armário.

    O senhor Caracol já está tão excitado, que até ficou pálido. Ele já está pronto: colou o laço ao pescoço e pôs orgulhosamente o chapéu alto nos corninhos.

    Enquanto Adelaide se polvilha com pólen-de-flor e se perfuma com perfume de alface, o senhor Caracol repara que Norberto já não está ali.

    “Mas onde é que este caracolzinho se tornou a meter?”, pensa ele, enquanto segue o rasto de baba que o filho deixou pelo caminho. Desliza para fora da porta, pelo carreiro do jardim abaixo e depois pára. O rasto de baba leva-o à roda de um carro e o Norberto está sentado mesmo no meio da jante.

    A senhora Caracol também já lá vem deslizando. Está magnífica! Em vez da folha de alface murcha, colou malmequeres no decote. O senhor Caracol fica muito vermelho por causa do perfume e o Norberto começa a tossir.

    Sobem para a roda, para junto do Norberto e elogiam-no pela boa ideia que teve em como chegar ao Teatro Caracol de uma forma tão rápida e confortável. Mas a jante não é um lugar lá muito seguro. De repente, o motor começa a trepidar e a roncar com um barulho ensurdecedor e a viagem inicia-se.

    A família Caracol começou a ver tudo a girar à sua volta e ela encolheu-se nas suas casas. Colaram-se à roda com quanta força tinham, senão ainda seriam projectados em arco para a estrada.

    Norberto até acharia muito engraçado, se não estivesse tão enjoado. A senhora Caracol está quase a desmaiar.

    Que contentes ficaram quando o carro finalmente parou. Deslizaram logo da roda o mais depressa que puderam.

    O senhor Caracol limpa o suor da testa e a senhora Caracol volta a dar forma ao chapéu. O Norberto perdeu o laço mas no meio da excitação ninguém reparou. Pragueja e gesticula com os corninhos:

    — Também não era preciso termo-nos apressado tanto — diz. — Chegámos cedo de mais. E agora, o que é que vamos fazer?

    A senhora Caracol acalma-o e lá deslizam calmamente pelo último troço de caminho que os leva ao teatro, onde todos aguardam a chegada da senhora Caracol.

    Apesar de toda a excitação por que passou, esteve fantástica no seu papel. Centenas de flores caem no palco, o público está entusiasmadíssimo e elogiam-na como uma diva da ópera.

    O senhor Caracol está todo inchado de orgulho.

    O Norberto já se recolheu há muito na sua casinha e… adormeceu.

    Tatjana Hauptmann
    Adelheid geht in die Oper
    Zurique, Diogenes Verlag, 2004
    Tradução e adaptação

    Viagem no verde

    Acordei com a palavra água
    a dançar-me na boca. Tive sede, muita sede,
    e fui beber. O dia, lá fora, estava azul
    e tinha o tamanho de um rio
    ou de uma cidade fantástica, e sorria.
    O sorriso do dia é igual ao do sol.
    É largo e branco. Tem dentro
    os frutos doces da calma das manhãs,
    e se for Verão são capazes de matar
    a fome e a sede que têm os bichos,
    que têm os homens, que têm as casas.

    As casas? Também têm sede, uma sede
    branca como a cal dos muros
    que arde nos lábios e queima a garganta
    que fala e que canta, que diz azul
    e sonha outras cores, outros sítios;
    uma sede que arrasta outra sede
    e se veste de mar para fingir
    que a não tem, que não quer saber dela.

    Visita-me agora um pássaro e diz-me: estou
    doente do fumo e da pressa do voo.
    Quero um ramo alto para fazer poiso
    e só encontro telhados, antenas de televisão,
    cidades com tosse, nuvens tristes, aviões
    carrancudos nas estradas do céu.

    É um pássaro bonito de asas largas
    e penas cor de arco-íris. Gostava de ser
    um pássaro assim, eu que também
    não gosto do fumo nem da pressa do voo.
    Fica poisado no meu dedo a falar-me
    do mapa das coisas que tem na cabeça,
    a cantar-me as cantigas de vento
    que traz na ponta do bico, a dizer
    que o Inverno é um sopro gelado
    que magoa o sol e os ossos das casas
    e enregela a casca das árvores
    e as escamas brilhantes no dorso dos peixes.

    Para mim o Inverno é não estar ninguém
    em casa quando a gente volta
    das terras quentes da beira do mar
    com a boca a saber a morangos silvestres.

    O pássaro sabe os segredos da sombra
    das estátuas quietas nos jardins
    mas não os conta a ninguém. Leva-os
    guardados na bagagem do voo
    e diz-me adeus lá de cima, empurrando
    uma nuvem de fumo com a ponta da asa,
    riscando o silêncio da noite
    com a música que aprendeu a voar.

    Como se chama? Que nome é que tem?
    Vejo-o partir e nem lhe pergunto.
    Há-de voltar quando for tempo, há-de voltar
    na estação das ondas mansas trazendo notícias
    dos bandos que cantam por cima do mar.

    Depois de água, digo pedra
    e na pedra vejo os nomes antigos
    de reis e princesas, de magos e bruxas,
    de cavaleiros andantes que andam cansados
    das guerras já feitas, das por fazer,
    das que moram nos livros da história,
    das que deixam sinais na lembrança.

    Andam tristes os bichos da terra
    por verem crescer cidades sem sol
    sobre as pedras esquecidas,
    perdidas no tempo com tudo por contar.
    «Vamos salvar o que resta das pedras!» —
    dizem os bichos da terra, sentados
    em círculo à volta do fogo, e eu oiço-os
    falar e oiço-os sonhar e dou-lhes razão,
    razão que sobra para os ajudar.

    Depois da água e da pedra, digo fogo
    e fico a tremer, não de frio, mas de medo,
    com medo de ver a floresta ardida, a casa
    queimada, o cereal em cinza, o pão
    por fazer. Oiço sirenes, gritos na noite
    e volto a tremer com medo do fogo, da chama
    que chama mais fogo, mais fogo. Chega a água
    e apaga o lume. Saltam da toca os bichos da terra
    e fazem uma roda contentes, por verem
    a seiva a correr, a floresta de novo
    a cantar com árvores velhas, sábias e firmes
    dançando belas canções de embalar.

    Cai uma lágrima do rosto da lua
    e é branca e limpa como um floco de neve.
    Que dor a faz chorar? «Anda inquieto,
    triste, zangado, e quem sofre é a paz!»
    Na rima que faz, razão não lhe falta.

    Entretém-se o poeta com esta lua redonda,
    cansada de noites e noites no centro do céu
    a servir de candeia contra a escuridão.
    Que se guerreiem não gosta, faz-lhe doer
    o seu rosto de lua, o círculo branco
    das coisas que sente, das coisas que sabe.

    Está lá em cima poisada há tanto, tanto
    tempo que já se esqueceu da idade que tem,
    dos nomes que teve nos livros antigos
    dos povos que deram a forma do arado,
    ao fogo, ao ferro e à roda. É mãe das marés
    e gémea dos ventos, companheira das águas,
    vizinha de sombras e dos vulcões. Anda agora
    aflita por ver ferros em lugar de abraços.
    E chora como só as luas sabem chorar:
    lágrimas brancas como pérolas que chegam
    à terra e se tornam crateras fundas
    para guardarmos os sonhos melhores.
    Apago a luz logo que a noite vem e fico a olhá-la,
    triste por não poder tocar-lhe.

    No rio que passa perto de mim
    queixa-se, azul, um peixe pequeno. Diz:
    é o óleo que mata cardumes, cavalos marinhos,
    que suja os corais, as algas, as praias.
    Falas iguais têm outros peixes, pequenos e grandes,
    Azuis ou vermelhos. Sofrem a mesma dor:
    uma dor de água turva, que faz arder
    os olhos e deixa nas guelras
    um gosto amargo que sabe a doença.
    Tens razão, pequeno peixe azul
    da profundeza do mar.

    Vejo um barco à vela que leva crianças
    brincando na proa e molhos de sonhos
    tapados com panos de linho no meio do convés.
    Sabe histórias do rio e do mar
    e só tem pena do tempo que passou,
    sentido por não poder navegar. Segue
    a rota do peixe debaixo da onda,
    e quando divide a espuma em metades iguais
    parece um deus antigo, vindo de um continente
    perdido no oceano das lendas.
    Quero ir neste barco, mas não posso.
    Só posso sonhar que vou. As viagens que faço
    são sempre assim: sonhadas, sonhadas,
    como se nunca mais acabassem,
    como se nunca chegassem a começar.

    Já disse água, azul, fogo e pedra.
    Depois disse seiva, pássaro e lua.
    Estas palavras são o meu alimento
    e a minha memória. É com elas que vivo,
    que moro e que brinco. O que sou é isto:
    um duende-poeta, um gnomo-cantor
    que sabe o tudo e o nada da vida das coisas
    e se afunda nelas até perceber
    o que são, o que querem, o que sofrem.

    Nasci da água ou do vento, pouco importa.
    Mal acordo, bebo o sumo da aurora,
    a água que sobra das estrelas. A minha
    casa é uma árvore gigante, cercada de verde
    até onde a floresta acaba e o céu começa.
    As palavras que digo dão corpo
    às coisas que penso, e o que penso é
    uma vontade grande de não ver morrer
    a planta, o rio, a ave, a memória branca
    que há dentro das pedras.

    Duende-poeta é o que sou. Nunca fui bobo
    de corte nenhuma. Saio do esconderijo
    que tenho secreto debaixo de um ramo
    e dou os bons-dias à Primavera, aceno
    com o meu gorro de folhas frescas
    para os amigos que faço por toda a parte.

    Quiseram caçar-me, pôr-me enjaulado
    Num jardim zoológico, mas eu escapei sempre,
    que um duende-poeta não morre nas redes
    de quem o persegue. Gnomo-cantor é o que eu sou,
    e o meu canto é verde como o dos arbustos jovens
    à beira das dunas, à boca do mar.
    Tenho tão pouco, quase nada para dar:
    só esta maneira de fazer poesia a falar.

    Gosto dos bichos, das sementes, das pedras
    raras que há nos abrigos da noite. Que mal
    é que tem? Sou um duende-poeta, e as lembranças
    que tenho não são de ontem, são de amanhã,
    do tempo que as estrelas me dizem
    que ainda está para chegar, que as aves
    me contam que não pode tardar. E se às vezes
    rimo a falar é por saber a música salgada
    das ondas bravas do mar.

    Não me podem apanhar, que eu sou tudo
    aquilo que vejo e que amo: a floresta,
    a duna, o rio, a maré, a seara de luz,
    o galope do vento num areal feito de prata.

    Sou irmão do homem quando o homem
    é irmão daquilo que eu amo. Se não for,
    nem tempo perco a estender-lhe a mão.

    Como sou um duende-poeta, acordo
    com sede de sol, de água e de espuma
    e uma flor azul a bater imensa no coração.

    José Jorge Letria
    Uma Viagem no Verde
    Lisboa, Vega, 1989
    texto adaptado

    Retirado de Verticalizar

    Além-mar – Outubro 2001

    As guerras dos recursos

    As guerras do futuro vão desencadear-se por causa dos recursos naturais, cada vez mais escassos e cada vez mais vitais. Esta é a tese de Michael T. Klare, que, no livro Resource Wars. The New Landscape of Global Conflict («Guerras dos Recursos. O Novo Cenário Global dos Conflitos»), desenha um mapa detalhado das zonas mais explosivas do planeta.
    De acordo com o autor, o crescimento demográfico, as necessidades crescentes dos países em desenvolvimento, o consumo desenfreado dos países ricos e as previsíveis alterações climáticas provocadas pelo efeito de estufa, em associação com as velhas, rivalidades nacionais e étnicas e com o facto de boa parte dos recursos naturais se encontrar em zonas fronteiriças ou com fronteiras fluidas, formam um autêntico cocktail Molotov, que poderá explodir a qualquer momento, em qualquer lugar. Sobretudo nos países pobres, que não possuem recursos suficientes para apostar em alternativas ou recorrer à tecnologia para minorar os efeitos da escassez de matérias-primas vitais.
    O petróleo, em que se baseia toda a economia mundial, ocupa o topo da tabela dos recursos escassos capazes de incendiar varias e vastas regiões: Klare, director do Programa de Estudos sobre a Paz e a Segurança Mundial que abarca cinco universidades norte-americanas, traça mesmo o triângulo mais perigoso do mundo: que passa, claro, pelo Médio Oriente, engloba a bacia do mar Cáspio – uma das mais promissoras alternativas à produção dos países árabes, que já está a ser ferozmente disputada pelas grandes companhias e pelas nações que têm poder para determinar o destino das suas vastas reservas de óleo e de gás natural – e tem o seu terceiro ângulo no Sul do mar da China, onde igualmente se supõe existirem grandes depósitos, para mais em zonas exclusivas reclamadas pela China, Vietname, Malásia, Filipinas, Taiwan e sultanato do Brunei. Por outro lado, as razoáveis reservas que têm vindo a ser descobertas em alguns países africanos só contribuirão para manter ou inflamar conflitos.
    Avisa Klare: «Se o consumo de petróleo crescer à média de dois por cento ao ano – como prevê o Departamento de Energia dos Estados Unidos – as reservas actualmente existentes desaparecerão nos próximos 25 ou 30 anos.» E, mesmo contando com as novas descobertas, prevê que as primeiras falhas no abastecimento se comecem a fazer sentir na segunda ou terceira década deste século.

    Água para 50 anos

    Para o especialista, o que se passa com a água é bastante semelhante. Diz: «Ainda que a Terra possua uma imensa quantidade de água salgada, a reserva mundial de água potável é relativamente limitada: menos de três por cento, grande parte da qual “presa” nas calotes polares e nos glaciares. Do total realmente disponível, metade já está a ser usada pelo homem. (…) O aumento da população e a melhoria das condições de vida exigem cada vez mais água. E se este padrão se mantiver, a humanidade estará a usar cem por cento dos recursos já na primeira metade deste século, o que provocará graves falhas de abastecimento em algumas regiões.
    A esta realidade, Klare acrescenta a pluviosidade irregular causada pelo efeito de estufa e o facto de os maiores rios do mundo abastecerem vários países: por exemplo, nove no caso do Nilo, cinco no do Mekong e três no do Eufrates. Imagine-se a conflitualidade que, em tempo de escassez, o desvio de uma parte da água pelas nações mais a montante pode causar. Sobretudo em zonas já de si desérticas ou áridas.
    O ex-primeiro-ministro de Israel Yitzhak Rabin disse um dia: «Ainda que consigamos solucionar todos e cada um dos problemas do Médio Oriente, se não se resolver capazmente o problema da água, a nossa região explodirá.»

    O perigo do crescimento

    O cenário aplicável ao petróleo e à água pode aplicar-se, noutra escala, a uma boa parte das matérias-primas, que a humanidade tem vindo a consumir como se fossem inesgotáveis e não houvesse amanhã nem gerações futuras. Segundo um estudo divulgado pelo World Wildlife Fund, a Terra perdeu, como resultado da actividade humana, um terço das suas riquezas – e isto só entre 1970 e 1995; nenhum período da História conheceu maior depredação.
    Se se pensar que os Estados Unidos, o país mais rico do mundo, consomem aproximadamente em cada ano cerca de 30 por cento de todas as matérias-primas utilizadas pelo conjunto da humanidade, é fácil de imaginar o que sucederá quando nações populosas como a China, a Índia ou o Brasil se aproximarem dos seus padrões de consumo. E também não é difícil adivinhar a conflitualidade que a competição entre grandes consumidores poderá desencadear.

    As guerras da madeira

    Veja-se o que se passa com algo aparentemente tão banal como a madeira: as florestas do planeta estão a desaparecer à média de 0,5 por cento ao ano, o que equivale à perda de uma área florestal do tamanho de Inglaterra e do País de Gales juntos; até à data, já consumimos aproximadamente 70 por cento das florestas tropicais e 60 por cento das existentes nas zonas temperadas.
    Se se puser de parte a Amazónia e a África central, as maiores manchas de floresta tropical encontram-se nas ilhas do Pacífico, sobretudo na Nova Guiné e no Bornéu. A quarta maior ilha do mundo, o Bornéu é partilhado pela Indonésia, pela Malásia e pelo sultanato do Brunei. E há mais de 20 anos que os indígenas lutam entre si pela posse da madeira ou pelo direito a abater as árvores para plantar palmeiras produtoras de dendê…

    África demasiado rica

    «Infelizmente», a África – especialmente a África subsariana – é um imenso reservatório das mais cobiçadas matérias-primas: desde o petróleo à madeira, passando jeitos diamantes e pelos minerais, como a bauxite, o crómio, o cobalto, o cobre, o ouro, o manganês, a platina, o titânio e o urânio.
    É por isso que Michael T. Klare prevê: «Todos os pré-requisitos para a ocorrência de conflitos recorrentes juntam-se aqui: vastas concentrações de matérias-primas vitais, numerosas disputas territoriais em áreas onde estas existem, instabilidade política e tribalismo generalizados, a existência de exércitos privados de mercenários e uma colaboração histórica entre as empresas estrangeiras que exploram as riquezas e os senhores da guerra.»

    Além-mar
    Janeiro 2003

    Excertos adaptados

    Manuel Giraldes

    Água doce – A vida da Terra

    Vivemos num Planeta Azul, é certo, mas apenas 0,007 por cento da água que o cobre assegura a sobrevivência da humanidade. Cada vez há mais gente. Cada vez se gasta mais e se polui mais. Cada vez há menos biodiversidade. Não admira que a ONU considere a gestão de tão escasso recurso um desafio vital para o mundo.

    O desastre foi tão total e absoluto, que se tornou um símbolo: o mar de Aral, em tempos o quarto maior lago da Terra, está hoje reduzido a metade; e onde antes fervilhava a vida, existem agora carcaças de navios e terrenos estéreis. Em poucas décadas, uma fonte de vida e de riqueza transformou-se num foco de pobreza e de doenças.
    Tudo começou nos anos 60, quando a cega tecnocracia da então União Soviética decidiu desviar quantidades incalculáveis de água dos dois rios que alimentam o Aral para transformar a região num dos grandes produtores de algodão. A opção por uma cultura tão intensiva começou por reduzir-lhes drasticamente o caudal. Mas, com a fria obstinação de burocratas fechados nos seus distantes gabinetes, os planificadores, insatisfeitos com a produção, insistiram com os agricultores para usarem ainda mais água; e, para compensarem a inadequação dos terrenos, instaram-nos a recorrer a perigosas quantidades de pesticidas e fertilizantes.
    O resultado não poderia ser mais desolador: no lago assim dessecado, os dois maiores portos jazem agora em terra firme, a mais de dez quilómetros do que em tempos mereceu o nome de mar; a pesca e a navegação extinguiram-se; a salinidade aumentou quatro vezes e a poluição é imensa; a população ribeirinha padece de graves enfermidades, causadas pela contaminação da água potável e da água usada para irrigação; as colheitas caíram em flecha; e até o microclima se alterou: violentas tempestades de areia varrem a zona, dispersando pelas redondezas qualquer coisa como 150 mil toneladas de sal e areias contaminadas.
    O que se passou com a bacia do mar de Aral serve, ainda que pela negativa, de publicidade à decisão da ONU de ter declarado 2003 o Ano Internacional da Água Doce.
    Porque diz quase tudo sobre um dos bens mais escassos e mais preciosos do mundo.

    Uma gota no oceano

    A iniciativa da declaração partiu precisamente do Tajiquistão, que é, juntamente com o Afeganistão, Cazaquistão, Quirguizistão, Usbequistão e Turquemenistão, um dos países afectados pelos danos irreparáveis causados à bacia hidrográfica do Aral. Ao tentarem retomar o leme do seu destino após a implosão da ex-URSS, os seis concluíram que, sem uma gestão conjunta e coordenada, não seria possível remediar os estragos feitos. Desde 1992 que mais de 140 cientistas, envolvidos em mais de 20 projectos apoiados pela UNESCO, se esforçam por encontrar soluções. Ainda se pensou em desviar outros rios, por forma a repor o caudal anterior a 1960, mas temeu-se o agravamento do desastre ecológico. De momento, procura-se gerir a situação herdada, coordenando os planos nacionais em áreas tão sensíveis como a agricultura e a exploração hidroeléctrica.
    Gestão integrada é, juntamente com desenvolvimento sustentável, uma das palavras-chave quando se trata de defender um dos bens mais raros do planeta. Na verdade, quando pensamos que vivemos num Planeta Azul, esquecemos que mais de 97 por cento da água que cobre o globo é demasiado salgada para beber ou para sustentar os frágeis ecossistemas dependentes da água doce, que representa uns escassos 2,5 por cento. E, mesmo assim, nem toda disponível: desta, 70 por cento apresenta-se sob a forma de gelo e encontra-se nos pólos; a maior parte da restante impregna o solo ou jaz em inacessíveis lençóis subterrâneos; o que faz com que apenas um por cento (0,007 por cento do total) se encontre disponível para ser usada pelo homem.
    Nesta matéria, as contas são sempre de dividir e diminuir: calcula-se que, actualmente, a população do globo já esteja a usar metade dos 12 500 quilómetros cúbicos de água de que precisa para sobreviver. Como se espera que o número de habitantes do planeta sofra um aumento de 50 por cento nos próximos 50 anos, não fica grande margem de manobra. Ou seja, sobra muito pouca água. Até porque há que ter em conta que não se pode esvaziar rios e lagos, que são precisos para manter a saúde do ecossistema. Isto já para não falar nas pescas, nas actividades recreativas, na navegação ou na energia hidroeléctrica.

    O maior consumidor

    A agricultura, que terá de crescer para dar de comer a uma população mundial em crescimento, já é o maior «consumidor» de água da Terra: calcula-se que seja responsável por 87 por cento dos gastos.
    Tradicionalmente, as culturas surgiam geralmente em zonas onde era possível contar com a humidade que as chuvas deixam no solo. Porém, à medida que as necessidades alimentares foram aumentando, foi-se recorrendo cada vez mais à irrigação, o que significa ir buscar água aos lagos, rios ou lençóis subterrâneos. Presentemente, 40 por cento dos alimentos de que o mundo dispõe provêem de terras irrigadas, que representam apenas 17 por cento do total das áreas cultivadas. Não é de estranhar que, nas últimas quatro décadas, a água utilizada na irrigação tenha aumentado mais de 60 por cento.
    Esta tendência reflecte, aliás, a tendência geral, que tem a ver com as mudanças de estilo de vida em curso no planeta. Entre 1900 e 1995, o consumo de água aumentou seis vezes, ou seja, cresceu a um ritmo duas vezes superior ao do aumento da população. A par com a irrigação, os grandes «responsáveis» são o crescimento da actividade industrial e o crescente consumo doméstico.
    Este gasto acima das «nossas posses» tem obviamente os seus custos. De momento, cerca de 460 milhões de pessoas (mais de oito por cento da população do globo) vivem em zonas de uma forma ou outra afectadas pela escassez de água; e, tendo em conta as práticas actuais, mais um quarto da população mundial se prepara para vir a conhecer sérios problemas de abastecimento. Em 2025, dois terços dos habitantes do Planeta Azul poderão ter de lidar com este tipo de problemas.

    As doenças da água

    Como se não bastasse gastar a mais, o actual modelo de desenvolvimento, um sistema baseado no desperdício e no pressuposto de que os recursos da Terra são infinitos, teima em estragar de mais. Para além da agricultura intensiva, que recorre a insustentáveis quantidades de pesticidas e fertilizantes, a poluição causada pela crescente industrialização e pela imparável urbanização, raramente acompanhadas por um adequado saneamento básico, continuam a degradar a qualidade da água dos rios, dos lagos e dos lençóis subterrâneos.
    O problema é fácil de criar mas difícil de resolver. Os Estados Unidos da América, o país mais rico e poderoso do mundo, fez, ao longo de várias décadas, grandes investimentos públicos para controlar a qualidade das suas águas, mas, mesmo assim, cerca de 40 por cento dos seus rios, lagos e estuários não atingem ainda os padrões estabelecidos pelos organismos oficiais. Antes de o programa ser posto em prática, havia rios a tal ponto poluídos que deflagravam incêndios na camada de poluentes que os cobriam.
    Segundo um relatório das Nações Unidas, o uso e o abuso da água disponível é já um travão ao desenvolvimento das nações mais pobres. Um círculo vicioso. Devido sobretudo à pobreza, pelo menos um quinto da população mundial não tem acesso a água potável e metade não dispõe de saneamento. Resultado: em qualquer momento, metade das pessoas que vivem no planeta sofrem de doenças relacionadas com as más condições do que bebem ou comem, originadas directamente por infecções ou, indirectamente, por organismos que se reproduzem na água ou na comida.

    O desafio de Quioto

    A dimensão e a premência do problema são cada vez mais evidentes. Não terá sido por acaso que, durante a decepcionante Cimeira Mundial sobre Desenvolvimento Sustentável, que teve lugar em Joanesburgo em 2002, a água e o saneamento se tornaram a questão mais consensual. E, consequentemente, a que teve uma resposta mais concreta: o programa destinado a assegurar a 1,5 mil milhões de pessoas, até 2015, o acesso à água potável e a um saneamento básico adequado.
    O relatório da ONU avisa: «A água tem de ser encarada como um dos maiores desafios que o mundo enfrenta. É tão importante como as alterações atmosféricas, a desflorestação, a defesa da biodiversidade e a desertificação, tudo questões relacionadas com a gestão da água. Uma grande parte das tendências negativas levarão anos a inflectir, pelo que se torna imperativo que as acções destinadas a iniciar essa inflexão comecem imediatamente.» Resta saber se os grandes do mundo estarão à altura da grandeza do desafio.

    Há muitos milhares de anos atrás, o Laaerberg, um pequeno monte na cidade de Viena, estava coberto por floresta virgem. Nela viviam o mamute e o rinoceronte sem corno. O mamute extinguiu-se, o rinoceronte emigrou para sul mas a floresta virgem ficou. Ficou assim por muitos milhares de anos, até que, há poucos séculos, os homens decidiram arrancá-la.

    Como o solo deixara de ser protegido pelas árvores, o sol queimava-o. Como consequência, a terra secou e ficou reduzida a pó. O vento, quando soprava, arrastava para longe esse pó que fora terra fértil na altura em que a vegetação a protegera. Uma estepe estendia-se agora na área que tinha sido outrora uma grande floresta. Erva insuficiente segurava com as fracas raízes uma fina camada de húmus onde, apenas alguns centímetros mais fundo, estava já o “esqueleto” e as “entranhas” do Laaerberg: cascalho e lama infértil.

    O clima da zona (o “microclima”) também se adaptara ao novo e horrível aspecto do Laaerberg. A antiga floresta de carvalhos tornava o ar mais fresco e fazia com que houvesse mais humidade no ar, por isso chovia mais. Agora, sem árvores, o Verão era muito quente e seco, e a chuva, de que as plantas tanto precisavam, caía muito mais esporadicamente do que antes.

    No início dos anos 50, a município decidiu que a antiga floresta devia renascer tão bonita como fora dantes. Em 1953 e 1954 a administração das florestas plantou árvores pequeninas, mas a terra húmida da floresta há muito que se tinha tornado numa estepe completamente seca. As raízes não tinham humidade e o sol queimava as pontas frágeis. Assim não iam conseguir.

    Para tornarem a nascer árvores, o solo precisava de mais água, de mais nutrientes e de mais protecção contra o sol intenso e escaldante do Verão. A administração das florestas construiu um sistema de rega e transportou terra boa, húmus, para o Laaerberg. Quando ficou pronto plantaram… não, desta vez não foram ainda plantados carvalhos.

    Primeiro, plantaram arbustos para impedir o solo de secar e que ao mesmo tempo seguravam as encostas dos lagos. Foram várias espécies de espinheiros e outras plantas que cresciam espontaneamente em zonas como aquela. Nas encostas também se plantaram espinheiros e arbustos com picos para impedirem as pessoas de descer pelas colinas, o que poderia danificá-las.

    De seguida, os funcionários da administração das florestas plantaram freixos de crescimento rápido que não só davam sombra, como também protegiam do vento. E depois esperaram. Cuidaram da nova plantação até os arbustos se tornarem fortes e espessos e os freixos se tornarem suficientemente grandes. Isto durou muitos anos. Finalmente chegou a altura de plantar as primeiras árvores espontâneas daquela zona. Carvalhos e áceres, freixos e pinheiros bravos. Desta vez, as arvorezinhas desenvolveram-se e quando deixaram de precisar do suporte dos freixos, que nunca antes tinham nascido no local, estes foram arrancados.

    Os guardas florestais plantaram cerca de 270.000 plantas florestais e trabalharam durante cerca de 25 anos para devolverem ao Laaerberg o seu antigo aspecto. A Natureza, uma vez desertificada e danificada, não é assim tão fácil de restabelecer. Mas agora cá está a nova floresta, como se nunca tivesse sido diferente.

    A propósito, será que o Laaerberg é natural? Claro! Mas também é artificial, naturalmente…

    Ernst Epler

    Lene Mayer-Skumanz (org.)
    Hoffentlich bald
    Wien, Herder Verlag, 1986
    Texto traduzido e adaptado

    SOS Terra

    Além-Mar
    Maio 2001

    Excertos

    A Terra corre perigo, e com ela todas as maravilhas da Criação. A actividade humana produziu efeitos irreversíveis na água, nos mares,nos gelos, nos solos, nas florestas; e tem vindo a acelerar a extinção de animais e plantas, que estarão a desaparecer a um ritmo de 27 mil espécies por ano. No dia 19 de Abril, quando se assinalou um pouco por todo o Mundo o Dia da Terra, não havia razões para festejar: os Estados Unidos da América acabavam de se desligar do protocolo de Quioto,uma pouco ambiciosa mas pioneira tentativa de reduzir as emissões dos gases responsáveis pelo efeito de estufa. E a sua acumulação na atmosfera que está a causar o aquecimento do clima e, paralelamente, catástrofes naturais cada vez mais frequentes.

    SOS Terra! É tempo de parar, escutar as suas queixas, olhar as suas e as nossas feridas. Porque é urgente reflectir, educar e agir.

    Equilíbrio ecológico: desafio do século XXI

    A crise ecológica põe em risco a humanidade no seu conjunto. Enfrentá-la implica agir depressa, e a vários níveis. Sem esquecer que o equilíbrio ambiental é impossível numa sociedade global profundamente desequilibrada pela injustiça.A crise que o mundo atravessa neste princípio de século e de milénio é a primeira à escala global que a humanidade enfrenta. Ao mesmo tempo espiritual, social e ecológica, tem a sua origem em rupturas que alastram a todas as dimensões do ser humano: no corte de relações com Deus, connosco próprios, com os outros e, cada vez mais, com a Natureza.

    Foi nos anos 60 que se começou a falar e a escrever sobre a necessidade de defender o meio ambiente. Quatro décadas volvidas, tornou-se óbvio que se trata de uma questão de sobrevivência – dos animais, das plantas, mas também do Homem. E que não é possível abordá- la separadamente: o equilíbrio ecológico é impossível numa sociedade global profundamente desequilibrada pela injustiça.

    Um esforço sério para proteger o meio ambiente e para promover o desenvolvimento dos povos que foram expulsos do banquete da sociedade de consumo não será possível sem uma profunda reforma das estruturas que alimentam a pobreza e a exclusão de dois terços da humanidade. A promessa de um novo céu e de uma nova terra mantém-se. Mas só se cumprirá se estivermos preparados para reatar as relações que negligenciámos.

    O planeta Terra não poderá suportar durante muito tempo os nossos actuais padrões de consumo. Há cerca de 60 anos, a população mundial era de 1,6 mil milhões. Hoje, já ultrapassámos os seis mil milhões. E, segundo as projecções das Nações Unidas, no ano 2050 atingiremos os nove mil milhões. A Terra pode parecer-nos imensa, mas os seus recursos são finitos. Há meio século, Gandhi dizia: «Há que chegue para as necessidades de todos, mas não para a ganância de toda a gente.» Entretanto, em precisamente 50 anos, consumimos mais de 50 por cento da água potável e das reservas de energia do planeta, e destruímos mais de 50 por cento das suas florestas. A situação precária em que nos encontramos é em grande parte atribuível a um excesso de consumo. De que são responsáveis os 20 por cento que vivem nos países desenvolvidos, e não os 80 por cento de pobres que habitam em dois terços do globo: somos nós, os ricos, que gastamos 86 por cento dos recursos mundiais.

    Os grandes defensores da economia de mercado livre parecem ignorar o que se passa com esta esfera azul que nos assegura a vida. Por isso promovem o consumo desenfreado, o usa e deita fora, esquecendo-se que quatro quintos da população mundial não dispõem de meios para satisfazer as necessidades básicas, destruindo o meio ambiente e comprometendo a subsistência das gerações futuras.

    Na encíclica que dedicou à vida, João Paulo II enumerou os vários aspectos da cultura da violência e da morte em que estamos mergulhados, e referiu especialmente a opressão a que ela sujeita a humanidade e a Criação no seu conjunto. A dimensão dos atentados é bem dada por Thomas Berry no livro O Sonho da Terra: Estamos a interferir à escala geológica e biológica. Mudando a química do planeta, alterando os grandes ciclos da água, saturando o ar e o solo de produtos tóxicos, a tal ponto que não poderemos jamais restituir-lhe a sua pureza original. Estamos a transtornar todo o ecossistema terrestre, que, ao longo de milhares de milhões de anos, produziu uma tão magnífica parada de formas vivas. De caminho, estamos a fazer desaparecer milhares de espécies – pássaros, peixes, insectos, répteis, vertebrados e mamíferos; plantas, árvores, árvores de fruto… Segundo E. O. Wilson, um biólogo de Harvard, todos os anos desaparecem 27 mil espécies.

    As formas de violência são inúmeras. Neste preciso momento, 34 conflitos regionais semeiam a devastação entre os seres humanos, mas também na Natureza. Não só a guerra mata e devasta. As instituições financeiras internacionais, entre as quais avultam o Banco Mundial, o Fundo Monetário Internacional ou a Organização Mundial do Comércio, propagam a violência institucionalizada própria de uma cultura económica violenta, um conflito velado mas generalizado que faz com que os vencedores – os ricos – fiquem mais ricos e os vencidos – os pobres – cada vez mais pobres. Pelo simples facto de promoverem as monoculturas nos países do Sul, estão a semear a degradação ambiental e a afectar a biodiversidade.

    A destruição do ambiente atinge em primeiro lugar as mulheres e, sobretudo, as mulheres pobres dos países pobres: São as mulheres quem mais sofre quando não há água limpa para beber, quando falta o combustível e um meio salubre. Porque sabem o efeito que isso tem sobre as suas famílias, percebem melhor como o equilíbrio natural é precário, escreveu a teóloga Aruna Gnanadason.

    Educar é preciso

    Passar de uma irresponsável indiferença a uma política consciente que difunda uma justiça ecológica diz respeito a cada um dos seis mil milhões viajantes da «nave Terra». Para que a viagem prossiga, há que pensar que a maior parte dos povos ricos consome como se não existisse um amanhã. E que os pobres, levados pela intensa publicidade difundida até ao mais remoto recanto do planeta, tendem a seguir-lhes os passos. A tecnologia transformou por completo os padrões dos países industrializados, a nível do trabalho e da família, mas também no campo da comunicação, do lazer, da alimentação e da saúde, e transformações semelhantes estão em curso nos mais prósperos países em vias de desenvolvimento.

    Um relatório recentemente publicado por um conjunto de 700 cientistas mostra que a situação é bastante mais grave do que há uns tempos se poderia prever. Segundo o documento, a temperatura do globo poderá subir até 5,8 graus ao longo deste século, e alguns dos ecossistemas já estão a dar o alerta: a camada de gelo que cobre o Árctico «emagreceu» cerca de 42 por cento; a degradação ambiental está na origem de catástrofes naturais de dimensões cada vez maiores e cada vez mais frequentes. Se não se reduzir desde já a emissão dos gases que causam o efeito de estufa, o aquecimento global poderá custar à humanidade qualquer coisa como 300 mil milhões de dólares/ano durante o próximo meio século. Ou seja: se os líderes internacionais não agirem de imediato, a economia global poderá vir a sofrer um grave abanão; calcula-se que as catástrofes naturais tenham causado, só na última década, prejuízos da ordem dos 608 mil milhões de contos.

    Proximamente, haverá duas excelentes oportunidades para agir e consciencializar a opinião pública internacional: a Organização das Nações Unidas para as Alterações Climáticas vai reunir-se em Bona, na Alemanha, durante o mês de Julho; e, em 2002, será debatida e eventualmente adoptada pela ONU a Carta da Terra.

    Porém, a chave da mudança reside na educação: formar é transformar. Porque há pessoas com um elevado nível de educação que, na realidade, são ignorantes em matéria de crise ecológica. Porque há outras que, apesar de bem informadas, se recusam a mudar o seu estilo de vida. Há grandes teólogos e grandes especialistas em espiritualidade, psicologia e sociologia que não percebem a urgência da tarefa. No seio das próprias comunidades religiosas se têm evitado ou adiado opções ou manifestações que envolvam riscos e mudanças estruturais. Os missionários, que reconhecem a necessidade de repensar à luz dos nossos dias o seu papel no mundo moderno, têm de admitir que a ecologia é parte integrante da sua missão.

    Segue: SOS Terra (cont.)

    SOS Terra (cont.)

    Além-Mar
    Maio 2001
    Excertos

    Anterior: SOS Terra – Equilíbrio ecológico: desafio do século XXI

    Aquecimento do clima: catástrofe global

    O clima está a aquecer. Calcula-se que, até ao final do século, a temperatura média poderá aumentar até 5,8 graus. As catástrofes naturais tornar-se-ão então a norma,nações inteiras acabarão por desaparecer.

    Durante muito tempo, os cientistas hesitaram. Como os ciclos climáticos são longos e dependem de uma inúmera e extremamente complexa série de factores, acreditavam estar a assistir a um aquecimento global, mas não sabiam se deviam atribui-lo a causas naturais, que o Homem não poderia portanto alterar, ou à intervenção humana, e consequentemente passíveis de correcção. Ultimamente, porém, gerou-se um consenso na comunidade científica. Já se sabe que o globo está de facto a aquecer, e que esse aquecimento terá efeitos desastrosos para a humanidade, se a comunidade internacional não agir depressa e concertadamente.
    As previsões até pioraram. Calcula-se agora que, até ao final do século, a temperatura média à superfície poderá aumentar até 5,8 graus, e sabe-se que tanto mais subirá quanto maior for a acumulação na atmosfera dos gases responsáveis pelo efeito de estufa. As calamidades naturais repetidas e de uma intensidade sem precedentes conhecidos – desde as repetidas cheias em Moçambique às chuvas torrenciais em Portugal e um pouco por toda a Europa, passando por secas mais intensas e prolongadas, furacões e tufões mais frequentes e devastadores e alterações dramáticas das correntes oceânicas – aí estão para nos fazer temer as consequências.
    O efeito mais global e temível, que passa pelo degelo nos pólos e por uma subida do nível dos mares, é quase difícil de imaginar. Sabe-se que, mesmo com uma ligeira subida das águas, vários Estados insulares irão desaparecer e muitas zonas costeiras ou situadas junto à foz dos rios, precisamente aquelas em que se concentram grande parte das cidades e uma boa parte das principais actividades económicas, estão condenadas a ficar alagadas.
    Durante o último século, o nível dos mares subiu entre 10 e 25 centímetros, devido à expansão térmica dos oceanos. Mas os cientistas calculam que poderá vir a subir, ao longo dos próximos cem anos, uma média de 5 centímetros por década; alguns cálculos sugerem mesmo que no final deste século a subida poderá ser de um metro.
    A cadeia do clima é extremamente intricada. Veja-se: o aumento de temperatura já verificado nas regiões polares é responsável pela libertação dos gases que a camada de gelo do Árctico foi retendo ao longo de milénios, contribuindo assim para agravar o efeito de estufa; uma pequena alteração da temperatura da água dos oceanos tem efeitos imprevisíveis nas correntes, na deslocação dos cardumes, na vida marinha e também, de uma maneira geral, nas condições climáticas a que estão sujeitos os habitantes da Terra: uma ligeira subida basta para matar os recifes de coral e o sem-número de criaturas que deles dependem.
    As alterações afectam todos os homens e todas as criaturas vivas, mas terão um impacto maior nos mais pobres e nas zonas já afectadas por condições climáticas extremas. A organização Christian Aid calcula que, no ano 2020, três quartos da população mundial enfrentarão a ameaça, ora de secas ora de cheias. Outra estimativa: os «refugiados ecológicos» poderão atingir os 25 milhões. Há que ter em conta que os mais pobres serão também aqueles que mais dificilmente se adaptarão às novas condições e a tudo aquilo que acarretam: o stress térmico, o alastramento das doenças tropicais propagadas por insectos, culturas agrícolas perdidas ou imprevisíveis, etc.
    Os países ricos do Norte reagirão, naturalmente, melhor, embora o desastre lhes seja em grande parte atribuível: 80 por cento das emissões do dióxido de carbono que, ao longo dos últimos 150 anos, se foram acumulando na atmosfera são da sua inteira responsabilidade.

    Dívida ecológica

    Só em 1990 os governos começaram a discutir em conjunto com os cientistas o aquecimento global. Em 1992, na Cimeira da Terra do Rio de Janeiro, seria adoptada e posteriormente ratificada a Convenção Quadro das Alterações Climáticas. Em 1997 foi elaborado o Protocolo de Quioto, em que os países mais ricos se comprometem a reduzir as emissões de gases responsáveis pelo efeito de estufa em 5,2 por cento. Em Março deste ano, o Presidente George Bush afirmou que os EUA não iriam ratificá-lo, alegadamente para defender a economia norte-americana, a mais poderosa e a mais poluente do mundo.
    Organizações, tanto dos países do Norte como dos países do Sul, têm vindo a insistir numa abordagem que não se limite ao controlo das emissões. Está neste momento em curso uma Campanha Internacional para o Reconhecimento e a Reivindicação da Dívida Ecológica. Entende-se por «dívida ecológica» a responsabilidade acumulada pelos países do Norte devido à destruição causada pelos seus sistemas de produção e pelos seus padrões de consumo, que se traduziria numa reparação devida aos países que, primeiro, foram espoliados das suas riquezas naturais e, depois, passaram a sofrer as consequências de um crescimento de que não usufruem.

    Estado do Planeta

    OCEANOS. Mais de dez mil milhões de toneladas de produtos poluentes espalham-se pelos oceanos sob a forma de sedimentos, detritos provenientes dos esgotos, fertilizantes, produtos químicos tóxicos, substâncias radioactivas, petróleo, etc. Em todo o mundo, a maior parte dos desperdícios são descarregados nas zonas costeiras, ou seja, nas áreas onde a actividade piscatória é mais intensa. Mais de 70 por cento das espécies acusam os efeitos de uma pesca desregrada e excessiva, que não permite a regeneração dos cardumes e algumas já entraram em colapso. Os produtos químicos tóxicos são detectáveis desde o Antárctico até ao Árctico. Os recifes de coral, ecossistemas de uma fragilidade extrema que dão abrigo a mais de 25 por cento da vida marinha, estão a ser destruídos a uma velocidade assustadora: se o ritmo se mantiver, dentro de quatro décadas 70 por cento terão desaparecido (até aqui já desapareceram 25 por cento).

    ÁGUA. Quarenta por cento da população mundial não dispõem de água potável. Oitenta por cento das doenças que afectam os habitantes de dois terços do globo estão relacionadas com o estado da água e com o saneamento: mais de dois milhões, a maior parte crianças, morrem todos os anos devido a diarreias provocadas por essas deficiências. Quer se trate de água para beber, cozinhar ou lavar, um terço dos lares do mundo abastece-se numa fonte situada no exterior da casa, o que frequentemente obriga as mulheres e as meninas a percorrerem grandes distâncias para a obterem. Cada vez mais na mão de empresas privadas, o abastecimento está a tornar-se um negócio como outro qualquer: só no ano passado, na Bolívia, o preço da água potável subiu 36 por cento.

    FLORESTAS TROPICAIS. As florestas tropicais são o mais antigo ecossistema do planeta e dão guarida a 60 por cento das espécies existentes na Terra: em metade do espaço ocupado por uma cidade como Lisboa, é possível encontrar 545 espécies de pássaros, 100 de libelinhas e 729 variedades de borboletas; na floresta de um país da dimensão da Costa Rica coexistem 205 tipos de mamíferos, 845 variedades de pássaros e dez mil de plantas; numa região montanhosa, só num hectare de floresta pode haver uma centena de diferentes espécies de árvores; a baía do Amazonas armazena dois terços da água da Terra, e em apenas 12 hectares de floresta amazónica é possível encontrar cerca de 300 espécies de árvores. As florestas tropicais asseguram entre 25 a 40 por cento dos produtos farmacêuticos; e preservam 70 por cento das três mil plantas que contêm substâncias capazes de combater o cancro; desde vários tipos de óleos à cera, à borracha e ao látex, são diversos os produtos industriais que nos fornecem. Pense-se no que já se perdeu: 80 por cento das florestas que em tempos cobriram a Terra já foram abatidas, e o seu corte provocou o extermínio de milhões de espécies. São as populações indígenas as mais afectadas pela destruição da floresta, uma vez que, quando esta desaparece, desaparece também a sua forma de sustento; quando são forçadas a partir, perde-se o seu precioso saber sobre as plantas e os animais que dela dependem.

    BARRAGENS. Em vez de serem a solução milagrosa que em tempos se apregoava, as grandes barragens tiveram um pouco por todo o mundo um impacto ecológico e social frequentemente devastador. Porque cortaram e transformaram o curso dos grandes rios, levando ao desaparecimento de muitos peixes e plantas de água doce. Porque as suas albufeiras alagaram as terras mais férteis, que eram o habitat de muitas espécies. Porque entre 60 a 80 milhões de pessoas foram escorraçadas das suas casas e das suas terras, perdendo o seu sustento e engrossando as multidões obrigadas a deslocar-se para as cidades (só na Índia são 33 milhões). Porque se calcula que as suas vantagens beneficiem sobretudo os que já têm uma vida desafogada. Conscientes das suas desvantagens, os países industrializados já começaram a demolir parte das suas barragens. Porém, mais 1600 estão em construção, em 42 países.

    SOLOS. Mais de 40 por cento dos terrenos agrícolas da Terra estão seriamente degradados. Vinte por cento dos terrenos correm perigo de virem a tornar-se desérticos: é o que acontece anualmente a 23 mil metros quadrados de terrenos férteis. A desertificação tem custos elevadíssimos – a nível ecológico, mas também social, económico e humano. O deserto progride sempre que a erva, os arbustos ou as árvores desaparecem, permitindo que a chuva e o vento levem a fina camada de solo arável. A erosão do solo causa um decréscimo na produção de alimentos.

    BIODIVERSIDADE. Os paleontólogos identificaram seis extinções em massa, ocorridas ao longo dos últimos 500 milhões de anos; os peritos em biodiversidade dizem que estamos agora a assistir à sétima. Das 4630 espécies de mamíferos actualmente existentes, 25 por cento correm um significativo risco de extinção, e o mesmo se passa com 11 por cento das 9675 espécies de pássaros; 976 espécies de árvores correm um sério risco. Nas últimas décadas, desapareceram 20 por cento das espécies de água doce e calcula-se que, nos próximos 50 anos, o mesmo se passe com metade de todas as espécies existentes à face da Terra. Ao longo da História, para se alimentar, o Homem cultivou ou colheu sete mil espécies de plantas; hoje, apenas 20 fornecem 90 por cento do que consumimos. O milho, o trigo e o arroz são responsáveis por mais de metade.

    EFEITO DE ESTUFA. Os gases responsáveis pelo efeito de estufa são poluentes que se acumulam na atmosfera, capturando, como numa estufa, o calor do Sol e acelerando o aquecimento global. A humanidade está a alterar a composição química da atmosfera através do consumo excessivo dos combustíveis de origem fóssil (carvão, petróleo, gás natural) utilizados para produzir electricidade, na indústria e nos transportes. Dos vários gases, um dos mais nocivos é o dióxido de carbono: a sua presença na atmosfera aumentou 30 por cento desde meados do século XIX, e calcula-se que, se nada for feito para cumprir os acordos internacionais que prevêem a sua redução, aumentará 60 por cento até 2040. A desflorestação, que liberta o carbono das árvores, é responsável por 20 por cento das emissões de carbono, um dos factores que favorecem as alterações climáticas. Desde a II Guerra Mundial, o número de veículos motorizados existentes no planeta – uma das grandes fontes de dióxido de carbono – passou de 40 para 680 milhões.

    CAMADA DE OZONO. Os clorofluorcarbonetos (CFC) contribuem em 23 por cento para os gases que estão na origem do efeito de estufa, mas, ao mesmo tempo que causam o aquecimento global, provocam também a rarefacção da camada de ozono, que protege a Terra e os homens da agressão dos raios ultravioletas. Os CFC, libertados por uma parte dos aerossóis e por aparelhos de refrigeração (sistemas de ar condicionado ou frigoríficos), acumulam-se na atmosfera e estão a aumentar à média de sete por cento ao ano. A camada de ozono está a diminuir, mas não de forma uniforme: os maiores buracos encontram-se sobre os pólos. Os efeitos do aumento da radiação ultravioleta: mais cancros de pele; mais doenças de olhos; danos no sistema imunitário; colheitas menos abundantes e perturbações nos sistemas oceânicos.

    Irmã Rose Fernando

    Desde a independência do Quénia, nos anos 60, que o governo tem trabalhado para modernizar o país, mas muitos problemas se têm deparado. À medida que a população cresce, mais árvores são cortadas para se obter terra para cultivar e lenha para cozinhar e aquecer. Sem as raízes das árvores para segurar a terra, as chuvas fortes fazem desaparecer o solo fértil. As florestas estão a dar lugar a novos desertos.

    Esta é a história de alguém que está a trabalhar para melhorar a vida dos habitantes do Quénia. O nome dela é Wangari Maathai, e o seu trabalho não é nada fácil.
    Wangari Maathai foi uma das quenianas que tiveram a sorte de receber uma formação académica. Na escola, disseram-lhes, a ela e aos outros jovens, que seriam eles os futuros líderes do país. Teriam a responsabilidade especial de trabalhar para ajudar o povo queniano. Wangari tomou a sério esta responsabilidade. Quando acabou a escola e viu o que estava a acontecer à terra, decidiu ajudar a plantar árvores. Não umas poucas árvores no jardim lá de casa, nem algumas centenas numa pequena floresta, mas milhares de árvores, milhões mesmo.
    O seu primeiro projecto não correu muito bem. Conseguiu obter de graça seis mil árvores, mas estas eram frágeis, com raízes pequenas e apenas algumas folhas. Decidiu dá-las a plantar a pessoas que precisavam muito de trabalho. Mas essas pessoas não tinham nem as ferramentas necessárias, nem dinheiro para irem de autocarro até ao trabalho. Acresce que, devido a uma época de seca excessiva, o governo decidiu que não se podia utilizar água nos jardins. Apenas duas das pequenas árvores não morreram. Foi um começo muito desencorajador.
    Por essa altura, Wangari foi a uma conferência das Nações Unidas no Canadá. Conheceu pessoas como Margaret Mead e Madre Teresa, pessoas com muita experiência no que dizia respeito a melhorar as vidas dos outros. Isso deu-lhe forças para continuar a tentar, mas percebeu que não poderia fazê-lo sozinha.
    Wangari voltou para o Quénia e fundou uma associação de mulheres de todo o país. O seu primeiro projecto foi levar líderes importantes a plantar sete árvores em Nairobi, a capital do Quénia, em honra de sete heróis quenianos importantes. Conseguiram ver as suas fotografias no jornal e obtiveram muita publicidade. Infelizmente, as pessoas que deveriam ter tomado conta das árvores não lhes deram água suficiente. As árvores depressa morreram.
    Em seguida, Wangari e a associação estabeleceram o objectivo de plantar milhões de árvores em terrenos públicos. As pessoas que viviam perto olhariam por essas árvores. Chamaram ao projecto “Salvem a Terra Haram-bee” (Ha-rahm-BAY quer dizer ”Caminhemos na mesma direcção”).
    O departamento florestal do governo gostou dos projectos das mulheres e concordou em dar-lhes, de graça, plantas semeadas. Mas quando o comité pediu quinze milhões de plantas ainda novas, o departamento decidiu que não podia ser assim. Quinze milhões eram demasiado.
    Isto deu outra ideia a Wangari. Além de ajudar a terra, queria dar poder às pessoas que não o tinham. Por que não treinar as mulheres para criar viveiros de árvores? Assim, as mulheres poderiam ganhar dinheiro ao fornecer-lhe as árvores que ela queria plantar.
    A ideia funcionou. As mulheres foram ensinadas a fazer enxertos de árvores que cresciam naturalmente nas suas zonas. Aprenderam a plantar árvores, a cuidar delas e a gerir um pequeno negócio. Estavam a aprender a ajudar-se a si próprias e, ao mesmo tempo, a ajudar a terra. Era maravilhoso.
    Em breve, as pessoas começaram a plantar os tipos certos de árvores, da forma correcta. Plantavam-nas em fila, de modo a servirem de barreira contra o vento e a manter a humidade do solo. À medida que as árvores cresciam e os seus ramos se expandiam, podiam ser podadas. As que eram abatidas serviam como lenha. O que era igualmente maravilhoso.
    Todas as rádios e televisões davam notícias sobre as plantas e as árvores novas. Chegaram cartas de escolas, de igrejas, de instituições públicas, a pedir árvores para plantar. A ideia de Wangari ganhou um novo nome. Passou a chamar-se Green Belt Movement.
    Por todo o Quénia, tanto nas cidades como nas aldeias, as pessoas começaram a formar associações. Os membros do Green Belt reuniam-se para explicar a importância das árvores. Arranjavam ferramentas de jardim, tanques de água, e davam formação àqueles que eram contratados para olhar pelas árvores. Muitas vezes, contratavam pessoas com deficiências, para as quais encontrar trabalho era ainda mais difícil. Centenas de pessoas conseguiram assim emprego.
    Wangari descobriu que, frequentemente, as pessoas plantavam as árvores com grande entusiasmo, mas que depois desistiam de cuidar delas. Por isso, muitas árvores morriam. Então, os membros do Green Belt tentaram uma ideia nova. Sempre que se plantavam novas árvores, prometiam mandar a essas pessoas dinheiro pelas árvores que ainda estivessem vivas, seis meses depois da plantação. Saber que seriam monetariamente recompensadas fazia com que as pessoas fossem mais cuidadosas com as pequenas árvores enquanto estas criavam raízes.
    Wangari estava preocupada, porque muitos plantadores de árvores tinham trazido novos tipos de árvores que cresciam rapidamente. Estas podiam ser cortadas e vendidas mais cedo do que as árvores naturais do Quénia. As pessoas descobriram que, assim, conseguiam dinheiro mais depressa. Mas as árvores que são plantadas para serem abatidas dentro de poucos anos não resolvem o problema da erosão do solo. E estas árvores perturbam o equilíbrio próprio da natureza. Além de lenha e material para construção, as árvores nativas do Quénia fornecem igualmente forragem para animais, frutas, mel e ervas medicinais, coisas que as árvores importadas não provêm.
    Wangari está a trabalhar arduamente para ensinar às pessoas que as árvores nativas são melhores para o Quénia e apercebe-se de que os seus esforços não têm sido em vão. Em apenas doze anos, foram criados mil e quinhentos viveiros de árvores. Mais de dez milhões de árvores nativas foram plantadas em terrenos públicos pelo Green Belt Movement. Muitas estão em cinturas verdes perto de escolas e são as crianças da escola que tomam conta delas. Mais de um milhão de crianças fazem este trabalho. Cada criança cuida de uma ou de duas árvores.
    Em 1989, o Global Windstar Awards deu a Wangari Maathai dez mil dólares pelo seu trabalho de plantação de árvores e de defesa do ambiente no Quénia. As pessoas perguntaram-se o que iria ela fazer com todo esse dinheiro. Na cerimónia de entrega do prémio, anunciou que o daria a viveiros de árvores e às associações do Green Belt Movement noutras partes de África.
    Wangari Maathai fala sobre “aquilo que há de Deus” em todos nós. Acredita que “o que há de Deus” é a nossa capacidade de nos importarmos com as pessoas – todas as pessoas – e com a nossa terra preciosa.

    Janet Sabina e Marnie Clark

    Retirado de VERTICALIZAR

    Papiniano Carlos

    A Menina Gotinha de Água

    Porto, Campo das letras, 1999

     

    A menina gotinha de água

     

     

    Era uma vez

    uma menina

    chamada

    Gotinha de Água.

    A menina

    Gotinha de Água

    vivia

    no mar sem fim.

    E era linda,

    tão linda,

    vestida de esmeralda

    e luar.

    Ora no fundo,

    ora nas vagas

    coberta de espuma,

    ela brincava

    com suas irmãs.

    Brincava

    com os peixinhos,

    dava-lhes beijinhos

    e beliscões,

    e fugia a rir

    por entre as algas,

    e jogava

    às escondidas

    com as anémonas,

    que são as flores

    de mil cores

    que há no mar.

    As vezes,

    vinha até à praia

    e beijava

    as pernas

    e os cabelos

    dos meninos.

    Depois,

    a rir

    e a cantar

    ia de novo

    para o mar,

    lá para o largo

    ver as baleias

    e os navios.

    E a menina

    Gotinha de Água,

    vestida

    de esmeralda

    e luar,

    e tão pequenina,

    a força que ela tinha

    de mãos dadas

    às suas irmãzinhas!

    Todas juntas

    eram o Mar.

    Um dia,

    a menina

    Gotinha de Água,

    vestida de esmeralda

    e luar,

    estava a dormir,

    a sonhar

    à flor

    do mar.

    Então,

    o Sol

    beijou-a

    na face,

    e logo ela

    como se voasse

    subiu no ar.

    Como se sentia leve!

    Subiu,

    subiu,

    subiu

    até que se viu

    numa nuvem

    cor-de-rosa.

    Sorriu

    de contente,

    olhou em volta

    e viu milhões

    de gotinhas como ela

    boiarem no ar.

    — Cá estou eu nas nuvens! —

    disse a Gotinha de Água.

    Então o Sol

    de contente

    sorriu também

    e ao beijá-la

    nos cabelos

    acendeu no céu

    as sete cores

    do arco-íris:

    vermelho

    alaranjado

    amarelo

    verde

    azul

    anil

    e violeta.

    Era tão lindo!

    Tempos depois

    vieram os ventos

    e disseram à nuvem:

    — Vamos.

    E começaram

    a empurrar

    aquela nuvem

    e as outras nuvens

    que boiavam

    altas e rosadas

    sobre o mar.

    A princípio,

    a gotinha

    estremeceu

    de medo.

    Mas depois

    gostou

    da viagem.

    E as nuvens

    viajaram.

    Eram como grandes

    navios

    de algodão em rama.

    Andaram

    assim

    dias e dias

    sobre o Mar.

    Até que uma tarde,

    estava o Sol

    a espreitar,

    muito vermelho,

    lá tão longe

    que parecia

    quase atrás do Mar,

    a menina

    Gotinha de Água

    viu que voavam

    sobre a Terra.

    Olha as praias

    lá em baixo!

    E casas!

    E meninos

    a brincar!

    E estradas

    e pontes

    e automóveis

    e comboios

    a passar!

    Depois

    o vento parou.

    A gotinha

    estremeceu

    quando viu

    dum lado a outro

    do céu

    as nuvens escurecerem

    como breu.

    Olhava

    para baixo e via

    a terra seca,

    os campos secos,

    secas as fontes,

    as flores

    e as searas

    murchas,

    e os homens

    tristes,

    muito tristes

    sem pão

    para darem

    aos meninos.

    Então,

    a menina

    Gotinha de Água

    que tinha

    nascido no mar

    e usava

    um vestido de esmeralda

    e luar,

    pensou:

    E se eu fosse

    dar de beber

    às flores,

    aos campos,

    se eu fosse

    matar a sede

    e a fome

    aos homens

    e aos meninos?

    E disse

    muito alto

    às suas irmãzinhas

    — Vamos.

    E deixou-se cair.

    Ia à frente

    de milhões

    de gotinhas

    todas vestidas

    de esmeralda

    e luar

    e sorriam,

    cantavam

    e assobiavam

    enquanto caíam.

    A menina

    Gotinha de Água

    pousou

    mesmo na boca

    duma flor

    que sorrindo

    feliz

    lhe disse:

    — Bendita!

    Bendita sejas!

    E logo

    uma abelha,

    que andava por ali

    em busca de pólen

    para fazer mel,

    pousou numa pétala

    da linda flor

    e falou-lhe assim:

    Bom dia, meu amor.

    Queres tu dar-me

    um pouquinho

    do teu pólen

    para os meus favos?

    E a flor

    de pétalas

    de ouro

    abertas

    e cobertas

    de gotinhas de água,

    todas vestidas

    de esmeralda

    e luar,

    só lhe disse:

    — Leva o pólen

    que quiseres

    para o teu mel!

    O Sol

    brilhava agora

    cheio de alegria

    e sacudia

    a luz

    da sua imensa cabeleira

    sobre o mundo.

    E as searas

    que estavam a morrer

    de sede

    encheram-se

    de espigas

    e as árvores

    abriram no ar

    os braços

    carregados

    de frutos

    tão docinhos:

    ameixas

    figos

    maçãs, pêras e uvas!

    E os homens,

    as mulheres

    e os meninos

    agradeciam

    satisfeitos

    à chuva que viera

    livrá-los

    da sede

    e da fome.

    — Obrigado!

    Obrigado!

    Então,

    a menina

    Gotinha de Água,

    vestida de esmeralda

    e luar,

    desceu

    aos caminhos

    escondidos

    da terra,

    passou

    entre as raízes

    das plantas,

    desceu

    desceu

    desceu sempre

    até que chegou

    a um palácio

    maravilhoso

    de cristal

    e platina

    que havia

    no seio

    da terra.

    Quando acordou,

    que saudades

    sentiu

    do Mar!

    E disse:

    — São horas, irmãzinhas.

    E puseram-se

    a caminhar

    lá nos caminhos

    do fundo

    da Terra.

    Caminharam.

    Caminharam.

    Até que um dia,

    um pastorinho

    que levava

    as ovelhas

    para o monte,

    quem no diria? —

    viu que duma fraga

    brotava

    uma fonte.

    — Que lindo! —

    disse o pastorinho,

    e com uma folha

    de castanheiro

    fez uma bica

    por onde

    a menina

    Gotinha de Água

    e suas irmãzinhas,

    todas vestidas

    de esmeralda

    e luar,

    saltaram

    alegres

    a cantar.

    Era

    um dia de sol

    na Primavera,

    trinavam

    os passarinhos

    nos seus violinos,

    tocavam os grilos

    e os grilões

    nos seus rabecões,

    assobiavam os melros

    nos seus flautins

    e os sapos,

    os sapinhos

    e os sapões,

    à porta

    das suas casotas,

    estavam a ouvir

    contada

    pelo sapo Zé Manel

    a história

    dum menino

    que foi poeta e pastor

    da Primavera

    e que era

    muito amigo

    dos sapos

    e sapinhos

    e sapões

    e de todos

    os que são

    (como os sapos)

    humildes mas têm

    bom coração.

    Duas rolas cantavam

    ao desafio

    trru-trruu

    trru-trruu

    no alto dum pinheiro,

    e um pica-pau,

    tau-tau

    tau-tau-tau

    brincava

    de carpinteiro.

    Satisfeitas

    e felizes,

    as cigarras

    faziam versos

    ao sol

    e à alegria

    de viver:

    como é bom amar

    olaré, olaré,

    o que o Sol aquece

    e sonhar, cantar

    olaré, olaré,

    o que nos apetece.

    E até

    a senhora

    Dona Formiga

    sempre atarefada

    e consumida

    com a sua vida,

    pousou o fardo

    tão pesado

    que levava

    e estava

    feliz, esquecida

    ao sol da manhã…

    A menina

    Gotinha de Água,

    vestida de esmeralda

    e luar,

    olhou o pastorinho,

    olhou as flores

    e os bichinhos

    do monte

    e disse-lhes:

    — Bom dia, amiguinhos!

    E pôs-se a saltar

    de pedra em pedra,

    a correr,

    a saltar,

    a cantar

    toda contente.

    Atrás dela

    vinham

    suas irmãzinhas,

    e todas vinham

    muito contentes

    e felizes.

    E tanto correram,

    tanto saltaram

    que em breve,

    eia!

    estavam

    no ribeiro

    ao pé do moinho.

    — Olá, senhor moleiro

    — Bom dia, meninas.

    E as gotinhas

    de água,

    vestidas de esmeralda

    e luar,

    puseram-se

    a empurrar

    com suas mãozinhas

    a roda

    do moinho,

    e o moleiro

    todo contente

    dizia:

    — Obrigado!

    Obrigado!

    E seguiram.

    Saltavam

    de penedo

    em penedo,

    corriam

    a cantar

    entre os peixinhos

    e as enguias

    esguias

    do ribeiro.

    Caminharam.

    Caminharam.

    Por entre montes,

    no meio de vales,

    de aldeia em aldeia.

    E eis

    chegaram um dia

    à enorme represa,

    àquela albufeira

    ainda vazia.

    E toca a enchê-la

    enche que enche

    que queriam vê-la

    a transbordar.

    Quantos dias passaram?

    Estavam agora no topo

    da alta barragem.

    Então

    a menina Gotinha de Água

    disse às suas irmãzinhas:

    — Meninas, vamos agora

    pôr a girar o pião

    da electricidade!

    — Vamos! vamos lá!

    E lançaram-se

    a toda a velocidade

    do alto da barragem.

    E

    todas vestidas de esmeralda

    e luar

    enquanto empurravam

    com quanta força tinham

    as pás da turbina

    felizes cantavam:

    Roda que roda

    gira pião

    roda turbina

    na nossa mão

    canta rodízio

    o novo prodígio

    bailemos de roda

    gira dança pião

    ai roda que roda

    na nossa mão.

    Depois

    outros rios

    se vieram juntar

    tecendo os fios,

    os caminhos

    a caminho do Mar.

    Até que um dia…

    um dia

    eia!

    chegaram ao estuário

    do grande rio.

    Eram

    agora

    milhões

    e milhões

    de gotinhas

    de água,

    a correr,

    a brincar,

    a cantar

    a caminho

    do Mar.

    E havia

    barcos

    no rio

    e homens

    a pescar

    e pontes,

    vilas

    e cidades

    debruçadas

    nas margens

    a vê-las passar.

    Uma tarde,

    a menina

    Gotinha de Água

    estremeceu

    de amor.

    Uma gaivota

    roçou-lhe

    de leve

    com sua asa.

    Era o Mar

    que estava perto!

    O rio

    era cada vez

    maior,

    mais largo,

    mais fundo.

    E havia

    já grandes navios

    e uma grande cidade

    cheia de casas

    e de gente.

    A menina

    Gotinha de Água

    pôs-se a correr

    mais ligeira

    e disse

    às irmãzinhas:

    — Vamos, meninas,

    toca a andar

    que estamos

    a chegar

    à nossa casa

    no Mar!

    E uma toninha

    que subia

    o rio

    deu um salto

    fora da água

    e disse:

    — Ora viva

    quem é

    tão linda!

    O céu

    estava cheio

    de gaivotas

    que brincavam

    com o fumo

    dos navios

    e gritavam

    alegremente

    quando viam passar

    vestida de esmeralda

    e luar

    a menina

    Gotinha de Água:

    — Ora viva!

    Ora viva!

    Então,

    a linda menina

    Gotinha de Água,

    vestida de esmeralda

    e luar,

    viu

    que chegara

    finalmente

    ao Mar.

    E desatou

    a cantar:

    Eu sou

    a menina

    Gotinha de Água,

    gotinha azul

    do Mar

    que foi

    nuvem

    no ar,

    chuva

    abençoada,

    fonte

    a cantar,

    ribeiro

    a saltar,

    rio

    a correr,

    e que volta

    à sua casa

    no Mar

    onde vai

    descansar,

    dormir

    e sonhar

    antes que

    de novo

    torne a ser

    nuvem no ar,

    chuva

    abençoada,

    fonte

    a brotar,

    ribeiro

    a saltar,

    rio

    a correr

    e Mar

    uma vez mais.

    A nossa Terra é sagrada

    Carta do Chefe Índio Seattle ao Grande Chefe de Washington, Franklin Pierce, em 1854, em resposta à proposta do Governo norte-americano de comprar grande parte das terras da sua tribo Duwamish, em troca da concessão de uma reserva.

    Como podereis comprar ou vender o céu? Como podereis comprar ou vender o calor da terra? A ideia parece-nos estranha. Se a frescura do ar e o murmúrio da água não nos pertencem, como poderemos vendê-los?

    Para o meu povo, não há um pedaço desta terra que não seja sagrado. Cada agulha de pinheiro cintilante, cada rio arenoso, cada bruma ligeira no meio dos nossos bosques sombrios são sagrados para os olhos e memória do meu povo.

    A seiva que corre na árvore transporta nela a memória dos Peles-Vermelhas, cada clareira e cada insecto que zumbe é sagrado para a memória e para a consciência do meu povo. Fazemos parte da terra e ela faz parte de nós. Esta água cintilante que desce dos ribeiros e dos rios não é apenas água; é o sangue dos nossos antepassados.

    Os mortos do homem branco esquecem a sua terra quando começam a viagem através das estrelas. Os nossos mortos, pelo contrário, nunca se afastam da Terra que é Mãe. Fazemos parte dela. E a flor perfumada, o veado, o cavalo e a águia majestosa são nossos irmãos.

    As encostas escarpadas, os prados húmidos, o calor do corpo do cavalo e do homem, todos pertencem à mesma família. Se vendermos esta terra, não ireis, decerto, ensinar aos vossos filhos que ela é sagrada. Como poderei dizer-vos que o murmúrio da água é a voz do pai do meu pai…

    Também os rios são nossos irmãos porque nos libertam da sede, arrastam as nossas canoas, trazem até nós os peixes… E, além do mais, cada reflexo nas claras águas dos nossos lagos relata histórias e memórias da vida das nossas gentes. Sim, Grande Chefe de Washington, os nossos rios são nossos irmãos e saciam a nossa sede, levam as nossas canoas e alimentam os nossos filhos.

    Se vos vendêssemos a nossa terra, teríeis de recordar e de ensinar aos vossos filhos que os rios são nossos irmãos e também seus. E é por isso que eles devem tratá-los com a mesma doçura com que se trata um irmão. Sabemos que o homem branco não percebe a nossa maneira de ser. Para ele um pedaço de terra é igual a um outro pedaço de terra, pois não a vê como irmã mas como inimiga. Depois de ela ser sua, despreza-a e segue o seu caminho.

    Deixa para trás a campa dos seus pais sem se importar. Sequestra a vida dos seus filhos e também não se importa. Não lhe interessa a campa dos seus antepassados nem o património dos seus filhos esquecidos. Trata a sua Mãe-Terra e o seu Irmão-Firmamento como objectos que se compram, se exploram e se vendem tal como ovelhas ou contas coloridas. O seu apetite devora a terra, deixando atrás de si um completo deserto.

    Não consigo entender. As vossas cidades ferem os olhos do homem pele-vermelha. Talvez seja porque somos selvagens e não podemos compreender. Não há um único lugar tranquilo nas cidades do homem branco. Nenhum lugar onde se possa ouvir o desenrolar das folhas ou o rumor das asas de um insecto na Primavera.

    O barulho da cidade é um insulto para o ouvido. E eu pergunto-me: que tipo de vida tem o homem que não é capaz de escutar o grito solitário de uma garça ou o diálogo nocturno das rãs em redor de uma lagoa? Sou um pele-vermelha e não consigo entender. Nós preferimos o suave murmúrio do vento sobre a superfície de um lago, e o odor deste mesmo vento purificado pela chuva do meio-dia ou perfumado com o aroma dos pinheiros.

    Quando o último pele-vermelha tiver desaparecido desta terra, quando a sua sombra não for mais do que uma lembrança, como a de uma nuvem que passa pela pradaria, mesmo então estes ribeiros e estes bosques estarão povoados pelo espírito do meu povo. Porque nós amamos esta terra como uma criança ama o bater do coração da sua mãe.

    Se decidisse aceitar a vossa oferta, teria de vos sujeitar a uma condição: que o homem branco considere os animais desta terra como irmãos.

    Sou selvagem e não compreendo outra forma de vida. Tenho visto milhares de búfalos a apodrecer, abandonados nas pradarias, mortos a tiro pelo homem branco que dispara de um comboio que passa. Sou selvagem e não compreendo como uma máquina fumegante pode ser mais importante que o búfalo, que apenas matamos para sobreviver.

    Tudo o que acontece aos animais acontecerá também ao homem. Todas as coisas estão ligadas. Se tudo desaparecer, o homem pode morrer numa grande solidão espiritual. Todas as coisas se interligam. Ensinai aos vossos filhos o que nós ensinamos aos nossos sobre a terra: que a Terra é nossa Mãe e que tudo o que lhe acontece a nós acontece aos filhos da terra.

    Se o homem cuspir na terra, cospe em si mesmo. Sabemos que a terra não pertence ao homem, mas que é o homem que pertence à terra. Os desígnios terrenos são misteriosos para nós. Não compreendemos porque os bisontes são todos massacrados, porque são domesticados os cavalos selvagens, nem por que os lugares mais secretos dos bosques estão impregnados do cheiro dos homens, nem porque a vista das belas colinas está guardada pelos “filhos que falam”.

    Talvez um dia sejamos irmãos. Logo veremos. Mas estamos certos de uma coisa que talvez o homem branco descubra um dia: o nosso Deus é um mesmo Deus. Agora podeis pensar que Ele vos pertence, da mesma forma que acreditais que as nossas terras vos pertencem. Mas não é assim. Ele é o Deus de todos os homens e a sua compaixão alcança por igual o pele-vermelha e o homem branco.

    Esta terra tem um valor inestimável para Ele e maltratá-la pode provocar a ira do Criador. O que é feito dos bosques profundos? Desapareceram. O que é feito da grande águia? Desapareceu também. Mas o homem não teceu a trama da vida: isto sabemos. Ele é apenas um fio dessa trama. E o que lhe faz, fá-lo a si mesmo.

    Também os brancos se extinguirão, talvez antes das outras tribos. O homem não teceu a rede da vida. É apenas um fio e está a desafiar a desgraça se ousar destruir essa rede. Tudo está relacionado entre si como o sangue de uma família. E, se sujardes o vosso leito, uma noite morrereis sufocados pelos vossos excrementos. Assim se acaba a vida e só nos restará a possibilidade de tentar sobreviver.

    Retirado de VERTICALIZAR

    Amigo Chefe Seattle,

    Li a tua carta escrita em 1854 ao grande Chefe Branco de Washington.
    Sou um homem de 1978 que vive, como tu previste, num mundo em decadência e destruição. Já não ouço o sussurrar do vento nem o diálogo nocturno das rãs nos charcos da selva. Já nem temos selva.

    As flores murcham, as árvores agonizam, os pássaros fogem e os insectos deixam de zumbir. Sei que sou um homem enjaulado numa cidade, enquanto outrora tu vivias nas pradarias, lá onde bisontes e búfalos te alimentavam o corpo e a alma.

    Os rios, para ti sagrados, são hoje para mim apenas uma miragem de infância. Neles, em vez de peixes a fazerem corridas e acrobacias, eu vejo o lixo da nossa civilização, os detritos deste mundo, as opulências mortas de uma humanidade que se afunda vertiginosamente na era do plástico.

    Olho para as estrelas e o luar. Parecem mais distantes do que são, e os meus olhos, desabituados já de os observar, cansam-se facilmente. Não tenho, como tu tinhas, esse poder de olhar de frente o sol, de receber – sem me cegar – a sua luz e o seu calor.

    As águias, vi uma ou outra, como se fossem já animais pré-históricos, aturdidos e se calhar confusos, sem perceberem o que fizemos desta Terra.

    E o mar, esse, sobretudo o que vinha dantes banhar as nossas praias e namorar a areia branca, vem agora sujá-las, com o lixo que lhe deitaram dentro. Tem um ar triste, de um mendigo que, às vezes, se revolta e destrói as grandes construções dos nossos engenheiros.

    Ah! Meu querido amigo selvagem! Como eu, que não vivi no teu tempo, nem nas tuas pradarias, tenho saudades da tua Terra sagrada!

    Sabes, agora temos frutos maiores, calibrados, estudados, enxertados, fertilizados e envenenados. Não sabem a nada, nem à frescura do néctar da flor que os gerou, nem ao perfume de que tu falas.

    A nossa sabedoria é outra. Transformámos tudo, progredimos, inventámos, criámos coisas que tu nem imaginas. Olha, substituímos o vento e o sol por uma coisa que se chama energia nuclear.

    Sabes, é que nós precisamos de mais energia. Criámos tantas coisas, somos seres tão exigentes, que a energia da Natureza não chega para os semideuses que nós somos.

    Desviámos rios, irrigámos as terras, morreram muitos peixes, passámos fome; porém, temos coisas que tu nem sequer podias imaginar.

    Sabes o que é um arranha-céus com ar condicionado, elevadores que nos levam para cima e para baixo? Claro, não sabes. Tu não precisavas de morar para cima de ti próprio. Tinhas espaço e moravas para os lados.

    Nós vivemos a correr; tu contemplavas. Contentavas-te com pouco. Não admira, tu eras selvagem. Nós, não, temos necessidade de mais, cada vez mais, cada vez mais!

    É que nós não nos pertencemos. Pertencemos ao todo. Cada um é uma pequena peça que gira e roda sem saber porquê, e sem ter tempo para saber.

    Tu tinhas espaço, tinhas tempo e tinhas-te a ti.

    Como tu disseste, Vocês morrerão afogados nos vossos próprios resíduos.

    Júlio Roberto
    Poema Ecológico
    Lisboa, Ed. ITAU, 1981
    Adaptação

    Retirado de: VERTICALIZAR

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